1. Depois disto abriu a sua boca, e amaldiçoou o seu dia.

2. E , falando, disse:

3. Pereça o dia em que nasci, e a noite em que se disse: Foi concebido um homem!

4. Converta-se aquele dia em trevas; e Deus, lá de cima, não tenha cuidado dele, nem resplandeça sobre ele a luz.

5. Contaminem-no as trevas e a sombra da morte; habitem sobre ele nuvens; a escuridão do dia o espante!

6. Quanto àquela noite, dela se apodere a escuridão; e não se regozije ela entre os dias do ano; e não entre no número dos meses!

7. Ah! que solitária seja aquela noite, e nela não entre voz de júbilo!

8. Amaldiçoem-na aqueles que amaldiçoam o dia, que estão prontos para suscitar o seu pranto.

9. Escureçam-se as estrelas do seu crepúsculo; que espere a luz, e não venha; e não veja as pálpebras da alva;

10. Porque não fechou as portas do ventre; nem escondeu dos meus olhos a canseira.

11. Por que não morri eu desde a madre? E em saindo do ventre, não expirei?

12. Por que me receberam os joelhos? E por que os peitos, para que mamasse?

13. Porque já agora jazeria e repousaria; dormiria, e então haveria repouso para mim.

14. Com os reis e conselheiros da terra, que para si edificam casas nos lugares assolados,

15. Ou com os príncipes que possuem ouro, que enchem as suas casas de prata,

16. Ou como aborto oculto, não existiria; como as crianças que não viram a luz.

17. Ali os maus cessam de perturbar; e ali repousam os cansados.

18. Ali os presos juntamente repousam, e não ouvem a voz do exator.

19. Ali está o pequeno e o grande, e o servo livre de seu senhor.

20. Por que se dá luz ao miserável, e vida aos amargurados de ânimo?

21. Que esperam a morte, e ela não vem; e cavam em procura dela mais do que de tesouros ocultos;

22. Que de alegria saltam, e exultam, achando a sepultura?

23. Por que se dá luz ao homem, cujo caminho é oculto, e a quem Deus o encobriu?

24. Porque antes do meu pão vem o meu suspiro; e os meus gemidos se derramam como água.

25. Porque aquilo que temia me sobreveio; e o que receava me aconteceu.

26. Nunca estive tranqüilo, nem sosseguei, nem repousei, mas veio sobre mim a perturbação.

1. Então respondeu Elifaz o temanita, e disse:

2. Se intentarmos falar-te, enfadar-te-ás? Mas quem poderia conter as palavras?

3. Eis que ensinaste a muitos, e tens fortalecido as mãos fracas.

4. As tuas palavras firmaram os que tropeçavam e os joelhos desfalecentes tens fortalecido.

5. Mas agora, que se trata de ti, te enfadas; e tocando-te a ti, te perturbas.

6. Porventura não é o teu temor de Deus a tua confiança, e a tua esperança a integridade dos teus caminhos?

7. Lembra-te agora qual é o inocente que jamais pereceu? E onde foram os sinceros destruídos?

8. Segundo eu tenho visto, os que lavram iniqüidade, e semeiam mal, segam o mesmo.

9. Com o hálito de Deus perecem; e com o sopro da sua ira se consomem.

10. O rugido do leão, e a voz do leão feroz, e os dentes dos leõezinhos se quebram.

11. Perece o leão velho, porque não tem presa; e os filhos da leoa andam dispersos.

12. Uma coisa me foi trazida em segredo; e os meus ouvidos perceberam um sussurro dela.

13. Entre pensamentos vindos de visões da noite, quando cai sobre os homens o sono profundo,

14. Sobrevieram-me o espanto e o tremor, e todos os meus ossos estremeceram.

15. Então um espírito passou por diante de mim; fez-me arrepiar os cabelos da minha carne.

16. Parou ele, porém não conheci a sua feição; um vulto estava diante dos meus olhos; houve silêncio, e ouvi uma voz que dizia:

17. Seria porventura o homem mais justo do que Deus? Seria porventura o homem mais puro do que o seu Criador?

18. Eis que ele não confia nos seus servos e aos seus anjos atribui loucura;

19. Quanto menos àqueles que habitam em casas de lodo, cujo fundamento está no pó, e são esmagados como a traça!

20. Desde a manhã até à tarde são despedaçados; e eternamente perecem sem que disso se faça caso.

21. Porventura não passa com eles a sua excelência? Morrem, mas sem sabedoria.

1. Chama agora; há alguém que te responda? E para qual dos santos te virarás?

2. Porque a ira destrói o louco; e o zelo mata o tolo.

3. Bem vi eu o louco lançar raízes; porém logo amaldiçoei a sua habitação.

4. Seus filhos estão longe da salvação; e são despedaçados às portas, e não há quem os livre.

5. A sua messe, o faminto a devora, e até dentre os espinhos a tira; e o salteador traga a sua fazenda.

6. Porque do pó não procede a aflição, nem da terra brota o trabalho.

7. Mas o homem nasce para a tribulação, como as faíscas se levantam para voar.

8. Porém eu buscaria a Deus; e a ele entregaria a minha causa.

9. Ele faz coisas grandes e inescrutáveis, e maravilhas sem número.

10. Ele dá a chuva sobre a terra, e envia águas sobre os campos.

11. Para pôr aos abatidos num lugar alto; e para que os enlutados se exaltem na salvação.

12. Ele aniquila as imaginações dos astutos, para que as suas mãos não possam levar coisa alguma a efeito.

13. Ele apanha os sábios na sua própria astúcia; e o conselho dos perversos se precipita.

14. Eles de dia encontram as trevas; e ao meio dia andam às apalpadelas como de noite.

15. Porém ao necessitado livra da espada, e da boca deles, e da mão do forte.

16. Assim há esperança para o pobre; e a iniqüidade tapa a sua boca.

17. Eis que bem-aventurado é o homem a quem Deus repreende; não desprezes, pois, a correção do Todo-Poderoso.

18. Porque ele faz a chaga, e ele mesmo a liga; ele fere, e as suas mãos curam.

19. Em seis angústias te livrará; e na sétima o mal não te tocará.

20. Na fome te livrará da morte; e na guerra, da violência da espada.

21. Do açoite da língua estarás encoberto; e não temerás a assolação, quando vier.

22. Da assolação e da fome te rirás, e os animais da terra não temerás.

23. Porque até com as pedras do campo terás o teu acordo, e as feras do campo serão pacíficas contigo.

24. E saberás que a tua tenda está em paz; e visitarás a tua habitação, e não pecarás.

25. Também saberás que se multiplicará a tua descendência e a tua posteridade como a erva da terra,

26. Na velhice irás à sepultura, como se recolhe o feixe de trigo a seu tempo.

27. Eis que isto já o havemos inquirido, e assim é; ouve-o, e medita nisso para teu bem.

1. Então respondeu, dizendo:

2. Oh! se a minha mágoa retamente se pesasse, e a minha miséria juntamente se pusesse numa balança!

3. Porque, na verdade, mais pesada seria, do que a areia dos mares; por isso é que as minhas palavras têm sido engolidas.

4. Porque as flechas do Todo-Poderoso estão em mim, cujo ardente veneno suga o meu espírito; os terrores de Deus se armam contra mim.

5. Porventura zurrará o jumento montês junto à relva? Ou mugirá o boi junto ao seu pasto?

6. Ou comer-se-á sem sal o que é insípido? Ou haverá gosto na clara do ovo?

7. A minha alma recusa tocá-las, pois são para mim como comida repugnante.

8. Quem dera que se cumprisse o meu desejo, e que Deus me desse o que espero!

9. E que Deus quisesse quebrantar-me, e soltasse a sua mão, e me acabasse!

10. Isto ainda seria a minha consolação, e me refrigeraria no meu tormento, não me poupando ele; porque não ocultei as palavras do Santo.

11. Qual é a minha força, para que eu espere? Ou qual é o meu fim, para que tenha ainda paciência?

12. E porventura a minha força a força da pedra? Ou é de cobre a minha carne?

13. Está em mim a minha ajuda? Ou desamparou-me a verdadeira sabedoria?

14. Ao que está aflito devia o amigo mostrar compaixão, ainda ao que deixasse o temor do Todo-Poderoso.

15. Meus irmãos aleivosamente me trataram, como um ribeiro, como a torrente dos ribeiros que passam,

16. Que estão encobertos com a geada, e neles se esconde a neve,

17. No tempo em que se derretem com o calor, se desfazem, e em se aquentando, desaparecem do seu lugar.

18. Desviam-se as veredas dos seus caminhos; sobem ao vácuo, e perecem.

19. Os caminhantes de Tema os vêem; os passageiros de Sabá esperam por eles.

20. Ficam envergonhados, por terem confiado e, chegando ali, se confundem.

21. Agora sois semelhantes a eles; vistes o terror, e temestes.

22. Acaso disse eu: Dai-me ou oferecei-me presentes de vossos bens?

23. Ou livrai-me das mãos do opressor? Ou redimi-me das mãos dos tiranos?

24. Ensinai-me, e eu me calarei; e fazei-me entender em que errei.

25. Oh! quão fortes são as palavras da boa razão! Mas que é o que censura a vossa argüição?

26. Porventura buscareis palavras para me repreenderdes, visto que as razões do desesperado são como vento?

27. Mas antes lançais sortes sobre o órfão; e cavais uma cova para o amigo.

28. Agora, pois, se sois servidos, olhai para mim; e vede se minto em vossa presença.

29. Voltai, pois, não haja iniqüidade; tornai-vos, digo, que ainda a minha justiça aparecerá nisso.

30. Há porventura iniqüidade na minha língua? Ou não poderia o meu paladar distinguir coisas iníquas?

1. Porventura não tem o homem guerra sobre a terra? E não são os seus dias como os dias do jornaleiro?

2. Como o servo que suspira pela sombra, e como o jornaleiro que espera pela sua paga,

3. Assim me deram por herança meses de vaidade; e noites de trabalho me prepararam.

4. Deitando-me a dormir, então digo: Quando me levantarei? Mas comprida é a noite, e farto-me de me revolver na cama até à alva.

5. A minha carne se tem vestido de vermes e de torrões de pó; a minha pele está gretada, e se fez abominável.

6. Os meus dias são mais velozes do que a lançadeira do tecelão, e acabam-se, sem esperança.

7. Lembra-te de que a minha vida é como o vento; os meus olhos não tornarão a ver o bem.

8. Os olhos dos que agora me vêem não me verão mais; os teus olhos estarão sobre mim, porém não serei mais.

9. Assim como a nuvem se desfaz e passa, assim aquele que desce à sepultura nunca tornará a subir.

10. Nunca mais tornará à sua casa, nem o seu lugar jamais o conhecerá.

11. Por isso não reprimirei a minha boca; falarei na angústia do meu espírito; queixar-me-ei na amargura da minha alma.

12. Sou eu porventura o mar, ou a baleia, para que me ponhas uma guarda?

13. Dizendo eu: Consolar-me-á a minha cama; meu leito aliviará a minha ânsia;

14. Então me espantas com sonhos, e com visões me assombras;

15. Assim a minha alma escolheria antes a estrangulação; e antes a morte do que a vida.

16. A minha vida abomino, pois não viveria para sempre; retira-te de mim; pois vaidade são os meus dias.

17. Que é o homem, para que tanto o engrandeças, e ponhas nele o teu coração,

18. E cada manhã o visites, e cada momento o proves?

19. Até quando não apartarás de mim, nem me largarás, até que engula a minha saliva?

20. Se pequei, que te farei, ó Guarda dos homens? Por que fizeste de mim um alvo para ti, para que a mim mesmo me seja pesado?

21. E por que não perdoas a minha transgressão, e não tiras a minha iniqüidade? Porque agora me deitarei no pó, e de madrugada me buscarás, e não existirei mais.

1. Então respondendo Bildade o suíta, disse:

2. Até quando falarás tais coisas, e as palavras da tua boca serão como um vento impetuoso?

3. Porventura perverteria Deus o direito? E perverteria o Todo-Poderoso a justiça?

4. Se teus filhos pecaram contra ele, também ele os lançou na mão da sua transgressão.

5. Mas, se tu de madrugada buscares a Deus, e ao Todo-Poderoso pedires misericórdia;

6. Se fores puro e reto, certamente logo despertará por ti, e restaurará a morada da tua justiça.

7. O teu princípio, na verdade, terá sido pequeno, porém o teu último estado crescerá em extremo.

8. Pois, eu te peço, pergunta agora às gerações passadas; e prepara-te para a inquirição de seus pais.

9. Porque nós somos de ontem, e nada sabemos; porquanto nossos dias sobre a terra são como a sombra.

10. Porventura não te ensinarão eles, e não te falarão, e do seu coração não tirarão palavras?

11. Porventura cresce o junco sem lodo? Ou cresce a espadana sem água?

12. Estando ainda no seu verdor, ainda que não cortada, todavia antes de qualquer outra erva se seca.

13. Assim são as veredas de todos quantos se esquecem de Deus; e a esperança do hipócrita perecerá.

14. Cuja esperança fica frustrada; e a sua confiança será como a teia de aranha.

15. Encostar-se-á à sua casa, mas ela não subsistirá; apegar-se-á a ela, mas não ficará em pé.

16. Ele é viçoso perante o sol, e os seus renovos saem sobre o seu jardim;

17. As suas raízes se entrelaçam, junto à fonte; para o pedregal atenta.

18. Se Deus o consumir do seu lugar, negá-lo-á este, dizendo: Nunca te vi!

19. Eis que este é a alegria do seu caminho, e outros brotarão do pó.

20. Eis que Deus não rejeitará ao reto; nem toma pela mão aos malfeitores;

21. Até que de riso te encha a boca, e os teus lábios de júbilo.

22. Os que te odeiam se vestirão de confusão, e a tenda dos ímpios não existirá mais.

1. Então respondeu, dizendo:

2. Na verdade sei que assim é; porque, como se justificaria o homem para com Deus?

3. Se quiser contender com ele, nem a uma de mil coisas lhe poderá responder.

4. Ele é sábio de coração, e forte em poder; quem se endureceu contra ele, e teve paz?

5. Ele é o que remove os montes, sem que o saibam, e o que os transtorna no seu furor.

6. O que sacode a terra do seu lugar, e as suas colunas estremecem.

7. O que fala ao sol, e ele não nasce, e sela as estrelas.

8. O que sozinho estende os céus, e anda sobre os altos do mar.

9. O que fez a Ursa, o Orion, e o Sete-estrelo, e as recâmaras do sul.

10. O que faz coisas grandes e inescrutáveis; e maravilhas sem número.

11. Eis que ele passa por diante de mim, e não o vejo; e torna a passar perante mim, e não o sinto.

12. Eis que arrebata a presa; quem lha fará restituir? Quem lhe dirá: Que é o que fazes?

13. Deus não revogará a sua ira; debaixo dele se encurvam os auxiliadores soberbos.

14. Quanto menos lhe responderia eu, ou escolheria diante dele as minhas palavras!

15. Porque, ainda que eu fosse justo, não lhe responderia; antes ao meu Juiz pediria misericórdia.

16. Ainda que chamasse, e ele me respondesse, nem por isso creria que desse ouvidos à minha voz.

17. Porque me quebranta com uma tempestade, e multiplica as minhas chagas sem causa.

18. Não me permite respirar, antes me farta de amarguras.

19. Quanto às forças, eis que ele é o forte; e, quanto ao juízo, quem me citará com ele?

20. Se eu me justificar, a minha boca me condenará; se for perfeito, então ela me declarará perverso.

21. Se for perfeito, não estimo a minha alma; desprezo a minha vida.

22. A coisa é esta; por isso eu digo que ele consome ao perfeito e ao ímpio.

23. Quando o açoite mata de repente, então ele zomba da prova dos inocentes.

24. A terra é entregue nas mãos do ímpio; ele cobre o rosto dos juízes; se não é ele, quem é, logo?

25. E os meus dias são mais velozes do que um correio; fugiram, e não viram o bem.

26. Passam como navios veleiros; como águia que se lança à comida.

27. Se eu disser: Eu me esquecerei da minha queixa, e mudarei o meu aspecto e tomarei alento,

28. Receio todas as minhas dores, porque bem sei que não me terás por inocente.

29. E, sendo eu ímpio, por que trabalharei em vão?

30. Ainda que me lave com água de neve, e purifique as minhas mãos com sabão,

31. Ainda me submergirás no fosso, e as minhas próprias vestes me abominarão.

32. Porque ele não é homem, como eu, a quem eu responda, vindo juntamente a juízo.

33. Não há entre nós árbitro que ponha a mão sobre nós ambos.

34. Tire ele a sua vara de cima de mim, e não me amedronte o seu terror.

35. Então falarei, e não o temerei; porque não sou assim em mim mesmo.

1. A minha alma tem tédio da minha vida; darei livre curso à minha queixa, falarei na amargura da minha alma.

2. Direi a Deus: Não me condenes; faze-me saber por que contendes comigo.

3. Parece-te bem que me oprimas, que rejeites o trabalho das tuas mãos e resplandeças sobre o conselho dos ímpios?

4. Tens tu porventura olhos de carne? Vês tu como vê o homem?

5. São os teus dias como os dias do homem? Ou são os teus anos como os anos de um homem,

6. Para te informares da minha iniqüidade, e averiguares o meu pecado?

7. Bem sabes tu que eu não sou iníquo; todavia ninguém há que me livre da tua mão.

8. As tuas mãos me fizeram e me formaram completamente; contudo me consomes.

9. Peço-te que te lembres de que como barro me formaste e me farás voltar ao pó.

10. Porventura não me vazaste como leite, e como queijo não me coalhaste?

11. De pele e carne me vestiste, e de ossos e nervos me teceste.

12. Vida e misericórdia me concedeste; e o teu cuidado guardou o meu espírito.

13. Porém estas coisas as ocultaste no teu coração; bem sei eu que isto esteve contigo.

14. Se eu pecar, tu me observas; e da minha iniqüidade não me escusarás.

15. Se for ímpio, ai de mim! E se for justo, não levantarei a minha cabeça; farto estou da minha ignomínia; e vê qual é a minha aflição,

16. Porque se vai crescendo; tu me caças como a um leão feroz; tornas a fazer maravilhas para comigo.

17. Tu renovas contra mim as tuas testemunhas, e multiplicas contra mim a tua ira; revezes e combate estão comigo.

18. Por que, pois, me tiraste da madre? Ah! se então tivera expirado, e olho nenhum me visse!

19. Então eu teria sido como se nunca fora; e desde o ventre seria levado à sepultura!

20. Porventura não são poucos os meus dias? Cessa, pois, e deixa-me, para que por um pouco eu tome alento.

21. Antes que eu vá para o lugar de que não voltarei, à terra da escuridão e da sombra da morte;

22. Terra escuríssima, como a própria escuridão, terra da sombra da morte e sem ordem alguma, e onde a luz é como a escuridão.

1. Então respondeu Zofar, o naamatita, e disse:

2. Porventura não se dará resposta à multidão de palavras? E o homem falador será justificado?

3. Às tuas mentiras se hão de calar os homens? E zombarás tu sem que ninguém te envergonhe?

4. Pois dizes: A minha doutrina é pura, e limpo sou aos teus olhos.

5. Mas na verdade, quem dera que Deus falasse e abrisse os seus lábios contra ti!

6. E te fizesse saber os segredos da sabedoria, que é multíplice em eficácia; sabe, pois, que Deus exige de ti menos do que merece a tua iniqüidade.

7. Porventura alcançarás os caminhos de Deus, ou chegarás à perfeição do Todo-Poderoso?

8. Como as alturas dos céus é a sua sabedoria; que poderás tu fazer? E mais profunda do que o inferno, que poderás tu saber?

9. Mais comprida é a sua medida do que a terra, e mais larga do que o mar.

10. Se ele passar, aprisionar, ou chamar a juízo, quem o impedirá?

11. Porque ele conhece aos homens vãos, e vê o vício; e não o terá em consideração?

12. Mas o homem vão é falto de entendimento; sim, o homem nasce como a cria do jumento montês.

13. Se tu preparares o teu coração, e estenderes as tuas mãos para ele;

14. Se há iniqüidade na tua mão, lança-a para longe de ti e não deixes habitar a injustiça nas tuas tendas.

15. Porque então o teu rosto levantarás sem mácula; e estarás firme, e não temerás.

16. Porque te esquecerás do cansaço, e lembrar-te-ás dele como das águas que já passaram.

17. E a tua vida mais clara se levantará do que o meio dia; ainda que haja trevas, será como a manhã.

18. E terás confiança, porque haverá esperança; olharás em volta e repousarás seguro.

19. E deitar-te-ás, e ninguém te espantará; muitos suplicarão o teu favor.

20. Porém os olhos dos ímpios desfalecerão, e perecerá o seu refúgio; e a sua esperança será o expirar da alma.

1. Então respondeu, dizendo:

2. Na verdade, vós sois o povo, e convosco morrerá a sabedoria.

3. Também eu tenho entendimento como vós, e não vos sou inferior; e quem não sabe tais coisas como essas?

4. Eu sou motivo de riso para os meus amigos; eu, que invoco a Deus, e ele me responde; o justo e perfeito serve de zombaria.

5. Tocha desprezível é, na opinião do que está descansado, aquele que está pronto a vacilar com os pés.

6. As tendas dos assoladores têm descanso, e os que provocam a Deus estão seguros; nas suas mãos Deus lhes põe tudo.

7. Mas, pergunta agora às alimárias, e cada uma delas te ensinará; e às aves dos céus, e elas te farão saber;

8. Ou fala com a terra, e ela te ensinará; até os peixes do mar te contarão.

9. Quem não entende, por todas estas coisas, que a mão do SENHOR fez isto?

10. Na sua mão está a alma de tudo quanto vive, e o espírito de toda a carne humana.

11. Porventura o ouvido não provará as palavras, como o paladar prova as comidas?

12. Com os idosos está a sabedoria, e na longevidade o entendimento.

13. Com ele está a sabedoria e a força; conselho e entendimento tem.

14. Eis que ele derruba, e ninguém há que edifique; prende um homem, e ninguém há que o solte.

15. Eis que ele retém as águas, e elas secam; e solta-as, e elas transtornam a terra.

16. Com ele está a força e a sabedoria; seu é o que erra e o que o faz errar.

17. Aos conselheiros leva despojados, e aos juízes faz desvairar.

18. Solta a autoridade dos reis, e ata o cinto aos seus lombos.

19. Aos sacerdotes leva despojados, aos poderosos transtorna.

20. Aos acreditados tira a fala, e tira o entendimento aos anciãos.

21. Derrama desprezo sobre os príncipes, e afrouxa o cinto dos fortes.

22. Das trevas descobre coisas profundas, e traz à luz a sombra da morte.

23. Multiplica as nações e as faz perecer; dispersa as nações, e de novo as reconduz.

24. Tira o entendimento aos chefes dos povos da terra, e os faz vaguear pelos desertos, sem caminho.

25. Nas trevas andam às apalpadelas, sem terem luz, e os faz desatinar como ébrios.

1. Eis que tudo isto viram os meus olhos, e os meus ouvidos o ouviram e entenderam.

2. Como vós o sabeis, também eu o sei; não vos sou inferior.

3. Mas eu falarei ao Todo-Poderoso, e quero defender-me perante Deus.

4. Vós, porém, sois inventores de mentiras, e vós todos médicos que não valem nada.

5. Quem dera que vos calásseis de todo, pois isso seria a vossa sabedoria.

6. Ouvi agora a minha defesa, e escutai os argumentos dos meus lábios.

7. Porventura por Deus falareis perversidade e por ele falareis mentiras?

8. Fareis acepção da sua pessoa? Contendereis por Deus?

9. Ser-vos-ia bom, se ele vos esquadrinhasse? Ou zombareis dele, como se zomba de algum homem?

10. Certamente vos repreenderá, se em oculto fizerdes acepção de pessoas.

11. Porventura não vos espantará a sua alteza, e não cairá sobre vós o seu terror?

12. As vossas memórias são como provérbios de cinza; as vossas defesas como defesas de lodo.

13. Calai-vos perante mim, e falarei eu, e venha sobre mim o que vier.

14. Por que razão tomarei eu a minha carne com os meus dentes, e porei a minha vida na minha mão?

15. Ainda que ele me mate, nele esperarei; contudo os meus caminhos defenderei diante dele.

16. Também ele será a minha salvação; porém o hipócrita não virá perante ele.

17. Ouvi com atenção as minhas palavras, e com os vossos ouvidos a minha declaração.

18. Eis que já tenho ordenado a minha causa, e sei que serei achado justo.

19. Quem é o que contenderá comigo? Se eu agora me calasse, renderia o espírito.

20. Duas coisas somente não faças para comigo; então não me esconderei do teu rosto:

21. Desvia a tua mão para longe, de mim, e não me espante o teu terror.

22. Chama, pois, e eu responderei; ou eu falarei, e tu me responderás.

23. Quantas culpas e pecados tenho eu? Notifica-me a minha transgressão e o meu pecado.

24. Por que escondes o teu rosto, e me tens por teu inimigo?

25. Porventura acossarás uma folha arrebatada pelo vento? E perseguirás o restolho seco?

26. Por que escreves contra mim coisas amargas e me fazes herdar as culpas da minha mocidade?

27. Também pões os meus pés no tronco, e observas todos os meus caminhos, e marcas os sinais dos meus pés.

28. E ele me consome como a podridão, e como a roupa, à qual rói a traça.

1. O homem, nascido da mulher, é de poucos dias e farto de inquietação.

2. Sai como a flor, e murcha; foge também como a sombra, e não permanece.

3. E sobre este tal abres os teus olhos, e a mim me fazes entrar no juízo contigo.

4. Quem do imundo tirará o puro? Ninguém.

5. Visto que os seus dias estão determinados, contigo está o número dos seus meses; e tu lhe puseste limites, e não passará além deles.

6. Desvia-te dele, para que tenha repouso, até que, como o jornaleiro, tenha contentamento no seu dia.

7. Porque há esperança para a árvore que, se for cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus renovos.

8. Se envelhecer na terra a sua raiz, e o seu tronco morrer no pó,

9. Ao cheiro das águas brotará, e dará ramos como uma planta.

10. Porém, morto o homem, é consumido; sim, rendendo o homem o espírito, então onde está ele?

11. Como as águas se retiram do mar, e o rio se esgota, e fica seco,

12. Assim o homem se deita, e não se levanta; até que não haja mais céus, não acordará nem despertará de seu sono.

13. Quem dera que me escondesses na sepultura, e me ocultasses até que a tua ira se fosse; e me pusesses um limite, e te lembrasses de mim!

14. Morrendo o homem, porventura tornará a viver? Todos os dias de meu combate esperaria, até que viesse a minha mudança.

15. Chamar-me-ias, e eu te responderia, e terias afeto à obra de tuas mãos.

16. Mas agora contas os meus passos; porventura não vigias sobre o meu pecado?

17. A minha transgressão está selada num saco, e amontoas as minhas iniqüidades.

18. E, na verdade, caindo a montanha, desfaz-se; e a rocha se remove do seu lugar.

19. As águas gastam as pedras, as cheias afogam o pó da terra; e tu fazes perecer a esperança do homem;

20. Tu para sempre prevaleces contra ele, e ele passa; mudas o seu rosto, e o despedes.

21. Os seus filhos recebem honra, sem que ele o saiba; são humilhados; sem que ele o perceba;

22. Mas a sua carne nele tem dores; e a sua alma nele lamenta.

1. Então respondeu Elifaz o temanita, e disse:

2. Porventura proferirá o sábio vã sabedoria? E encherá do vento oriental o seu ventre,

3. Argüindo com palavras que de nada servem, e com razões, de que nada aproveita?

4. E tu tens feito vão o temor, e diminuis os rogos diante de Deus.

5. Porque a tua boca declara a tua iniqüidade; e tu escolhes a língua dos astutos.

6. A tua boca te condena, e não eu, e os teus lábios testificam contra ti.

7. És tu porventura o primeiro homem que nasceu? Ou foste formado antes dos outeiros?

8. Ou ouviste o secreto conselho de Deus e a ti só limitaste a sabedoria?

9. Que sabes tu, que nós não saibamos? Que entendes, que não haja em nós?

10. Também há entre nós encanecidos e idosos, muito mais idosos do que teu pai.

11. Porventura fazes pouco caso das consolações de Deus, e da suave palavra que te dirigimos?

12. Por que te arrebata o teu coração, e por que piscam os teus olhos?

13. Para virares contra Deus o teu espírito, e deixares sair tais palavras da tua boca?

14. Que é o homem, para que seja puro? E o que nasce da mulher, para ser justo?

15. Eis que ele não confia nos seus santos, e nem os céus são puros aos seus olhos.

16. Quanto mais abominável e corrupto é o homem que bebe a iniqüidade como a água?

17. Escuta-me, mostrar-te-ei; e o que tenho visto te contarei

18. (O que os sábios anunciaram, ouvindo-o de seus pais, e o não ocultaram;

19. Aos quais somente se dera a terra, e nenhum estranho passou por entre eles):

20. Todos os dias o ímpio é atormentado, e se reserva, para o tirano, um certo número de anos.

21. O sonido dos horrores está nos seus ouvidos; até na paz lhe sobrevém o assolador.

22. Não crê que tornará das trevas, mas que o espera a espada.

23. Anda vagueando por pão, dizendo: Onde está? Bem sabe que já o dia das trevas lhe está preparado, à mão.

24. Assombram-no a angústia e a tribulação; prevalecem contra ele, como o rei preparado para a peleja;

25. Porque estendeu a sua mão contra Deus, e contra o Todo-Poderoso se embraveceu.

26. Arremete contra ele com a dura cerviz, e contra os pontos grossos dos seus escudos.

27. Porquanto cobriu o seu rosto com a sua gordura, e criou gordura nas ilhargas.

28. E habitou em cidades assoladas, em casas em que ninguém morava, que estavam a ponto de fazer-se montões de ruínas.

29. Não se enriquecerá, nem subsistirá a sua fazenda, nem se estenderão pela terra as suas possessões.

30. Não escapará das trevas; a chama do fogo secará os seus renovos, e ao sopro da sua boca desaparecerá.

31. Não confie, pois, na vaidade, enganando-se a si mesmo, porque a vaidade será a sua recompensa.

32. Antes do seu dia ela se consumará; e o seu ramo não reverdecerá.

33. Sacudirá as suas uvas verdes, como as da vide, e deixará cair a sua flor como a oliveira,

34. Porque a congregação dos hipócritas se fará estéril, e o fogo consumirá as tendas do suborno.

35. Concebem a malícia, e dão à luz a iniqüidade, e o seu ventre prepara enganos.

1. Então respondeu , dizendo:

2. Tenho ouvido muitas coisas como estas; todos vós sois consoladores molestos.

3. Porventura não terão fim essas palavras de vento? Ou o que te irrita, para assim responderes?

4. Falaria eu também como vós falais, se a vossa alma estivesse em lugar da minha alma, ou amontoaria palavras contra vós, e menearia contra vós a minha cabeça?

5. Antes vos fortaleceria com a minha boca, e a consolação dos meus lábios abrandaria a vossa dor.

6. Se eu falar, a minha dor não cessa, e, calando-me eu, qual é o meu alívio?

7. Na verdade, agora tu me tens fatigado; tu assolaste toda a minha companhia,

8. Testemunha disto é que já me fizeste enrugado, e a minha magreza já se levanta contra mim, e no meu rosto testifica contra mim.

9. Na sua ira me despedaçou, e ele me perseguiu; rangeu os seus dentes contra mim; aguça o meu adversário os seus olhos contra mim.

10. Abrem a sua boca contra mim; com desprezo me feriram nos queixos, e contra mim se ajuntam todos.

11. Entrega-me Deus ao perverso, e nas mãos dos ímpios me faz cair.

12. Descansado estava eu, porém ele me quebrantou; e pegou-me pela cerviz, e me despedaçou; também me pôs por seu alvo.

13. Cercam-me os seus flecheiros; atravessa-me os rins, e não me poupa, e o meu fel derrama sobre a terra,

14. Fere-me com ferimento sobre ferimento; arremete contra mim como um valente.

15. Cosi sobre a minha pele o cilício, e revolvi a minha cabeça no pó.

16. O meu rosto está todo avermelhado de chorar, e sobre as minhas pálpebras está a sombra da morte:

17. Apesar de não haver violência nas minhas mãos, e de ser pura a minha oração.

18. Ah! terra, não cubras o meu sangue e não haja lugar para ocultar o meu clamor!

19. Eis que também agora a minha testemunha está no céu, e nas alturas o meu testemunho está.

20. Os meus amigos são os que zombam de mim; os meus olhos se desfazem em lágrimas diante de Deus.

21. Ah! se alguém pudesse contender com Deus pelo homem, como o homem pelo seu próximo!

22. Porque decorridos poucos anos, eu seguirei o caminho por onde não tornarei.

1. O meu espírito se vai consumindo, os meus dias se vão apagando, e só tenho perante mim a sepultura.

2. Deveras estou cercado de zombadores, e os meus olhos contemplam as suas provocações.

3. Promete agora, e dá-me um fiador para contigo; quem há que me dê a mão?

4. Porque aos seus corações encobriste o entendimento, por isso não os exaltarás.

5. O que denuncia os seus amigos, a fim de serem despojados, também os olhos de seus filhos desfalecerão.

6. Porém a mim me pôs por um provérbio dos povos, de modo que me tornei uma abominação para eles.

7. Pelo que já se escureceram de mágoa os meus olhos, e já todos os meus membros são como a sombra.

8. Os retos pasmarão disto, e o inocente se levantará contra o hipócrita.

9. E o justo seguirá o seu caminho firmemente, e o puro de mãos irá crescendo em força.

10. Mas, na verdade, tornai todos vós e vinde; porque sábio nenhum acharei entre vós.

11. Os meus dias passaram, e malograram os meus propósitos, as aspirações do meu coração.

12. Trocaram a noite em dia; a luz está perto do fim, por causa das trevas.

13. Se eu esperar, a sepultura será a minha casa; nas trevas estenderei a minha cama.

14. Å corrupção clamo: Tu és meu pai; e aos vermes: Vós sois minha mãe e minha irmã.

15. Onde, pois, estaria agora a minha esperança? Sim, a minha esperança, quem a poderá ver?

16. As barras da sepultura descerão quando juntamente no pó teremos descanso.

1. Então respondeu Bildade, o suíta, e disse:

2. Até quando poreis fim às palavras? Considerai bem, e então falaremos.

3. Por que somos tratados como animais, e como imundos aos vossos olhos?

4. Oh tu, que despedaças a tua alma na tua ira, será a terra deixada por tua causa? Remover-se-ão as rochas do seu lugar?

5. Na verdade, a luz dos ímpios se apagará, e a chama do seu fogo não resplandecerá.

6. A luz se escurecerá nas suas tendas, e a sua lâmpada sobre ele se apagará.

7. Os seus passos firmes se estreitarão, e o seu próprio conselho o derrubará.

8. Porque por seus próprios pés é lançado na rede, e andará nos fios enredados.

9. O laço o apanhará pelo calcanhar, e a armadilha o prenderá.

10. Está escondida debaixo da terra uma corda, e uma armadilha na vereda.

11. Os assombros o espantarão de todos os lados, e o perseguirão a cada passo.

12. Será faminto o seu vigor, e a destruição está pronta ao seu lado.

13. Serão devorados os membros do seu corpo; sim, o primogênito da morte devorará os seus membros.

14. A sua confiança será arrancada da sua tenda, onde está confiado, e isto o fará caminhar para o rei dos terrores.

15. Morará na sua mesma tenda, o que não lhe pertence; espalhar-se-á enxofre sobre a sua habitação.

16. Por baixo se secarão as suas raízes e por cima serão cortados os seus ramos.

17. A sua memória perecerá da terra, e pelas praças não terá nome.

18. Da luz o lançarão nas trevas, e afugentá-lo-ão do mundo.

19. Não terá filho nem neto entre o seu povo, e nem quem lhe suceda nas suas moradas.

20. Do seu dia se espantarão os do ocidente, assim como se espantam os do oriente.

21. Tais são, na verdade, as moradas do perverso, e este é o lugar do que não conhece a Deus.

1. Respondeu, porém, , dizendo:

2. Até quando afligireis a minha alma, e me quebrantareis com palavras?

3. Já dez vezes me vituperastes; não tendes vergonha de injuriar-me.

4. Embora haja eu, na verdade, errado, comigo ficará o meu erro.

5. Se deveras vos quereis engrandecer contra mim, e argüir-me pelo meu opróbrio,

6. Sabei agora que Deus é o que me transtornou, e com a sua rede me cercou.

7. Eis que clamo: Violência! Porém não sou ouvido. Grito: Socorro! Porém não há justiça.

8. O meu caminho ele entrincheirou, e já não posso passar, e nas minhas veredas pôs trevas.

9. Da minha honra me despojou; e tirou-me a coroa da minha cabeça.

10. Quebrou-me de todos os lados, e eu me vou; e arrancou a minha esperança, como a uma árvore.

11. E fez inflamar contra mim a sua ira, e me reputou para consigo, como a seus inimigos.

12. Juntas vieram as suas tropas, e prepararam contra mim o seu caminho, e se acamparam ao redor da minha tenda.

13. pôs longe de mim a meus irmãos, e os que me conhecem, como estranhos se apartaram de mim.

14. Os meus parentes me deixaram, e os meus conhecidos se esqueceram de mim.

15. Os meus domésticos e as minhas servas me reputaram como um estranho, e vim a ser um estrangeiro aos seus olhos.

16. Chamei a meu criado, e ele não me respondeu; cheguei a suplicar-lhe com a minha própria boca.

17. O meu hálito se fez estranho à minha mulher; tanto que supliquei o interesse dos filhos do meu corpo.

18. Até os pequeninos me desprezam, e, levantando-me eu, falam contra mim.

19. Todos os homens da minha confidência me abominam, e até os que eu amava se tornaram contra mim.

20. Os meus ossos se apegaram à minha pele e à minha carne, e escapei só com a pele dos meus dentes.

21. Compadecei-vos de mim, amigos meus, compadecei-vos de mim, porque a mão de Deus me tocou.

22. Por que me perseguis assim como Deus, e da minha carne não vos fartais?

23. Quem me dera agora, que as minhas palavras fossem escritas! Quem me dera, fossem gravadas num livro!

24. E que, com pena de ferro, e com chumbo, para sempre fossem esculpidas na rocha.

25. Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra.

26. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus,

27. Vê-lo-ei, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus rins se consomem no meu interior.

28. Na verdade, que devíeis dizer: Por que o perseguimos? Pois a raiz da acusação se acha em mim.

29. Temei vós mesmos a espada; porque o furor traz os castigos da espada, para saberdes que há um juízo.

1. Então respondeu Zofar, o naamatita, e disse:

2. Visto que os meus pensamentos me fazem responder, eu me apresso.

3. Eu ouvi a repreensão, que me envergonha, mas o espírito do meu entendimento responderá por mim.

4. Porventura não sabes tu que desde a antiguidade, desde que o homem foi posto sobre a terra,

5. O júbilo dos ímpios é breve, e a alegria dos hipócritas momentânea?

6. Ainda que a sua altivez suba até ao céu, e a sua cabeça chegue até às nuvens.

7. Contudo, como o seu próprio esterco, perecerá para sempre; e os que o viam dirão: Onde está?

8. Como um sonho voará, e não será achado, e será afugentado como uma visão da noite.

9. O olho, que já o viu, jamais o verá, nem o seu lugar o verá mais.

10. Os seus filhos procurarão agradar aos pobres, e as suas mãos restituirão os seus bens.

11. Os seus ossos estão cheios do vigor da sua mocidade, mas este se deitará com ele no pó.

12. Ainda que o mal lhe seja doce na boca, e ele o esconda debaixo da sua língua,

13. E o guarde, e não o deixe, antes o retenha no seu paladar,

14. Contudo a sua comida se mudará nas suas entranhas; fel de áspides será interiormente.

15. Engoliu riquezas, porém vomitá-las-á; do seu ventre Deus as lançará.

16. Veneno de áspides sorverá; língua de víbora o matará.

17. Não verá as correntes, os rios e os ribeiros de mel e manteiga.

18. Restituirá o seu trabalho, e não o engolirá; conforme ao poder de sua mudança, e não saltará de gozo.

19. Porquanto oprimiu e desamparou os pobres, e roubou a casa que não edificou.

20. Porquanto não sentiu sossego no seu ventre; nada salvará das coisas por ele desejadas.

21. Nada lhe sobejará do que coma; por isso as suas riquezas não durarão.

22. Sendo plena a sua abastança, estará angustiado; toda a força da miséria virá sobre ele.

23. Mesmo estando ele a encher a sua barriga, Deus mandará sobre ele o ardor da sua ira, e a fará chover sobre ele quando for comer.

24. Ainda que fuja das armas de ferro, o arco de bronze o atravessará.

25. Desembainhará a espada que sairá do seu corpo, e resplandecendo virá do seu fel; e haverá sobre ele assombros.

26. Toda a escuridão se ocultará nos seus esconderijos; um fogo não assoprado o consumirá, irá mal com o que ficar na sua tenda.

27. Os céus manifestarão a sua iniqüidade; e a terra se levantará contra ele.

28. As riquezas de sua casa serão transportadas; no dia da sua ira todas se derramarão.

29. Esta, da parte de Deus, é a porção do homem ímpio; esta é a herança que Deus lhe decretou.

1. Respondeu, porém, , dizendo:

2. Ouvi atentamente as minhas razões; e isto vos sirva de consolação.

3. Sofrei-me, e eu falarei; e havendo eu falado, zombai.

4. Porventura eu me queixo de algum homem? Porém, ainda que assim fosse, por que não se angustiaria o meu espírito?

5. Olhai para mim, e pasmai; e ponde a mão sobre a boca.

6. Porque, quando me lembro disto me perturbo, e a minha carne é sobressaltada de horror.

7. Por que razão vivem os ímpios, envelhecem, e ainda se robustecem em poder?

8. A sua descendência se estabelece com eles perante a sua face; e os seus renovos perante os seus olhos.

9. As suas casas têm paz, sem temor; e a vara de Deus não está sobre eles.

10. O seu touro gera, e não falha; pare a sua vaca, e não aborta.

11. Fazem sair as suas crianças, como a um rebanho, e seus filhos andam saltando.

12. Levantam a voz, ao som do tamboril e da harpa, e alegram-se ao som do órgão.

13. Na prosperidade gastam os seus dias, e num momento descem à sepultura.

14. E, todavia, dizem a Deus: Retira-te de nós; porque não desejamos ter conhecimento dos teus caminhos.

15. Quem é o Todo-Poderoso, para que nós o sirvamos? E que nos aproveitará que lhe façamos orações?

16. Vede, porém, que a prosperidade não está nas mãos deles; esteja longe de mim o conselho dos ímpios!

17. Quantas vezes sucede que se apaga a lâmpada dos ímpios, e lhes sobrevém a sua destruição? E Deus na sua ira lhes reparte dores!

18. Porque são como a palha diante do vento, e como a pragana, que arrebata o redemoinho.

19. Deus guarda a sua violência para seus filhos, e dá-lhe o pago, para que o conheça.

20. Seus olhos verão a sua ruína, e ele beberá do furor do Todo-Poderoso.

21. Por que, que prazer teria na sua casa, depois de morto, cortando-se-lhe o número dos seus meses?

22. Porventura a Deus se ensinaria ciência, a ele que julga os excelsos?

23. Um morre na força da sua plenitude, estando inteiramente sossegado e tranqüilo.

24. Com seus baldes cheios de leite, e a medula dos seus ossos umedecida.

25. E outro, ao contrário, morre na amargura do seu coração, não havendo provado do bem.

26. Juntamente jazem no pó, e os vermes os cobrem.

27. Eis que conheço bem os vossos pensamentos; e os maus intentos com que injustamente me fazeis violência.

28. Porque direis: Onde está a casa do príncipe, e onde a tenda em que moravam os ímpios?

29. Porventura não perguntastes aos que passam pelo caminho, e não conheceis os seus sinais,

30. Que o mau é preservado para o dia da destruição; e arrebatado no dia do furor?

31. Quem acusará diante dele o seu caminho, e quem lhe dará o pago do que faz?

32. Finalmente é levado à sepultura, e vigiam-lhe o túmulo.

33. Os torrões do vale lhe são doces, e o seguirão todos os homens; e adiante dele foram inumeráveis.

34. Como, pois, me consolais com vaidade? Pois nas vossas respostas ainda resta a transgressão.

1. Então respondeu Elifaz, o temanita, dizendo:

2. Porventura será o homem de algum proveito a Deus? Antes a si mesmo o prudente será proveitoso.

3. Ou tem o Todo-Poderoso prazer em que tu sejas justo, ou algum lucro em que tu faças perfeitos os teus caminhos?

4. Ou te repreende, pelo temor que tem de ti, ou entra contigo em juízo?

5. Porventura não é grande a tua malícia, e sem termo as tuas iniqüidades?

6. Porque sem causa penhoraste a teus irmãos, e aos nus despojaste as vestes.

7. Não deste ao cansado água a beber, e ao faminto retiveste o pão.

8. Mas para o poderoso era a terra, e o homem tido em respeito habitava nela.

9. As viúvas despediste vazias, e os braços dos órfãos foram quebrados.

10. Por isso é que estás cercado de laços, e te perturba um pavor repentino,

11. Ou trevas em que nada vês, e a abundância de águas que te cobre.

12. Porventura Deus não está na altura dos céus? Olha para a altura das estrelas; quão elevadas estão.

13. E dizes: que sabe Deus? Porventura julgará ele através da escuridão?

14. As nuvens são esconderijo para ele, para que não veja; e passeia pelo circuito dos céus.

15. Porventura queres guardar a vereda antiga, que pisaram os homens iníquos?

16. Eles foram arrebatados antes do seu tempo; sobre o seu fundamento um dilúvio se derramou.

17. Diziam a Deus: Retira-te de nós. E: Que foi que o Todo-Poderoso nos fez?

18. Contudo ele encheu de bens as suas casas; mas o conselho dos ímpios esteja longe de mim.

19. Os justos o vêem, e se alegram, e o inocente escarnece deles.

20. Porquanto o nosso adversário não foi destruído, mas o fogo consumiu o que restou deles.

21. Apega-te, pois, a ele, e tem paz, e assim te sobrevirá o bem.

22. Aceita, peço-te, a lei da sua boca, e põe as suas palavras no teu coração.

23. Se te voltares ao Todo-Poderoso, serás edificado; se afastares a iniqüidade da tua tenda,

24. E deitares o teu tesouro no pó, e o ouro de Ofir nas pedras dos ribeiros,

25. Então o Todo-Poderoso será o teu tesouro, e a tua prata acumulada.

26. Porque então te deleitarás no Todo-Poderoso, e levantarás o teu rosto para Deus.

27. Orarás a ele, e ele te ouvirá, e pagarás os teus votos.

28. Determinarás tu algum negócio, e ser-te-á firme, e a luz brilhará em teus caminhos.

29. Quando te abaterem, então tu dirás: Haja exaltação! E Deus salvará ao humilde.

30. E livrará até ao que não é inocente; porque será libertado pela pureza de tuas mãos.

1. Respondeu, porém, , dizendo:

2. Ainda hoje a minha queixa está em amargura; a minha mão pesa sobre meu gemido.

3. Ah, se eu soubesse onde o poderia achar! Então me chegaria ao seu tribunal.

4. Exporia ante ele a minha causa, e a minha boca encheria de argumentos.

5. Saberia as palavras com que ele me responderia, e entenderia o que me dissesse.

6. Porventura segundo a grandeza de seu poder contenderia comigo? Não: ele antes me atenderia.

7. Ali o reto pleitearia com ele, e eu me livraria para sempre do meu Juiz.

8. Eis que se me adianto, ali não está; se torno para trás, não o percebo.

9. Se opera à esquerda, não o vejo; se se encobre à direita, não o diviso.

10. Porém ele sabe o meu caminho; provando-me ele, sairei como o ouro.

11. Nas suas pisadas os meus pés se afirmaram; guardei o seu caminho, e não me desviei dele.

12. Do preceito de seus lábios nunca me apartei, e as palavras da sua boca guardei mais do que a minha porção.

13. Mas, se ele resolveu alguma coisa, quem então o desviará? O que a sua alma quiser, isso fará.

14. Porque cumprirá o que está ordenado a meu respeito, e muitas coisas como estas ainda tem consigo.

15. Por isso me perturbo perante ele, e quando isto considero, temo-me dele.

16. Porque Deus macerou o meu coração, e o Todo-Poderoso me perturbou.

17. Porquanto não fui desarraigado por causa das trevas, e nem encobriu o meu rosto com a escuridão.

1. Visto que do Todo-Poderoso não se encobriram os tempos, por que, os que o conhecem, não vêem os seus dias?

2. Até os limites removem; roubam os rebanhos, e os apascentam.

3. Do órfão levam o jumento; tomam em penhor o boi da viúva.

4. Desviam do caminho os necessitados; e os pobres da terra juntos se escondem.

5. Eis que, como jumentos monteses no deserto, saem à sua obra, madrugando para a presa; a campina dá mantimento a eles e aos seus filhos.

6. No campo segam o seu pasto, e vindimam a vinha do ímpio.

7. Ao nu fazem passar a noite sem roupa, não tendo ele coberta contra o frio.

8. Pelas chuvas das montanhas são molhados e, não tendo refúgio, abraçam-se com as rochas.

9. Ao orfãozinho arrancam dos peitos, e tomam o penhor do pobre.

10. Fazem com que os nus vão sem roupa e aos famintos tiram as espigas.

11. Dentro das suas paredes espremem o azeite; pisam os lagares, e ainda têm sede.

12. Desde as cidades gemem os homens, e a alma dos feridos exclama, e contudo Deus lho não imputa como loucura.

13. Eles estão entre os que se opõem à luz; não conhecem os seus caminhos, e não permanecem nas suas veredas.

14. De madrugada se levanta o homicida, mata o pobre e necessitado, e de noite é como o ladrão.

15. Assim como o olho do adúltero aguarda o crepúsculo, dizendo: Não me verá olho nenhum; e oculta o rosto,

16. Nas trevas minam as casas, que de dia se marcaram; não conhecem a luz.

17. Porque a manhã para todos eles é como sombra de morte; pois, sendo conhecidos, sentem os pavores da sombra da morte.

18. É ligeiro sobre a superfície das águas; maldita é a sua parte sobre a terra; não volta pelo caminho das vinhas.

19. A secura e o calor desfazem as águas da neve; assim desfará a sepultura aos que pecaram.

20. A madre se esquecerá dele, os vermes o comerão gostosamente; nunca mais haverá lembrança dele; e a iniqüidade se quebrará como uma árvore.

21. Aflige à estéril que não dá à luz, e à viúva não faz bem.

22. Até aos poderosos arrasta com a sua força; se ele se levanta, não há vida segura.

23. Se Deus lhes dá descanso, estribam-se nisso; seus olhos porém estão nos caminhos deles.

24. Por um pouco se exaltam, e logo desaparecem; são abatidos, encerrados como todos os demais; e cortados como as cabeças das espigas.

25. Se agora não é assim, quem me desmentirá e desfará as minhas razões?

1. Então respondeu Bildade, o suíta, e disse:

2. Com ele estão domínio e temor; ele faz paz nas suas alturas.

3. Porventura têm número as suas tropas? E sobre quem não se levanta a sua luz?

4. Como, pois, seria justo o homem para com Deus, e como seria puro aquele que nasce de mulher?

5. Eis que até a lua não resplandece, e as estrelas não são puras aos seus olhos.

6. E quanto menos o homem, que é um verme, e o filho do homem, que é um vermezinho!

1. , porém, respondeu, dizendo:

2. Como ajudaste aquele que não tinha força, e sustentaste o braço que não tinha vigor?

3. Como aconselhaste aquele que não tinha sabedoria, e plenamente fizeste saber a causa, assim como era?

4. A quem proferiste palavras, e de quem é o espírito que saiu de ti?

5. Os mortos tremem debaixo das águas, com os seus moradores.

6. O inferno está nu perante ele, e não há coberta para a perdição.

7. O norte estende sobre o vazio; e suspende a terra sobre o nada.

8. Prende as águas nas suas nuvens, todavia a nuvem não se rasga debaixo delas.

9. Encobre a face do seu trono, e sobre ele estende a sua nuvem.

10. Marcou um limite sobre a superfície das águas em redor, até aos confins da luz e das trevas.

11. As colunas do céu tremem, e se espantam da sua ameaça.

12. Com a sua força fende o mar, e com o seu entendimento abate a soberba.

13. Pelo seu Espírito ornou os céus; a sua mão formou a serpente enroscadiça.

14. Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele! Quem, pois, entenderia o trovão do seu poder?

1. E prosseguindo em seu discurso, disse:

2. Vive Deus, que desviou a minha causa, e o Todo-Poderoso, que amargurou a minha alma.

3. Que, enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus nas minhas narinas,

4. Não falarão os meus lábios iniqüidade, nem a minha língua pronunciará engano.

5. Longe de mim que eu vos justifique; até que eu expire, nunca apartarei de mim a minha integridade.

6. A minha justiça me apegarei e não a largarei; não me reprovará o meu coração em toda a minha vida.

7. Seja como o ímpio o meu inimigo, e como o perverso o que se levantar contra mim.

8. Porque qual será a esperança do hipócrita, havendo sido avaro, quando Deus lhe arrancar a sua alma?

9. Porventura Deus ouvirá o seu clamor, sobrevindo-lhe a tribulação?

10. Deleitar-se-á no Todo-Poderoso, ou invocará a Deus em todo o tempo?

11. Ensinar-vos-ei acerca da mão de Deus, e não vos encobrirei o que está com o Todo-Poderoso.

12. Eis que todos vós já o vistes; por que, pois, vos desvaneceis na vossa vaidade?

13. Esta, pois, é a porção do homem ímpio da parte de Deus, e a herança, que os tiranos receberão do Todo-Poderoso.

14. Se os seus filhos se multiplicarem, será para a espada, e a sua prole não se fartará de pão.

15. Os que ficarem dele na morte serão enterrados, e as suas viúvas não chorarão.

16. Se amontoar prata como pó, e aparelhar roupas como lodo,

17. Ele as aparelhará, porém o justo as vestirá, e o inocente repartirá a prata.

18. E edificará a sua casa como a traça, e como o guarda que faz a cabana.

19. Rico se deita, e não será recolhido; abre os seus olhos, e nada terá.

20. Pavores se apoderam dele como águas; de noite o arrebata a tempestade.

21. O vento oriental leva-o, e ele se vai, e varre-o com ímpeto do seu lugar.

22. E Deus lançará isto sobre ele, e não lhe poupará; irá fugindo da sua mão.

23. Cada um baterá palmas contra ele e assobiará tirando-o do seu lugar.

1. Na verdade, há veios de onde se extrai a prata, e lugar onde se refina o ouro.

2. O ferro tira-se da terra, e da pedra se funde o cobre.

3. Ele põe fim às trevas, e toda a extremidade ele esquadrinha, a pedra da escuridão e a da sombra da morte.

4. Abre um poço de mina longe dos homens, em lugares esquecidos do pé; ficando pendentes longe dos homens, oscilam de um lado para outro.

5. Da terra procede o pão, mas por baixo é revolvida como por fogo.

6. As suas pedras são o lugar da safira, e tem pó de ouro.

7. Essa vereda a ave de rapina a ignora, e não a viram os olhos da gralha.

8. Nunca a pisaram filhos de animais altivos, nem o feroz leão passou por ela.

9. Ele estende a sua mão contra o rochedo, e revolve os montes desde as suas raízes.

10. Dos rochedos faz sair rios, e o seu olho vê tudo o que há de precioso.

11. Os rios tapa, e nem uma gota sai deles, e tira à luz o que estava escondido.

12. Porém onde se achará a sabedoria, e onde está o lugar da inteligência?

13. O homem não conhece o seu valor, e nem ela se acha na terra dos viventes.

14. O abismo diz: Não está em mim; e o mar diz: Ela não está comigo.

15. Não se dará por ela ouro fino, nem se pesará prata em troca dela.

16. Nem se pode comprar por ouro fino de Ofir, nem pelo precioso ônix, nem pela safira.

17. Com ela não se pode comparar o ouro nem o cristal; nem se trocará por jóia de ouro fino.

18. Não se fará menção de coral nem de pérolas; porque o valor da sabedoria é melhor que o dos rubis.

19. Não se lhe igualará o topázio da Etiópia, nem se pode avaliar por ouro puro.

20. Donde, pois, vem a sabedoria, e onde está o lugar da inteligência?

21. Pois está encoberta aos olhos de todo o vivente, e oculta às aves do céu.

22. A perdição e a morte dizem: Ouvimos com os nossos ouvidos a sua fama.

23. Deus entende o seu caminho, e ele sabe o seu lugar.

24. Porque ele vê as extremidades da terra; e vê tudo o que há debaixo dos céus.

25. Quando deu peso ao vento, e tomou a medida das águas;

26. Quando prescreveu leis para a chuva e caminho para o relâmpago dos trovões;

27. Então a viu e relatou; estabeleceu-a, e também a esquadrinhou.

28. E disse ao homem: Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e apartar-se do mal é a inteligência.

1. E prosseguiu no seu discurso, dizendo:

2. Ah! quem me dera ser como eu fui nos meses passados, como nos dias em que Deus me guardava!

3. Quando fazia resplandecer a sua lâmpada sobre a minha cabeça e quando eu pela sua luz caminhava pelas trevas.

4. Como fui nos dias da minha mocidade, quando o segredo de Deus estava sobre a minha tenda;

5. Quando o Todo-Poderoso ainda estava comigo, e os meus filhos em redor de mim.

6. Quando lavava os meus passos na manteiga, e da rocha me corriam ribeiros de azeite;

7. Quando eu saía para a porta da cidade, e na rua fazia preparar a minha cadeira,

8. Os moços me viam, e se escondiam, e até os idosos se levantavam e se punham em pé;

9. Os príncipes continham as suas palavras, e punham a mão sobre a sua boca;

10. A voz dos nobres se calava, e a sua língua apegava-se ao seu paladar.

11. Ouvindo-me algum ouvido, me tinha por bem-aventurado; vendo-me algum olho, dava testemunho de mim;

12. Porque eu livrava o miserável, que clamava, como também o órfão que não tinha quem o socorresse.

13. A bênção do que ia perecendo vinha sobre mim, e eu fazia que rejubilasse o coração da viúva.

14. Vestia-me da justiça, e ela me servia de vestimenta; como manto e diadema era a minha justiça.

15. Eu me fazia de olhos para o cego, e de pés para o coxo.

16. Dos necessitados era pai, e as causas de que eu não tinha conhecimento inquiria com diligência.

17. E quebrava os queixos do perverso, e dos seus dentes tirava a presa.

18. E dizia: No meu ninho expirarei, e multiplicarei os meus dias como a areia.

19. A minha raiz se estendia junto às águas, e o orvalho permanecia sobre os meus ramos;

20. A minha honra se renovava em mim, e o meu arco se reforçava na minha mão.

21. Ouviam-me e esperavam, e em silêncio atendiam ao meu conselho.

22. Havendo eu falado, não replicavam, e minhas razões distilavam sobre eles;

23. Porque me esperavam, como à chuva; e abriam a sua boca, como à chuva tardia.

24. Se eu ria para eles, não o criam, e a luz do meu rosto não faziam abater;

25. Eu escolhia o seu caminho, assentava-me como chefe, e habitava como rei entre as suas tropas; como aquele que consola os que pranteiam.

1. Agora, porém, se riem de mim os de menos idade do que eu, cujos pais eu teria desdenhado de pôr com os cães do meu rebanho.

2. De que também me serviria a força das mãos daqueles, cujo vigor se tinha esgotado?

3. De míngua e fome se debilitaram; e recolhiam-se para os lugares secos, tenebrosos, assolados e desertos.

4. Apanhavam malvas junto aos arbustos, e o seu mantimento eram as raízes dos zimbros.

5. Do meio dos homens eram expulsos, e gritavam contra eles, como contra o ladrão;

6. Para habitarem nos barrancos dos vales, e nas cavernas da terra e das rochas.

7. Bramavam entre os arbustos, e ajuntavam-se debaixo das urtigas.

8. Eram filhos de doidos, e filhos de gente sem nome, e da terra foram expulsos.

9. Agora, porém, sou a sua canção, e lhes sirvo de provérbio.

10. Abominam-me, e fogem para longe de mim, e no meu rosto não se privam de cuspir.

11. Porque Deus desatou a sua corda, e me oprimiu, por isso sacudiram de si o freio perante o meu rosto.

12. Å direita se levantam os moços; empurram os meus pés, e preparam contra mim os seus caminhos de destruição.

13. Desbaratam-me o caminho; promovem a minha miséria; contra eles não há ajudador.

14. Vêm contra mim como por uma grande brecha, e revolvem-se entre a assolação.

15. Sobrevieram-me pavores; como vento perseguem a minha honra, e como nuvem passou a minha felicidade.

16. E agora derrama-se em mim a minha alma; os dias da aflição se apoderaram de mim.

17. De noite se me traspassam os meus ossos, e os meus nervos não descansam.

18. Pela grandeza do meu mal está desfigurada a minha veste, que, como a gola da minha túnica, me cinge.

19. Lançou-me na lama, e fiquei semelhante ao pó e à cinza.

20. Clamo a ti, porém, tu não me respondes; estou em pé, porém, para mim não atentas.

21. Tornaste-te cruel contra mim; com a força da tua mão resistes violentamente.

22. Levantas-me sobre o vento, fazes-me cavalgar sobre ele, e derretes-me o ser.

23. Porque eu sei que me levarás à morte e à casa do ajuntamento determinada a todos os viventes.

24. Porém não estenderá a mão para o túmulo, ainda que eles clamem na sua destruição.

25. Porventura não chorei sobre aquele que estava aflito, ou não se angustiou a minha alma pelo necessitado?

26. Todavia aguardando eu o bem, então me veio o mal, esperando eu a luz, veio a escuridão.

27. As minhas entranhas fervem e não estão quietas; os dias da aflição me surpreendem.

28. Denegrido ando, porém não do sol; levantando-me na congregação, clamo por socorro.

29. Irmão me fiz dos chacais, e companheiro dos avestruzes.

30. Enegreceu-se a minha pele sobre mim, e os meus ossos estão queimados do calor.

31. A minha harpa se tornou em luto, e o meu órgão em voz dos que choram.

1. Fiz aliança com os meus olhos; como, pois, os fixaria numa virgem?

2. Que porção teria eu do Deus lá de cima, ou que herança do Todo-Poderoso desde as alturas?

3. Porventura não é a perdição para o perverso, o desastre para os que praticam iniqüidade?

4. Ou não vê ele os meus caminhos, e não conta todos os meus passos?

5. Se andei com falsidade, e se o meu pé se apressou para o engano

6. (Pese-me em balanças fiéis, e saberá Deus a minha sinceridade),

7. Se os meus passos se desviaram do caminho, e se o meu coração segue os meus olhos, e se às minhas mãos se apegou qualquer coisa,

8. Então semeie eu e outro coma, e seja a minha descendência arrancada até à raiz.

9. Se o meu coração se deixou seduzir por uma mulher, ou se eu armei traições à porta do meu próximo,

10. Então moa minha mulher para outro, e outros se encurvem sobre ela,

11. Porque é uma infâmia, e é delito pertencente aos juízes.

12. Porque é fogo que consome até à perdição, e desarraigaria toda a minha renda.

13. Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando eles contendiam comigo;

14. Então que faria eu quando Deus se levantasse? E, inquirindo a causa, que lhe responderia?

15. Aquele que me formou no ventre não o fez também a ele? Ou não nos formou do mesmo modo na madre?

16. Se retive o que os pobres desejavam, ou fiz desfalecer os olhos da viúva,

17. Ou se, sozinho comi o meu bocado, e o órfão não comeu dele

18. (Porque desde a minha mocidade cresceu comigo como com seu pai, e fui o guia da viúva desde o ventre de minha mãe),

19. Se alguém vi perecer por falta de roupa, e ao necessitado por não ter coberta,

20. Se os seus lombos não me abençoaram, se ele não se aquentava com as peles dos meus cordeiros,

21. Se eu levantei a minha mão contra o órfão, porquanto na porta via a minha ajuda,

22. Então caia do ombro a minha espádua, e separe-se o meu braço do osso.

23. Porque o castigo de Deus era para mim um assombro, e eu não podia suportar a sua grandeza.

24. Se no ouro pus a minha esperança, ou disse ao ouro fino: Tu és a minha confiança;

25. Se me alegrei de que era muita a minha riqueza, e de que a minha mão tinha alcançado muito;

26. Se olhei para o sol, quando resplandecia, ou para a lua, caminhando gloriosa,

27. E o meu coração se deixou enganar em oculto, e a minha boca beijou a minha mão,

28. Também isto seria delito à punição de juízes; pois assim negaria a Deus que está lá em cima.

29. Se me alegrei da desgraça do que me tem ódio, e se exultei quando o mal o atingiu

30. (Também não deixei pecar a minha boca, desejando a sua morte com maldição);

31. Se a gente da minha tenda não disse: Ah! quem nos dará da sua carne? Nunca nos fartaríamos dela.

32. O estrangeiro não passava a noite na rua; as minhas portas abria ao viandante.

33. Se, como Adão, encobri as minhas transgressões, ocultando o meu delito no meu seio;

34. Porque eu temia a grande multidão, e o desprezo das famílias me apavorava, e eu me calei, e não saí da porta;

35. Ah! quem me dera um que me ouvisse! Eis que o meu desejo é que o Todo-Poderoso me responda, e que o meu adversário escreva um livro.

36. Por certo que o levaria sobre o meu ombro, sobre mim o ataria por coroa.

37. O número dos meus passos lhe mostraria; como príncipe me chegaria a ele.

38. Se a minha terra clamar contra mim, e se os seus sulcos juntamente chorarem,

39. Se comi os seus frutos sem dinheiro, e sufoquei a alma dos seus donos,

40. Por trigo me produza cardos, e por cevada joio. Acabaram-se as palavras de .

1. Então aqueles três homens cessaram de responder a ; porque era justo aos seus próprios olhos.

2. E acendeu-se a ira de Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão; contra se acendeu a sua ira, porque se justificava a si mesmo, mais do que a Deus.

3. Também a sua ira se acendeu contra os seus três amigos, porque, não achando que responder, todavia condenavam a .

4. Eliú, porém, esperou para falar a , porquanto tinham mais idade do que ele.

5. Vendo, pois, Eliú que já não havia resposta na boca daqueles três homens, a sua ira se acendeu.

6. E respondeu Eliú, filho de Baraquel, o buzita, dizendo: Eu sou de menos idade, e vós sois idosos; receei-me e temi de vos declarar a minha opinião.

7. Dizia eu: Falem os dias, e a multidão dos anos ensine a sabedoria.

8. Na verdade, há um espírito no homem, e a inspiração do Todo-Poderoso o faz entendido.

9. Os grandes não são os sábios, nem os velhos entendem o que é direito.

10. Assim digo: Dai-me ouvidos, e também eu declararei a minha opinião.

11. Eis que aguardei as vossas palavras, e dei ouvidos às vossas considerações, até que buscásseis razões.

12. Atentando, pois, para vós, eis que nenhum de vós há que possa convencer a , nem que responda às suas razões;

13. Para que não digais: Achamos a sabedoria; Deus o derrubou, e não homem algum.

14. Ora ele não dirigiu contra mim palavra alguma, nem lhe responderei com as vossas palavras.

15. Estão pasmados, não respondem mais, faltam-lhes as palavras.

16. Esperei, pois, mas não falam; porque já pararam, e não respondem mais.

17. Também eu responderei pela minha parte; também eu declararei a minha opinião.

18. Porque estou cheio de palavras; o meu espírito me constrange.

19. Eis que dentro de mim sou como o mosto, sem respiradouro, prestes a arrebentar, como odres novos.

20. Falarei, para que ache alívio; abrirei os meus lábios, e responderei.

21. Que não faça eu acepção de pessoas, nem use de palavras lisonjeiras com o homem!

22. Porque não sei usar de lisonjas; em breve me levaria o meu Criador.

1. Assim, na verdade, ó , ouve as minhas razões, e dá ouvidos a todas as minhas palavras.

2. Eis que já abri a minha boca; já falou a minha língua debaixo do meu paladar.

3. As minhas razões provam a sinceridade do meu coração, e os meus lábios proferem o puro saber.

4. O Espírito de Deus me fez; e a inspiração do Todo-Poderoso me deu vida.

5. Se podes, responde-me, põe em ordem as tuas razões diante de mim, e apresenta-te.

6. Eis que vim de Deus, como tu; do barro também eu fui formado.

7. Eis que não te perturbará o meu terror, nem será pesada sobre ti a minha mão.

8. Na verdade tu falaste aos meus ouvidos; e eu ouvi a voz das tuas palavras. Dizias:

9. Limpo estou, sem transgressão; puro sou, e não tenho iniqüidade.

10. Eis que procura pretexto contra mim, e me considera como seu inimigo.

11. Põe no tronco os meus pés, e observa todas as minhas veredas.

12. Eis que nisso não tens razão; eu te respondo; porque maior é Deus do que o homem.

13. Por que razão contendes com ele, sendo que não responde acerca de todos os seus feitos?

14. Antes Deus fala uma e duas vezes; porém ninguém atenta para isso.

15. Em sonho ou em visão noturna, quando cai sono profundo sobre os homens, e adormecem na cama.

16. Então o revela ao ouvido dos homens, e lhes sela a sua instrução,

17. Para apartar o homem daquilo que faz, e esconder do homem a soberba.

18. Para desviar a sua alma da cova, e a sua vida de passar pela espada.

19. Também na sua cama é castigado com dores; e com incessante contenda nos seus ossos;

20. De modo que a sua vida abomina até o pão, e a sua alma a comida apetecível.

21. Desaparece a sua carne a olhos vistos, e os seus ossos, que não se viam, agora aparecem.

22. E a sua alma se vai chegando à cova, e a sua vida aos que trazem a morte.

23. Se com ele, pois, houver um mensageiro, um intérprete, um entre milhares, para declarar ao homem a sua retidão,

24. Então terá misericórdia dele, e lhe dirá: Livra-o, para que não desça à cova; já achei resgate.

25. Sua carne se reverdecerá mais do que era na mocidade, e tornará aos dias da sua juventude.

26. Deveras orará a Deus, o qual se agradará dele, e verá a sua face com júbilo, e restituirá ao homem a sua justiça.

27. Olhará para os homens, e dirá: Pequei, e perverti o direito, o que de nada me aproveitou.

28. Porém Deus livrou a minha alma de ir para a cova, e a minha vida verá a luz.

29. Eis que tudo isto é obra de Deus, duas e três vezes para com o homem,

30. Para desviar a sua alma da perdição, e o iluminar com a luz dos viventes.

31. Escuta, pois, ó , ouve-me; cala-te, e eu falarei.

32. Se tens alguma coisa que dizer, responde-me; fala, porque desejo justificar-te.

33. Se não, escuta-me tu; cala-te, e ensinar-te-ei a sabedoria.

1. Respondeu mais Eliú, dizendo:

2. Ouvi, vós, sábios, as minhas razões; e vós, entendidos, inclinai os ouvidos para mim.

3. Porque o ouvido prova as palavras, como o paladar experimenta a comida.

4. O que é direito escolhamos para nós; e conheçamos entre nós o que é bom.

5. Porque disse: Sou justo, e Deus tirou o meu direito.

6. Apesar do meu direito sou considerado mentiroso; a minha ferida é incurável, embora eu esteja sem transgressão.

7. Que homem há como , que bebe a zombaria como água?

8. E caminha em companhia dos que praticam a iniqüidade, e anda com homens ímpios?

9. Porque disse: De nada aproveita ao homem o comprazer-se em Deus.

10. Portanto vós, homens de entendimento, escutai-me: Longe de Deus esteja o praticar a maldade e do Todo-Poderoso o cometer a perversidade!

11. Porque, segundo a obra do homem, ele lhe paga; e faz a cada um segundo o seu caminho.

12. Também, na verdade, Deus não procede impiamente; nem o Todo-Poderoso perverte o juízo.

13. Quem lhe entregou o governo da terra? E quem fez todo o mundo?

14. Se ele pusesse o seu coração contra o homem, e recolhesse para si o seu espírito e o seu fôlego,

15. Toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria para o pó.

16. Se, pois, há em ti entendimento, ouve isto; inclina os ouvidos ao som da minha palavra.

17. Porventura o que odiasse o direito se firmaria? E tu condenarias aquele que é justo e poderoso?

18. Ou dir-se-á a um rei: Oh! Vil? Ou aos príncipes: Oh! ímpios?

19. Quanto menos àquele, que não faz acepção das pessoas de príncipes, nem estima o rico mais do que o pobre; porque todos são obras de suas mãos.

20. Eles num momento morrem; e até à meia noite os povos são perturbados, e passam, e os poderosos serão tomados não por mão humana.

21. Porque os seus olhos estão sobre os caminhos de cada um, e ele vê todos os seus passos.

22. Não há trevas nem sombra de morte, onde se escondam os que praticam a iniqüidade.

23. Porque Deus não sobrecarrega o homem mais do que é justo, para o fazer ir a juízo diante dele.

24. Quebranta aos fortes, sem que se possa inquirir, e põe outros em seu lugar.

25. Ele conhece, pois, as suas obras; de noite os transtorna, e ficam moídos.

26. Ele os bate como ímpios que são, à vista dos espectadores;

27. Porquanto se desviaram dele, e não compreenderam nenhum de seus caminhos,

28. De sorte que o clamor do pobre subisse até ele, e que ouvisse o clamor dos aflitos.

29. Se ele aquietar, quem então inquietará? Se encobrir o rosto, quem então o poderá contemplar? Seja isto para com um povo, seja para com um homem só,

30. Para que o homem hipócrita nunca mais reine, e não haja laços no povo.

31. Na verdade, quem a Deus disse: Suportei castigo, não ofenderei mais.

32. O que não vejo, ensina-me tu; se fiz alguma maldade, nunca mais a hei de fazer?

33. Virá de ti como há de ser a recompensa, para que tu a rejeites? Faze tu, pois, e não eu, a escolha; fala logo o que sabes.

34. Os homens de entendimento dirão comigo, e o homem sábio que me ouvir:

35. falou sem conhecimento; e às suas palavras falta prudência.

36. Pai meu! Provado seja até ao fim, pelas suas respostas próprias de homens malignos.

37. Porque ao seu pecado acrescenta a transgressão; entre nós bate palmas, e multiplica contra Deus as suas palavras.

1. Respondeu mais Eliú, dizendo:

2. Tens por direito dizeres: Maior é a minha justiça do que a de Deus?

3. Porque disseste: De que me serviria? Que proveito tiraria mais do que do meu pecado?

4. Eu te darei resposta, a ti e aos teus amigos contigo.

5. Atenta para os céus, e vê; e contempla as mais altas nuvens, que são mais altas do que tu.

6. Se pecares, que efetuarás contra ele? Se as tuas transgressões se multiplicarem, que lhe farás?

7. Se fores justo, que lhe darás, ou que receberá ele da tua mão?

8. A tua impiedade faria mal a outro tal como tu; e a tua justiça aproveitaria ao filho do homem.

9. Por causa das muitas opressões os homens clamam por causa do braço dos grandes.

10. Porém ninguém diz: Onde está Deus que me criou, que dá salmos durante a noite;

11. Que nos ensina mais do que aos animais da terra e nos faz mais sábios do que as aves dos céus?

12. Clamam, porém ele não responde, por causa da arrogância dos maus.

13. Certo é que Deus não ouvirá a vaidade, nem atentará para ela o Todo-Poderoso.

14. E quanto ao que disseste, que o não verás, juízo há perante ele; por isso espera nele.

15. Mas agora, porque a sua ira ainda não se exerce, nem grandemente considera a arrogância,

16. Logo em vão abre a sua boca, e sem ciência multiplica palavras.

1. Prosseguiu ainda Eliú, e disse:

2. Espera-me um pouco, e mostrar-te-ei que ainda há razões a favor de Deus.

3. De longe trarei o meu conhecimento; e ao meu Criador atribuirei a justiça.

4. Porque na verdade, as minhas palavras não serão falsas; contigo está um que tem perfeito conhecimento.

5. Eis que Deus é mui grande, contudo a ninguém despreza; grande é em força e sabedoria.

6. Ele não preserva a vida do ímpio, e faz justiça aos aflitos.

7. Do justo não tira os seus olhos; antes estão com os reis no trono; ali os assenta para sempre, e assim são exaltados.

8. E se estão presos em grilhões, amarrados com cordas de aflição,

9. Então lhes faz saber a obra deles, e as suas transgressões, porquanto prevaleceram nelas.

10. Abre-lhes também os seus ouvidos, para sua disciplina, e ordena-lhes que se convertam da maldade.

11. Se o ouvirem, e o servirem, acabarão seus dias em bem, e os seus anos em delícias.

12. Porém se não o ouvirem, à espada serão passados, e expirarão sem conhecimento.

13. E os hipócritas de coração amontoam para si a ira; e amarrando-os ele, não clamam por socorro.

14. A sua alma morre na mocidade, e a sua vida perece entre os impuros.

15. Ao aflito livra da sua aflição, e na opressão se revela aos seus ouvidos.

16. Assim também te desviará da boca da angústia para um lugar espaçoso, em que não há aperto, e as iguarias da tua mesa serão cheias de gordura.

17. Mas tu estás cheio do juízo do ímpio; o juízo e a justiça te sustentam.

18. Porquanto há furor, guarda-te de que não sejas atingido pelo castigo violento, pois nem com resgate algum te livrarias dele.

19. Estimaria ele tanto tuas riquezas? Não, nem ouro, nem todas as forças do poder.

20. Não suspires pela noite, em que os povos sejam tomados do seu lugar.

21. Guarda-te, e não declines para a iniqüidade; porquanto isso escolheste antes que a aflição.

22. Eis que Deus é excelso em seu poder; quem ensina como ele?

23. Quem lhe prescreveu o seu caminho? Ou, quem lhe dirá: Tu cometeste maldade?

24. Lembra-te de engrandecer a sua obra, que os homens contemplam.

25. Todos os homens a vêem, e o homem a enxerga de longe.

26. Eis que Deus é grande, e nós não o compreendemos, e o número dos seus anos não se pode esquadrinhar.

27. Porque faz miúdas as gotas das águas que, do seu vapor, derramam a chuva,

28. A qual as nuvens destilam e gotejam sobre o homem abundantemente.

29. Porventura pode alguém entender as extensões das nuvens, e os estalos da sua tenda?

30. Eis que estende sobre elas a sua luz, e encobre as profundezas do mar.

31. Porque por estas coisas julga os povos e lhes dá mantimento em abundância.

32. Com as nuvens encobre a luz, e ordena não brilhar, interpondo a nuvem.

33. O que nos dá a entender o seu pensamento, como também ao gado, acerca do temporal que sobe.

1. Sobre isto também treme o meu coração, e salta do seu lugar.

2. Atentamente ouvi a indignação da sua voz, e o sonido que sai da sua boca.

3. Ele o envia por debaixo de todos os céus, e a sua luz até aos confins da terra.

4. Depois disto ruge uma voz; ele troveja com a sua voz majestosa; e ele não os detém quando a sua voz é ouvida.

5. Com a sua voz troveja Deus maravilhosamente; faz grandes coisas, que nós não podemos compreender.

6. Porque à neve diz: Cai sobre a terra; como também à garoa e à sua forte chuva.

7. Ele sela as mãos de todo o homem, para que conheçam todos os homens a sua obra.

8. E as feras entram nos seus esconderijos e ficam nas suas cavernas.

9. Da recâmara do sul sai o tufão, e do norte o frio.

10. Pelo sopro de Deus se dá a geada, e as largas águas se congelam.

11. Também de umidade carrega as grossas nuvens, e esparge as nuvens com a sua luz.

12. Então elas, segundo o seu prudente conselho, se espalham em redor, para que façam tudo quanto lhes ordena sobre a superfície do mundo na terra.

13. Seja que por vara, ou para a sua terra, ou por misericórdia as faz vir.

14. A isto, ó , inclina os teus ouvidos; para, e considera as maravilhas de Deus.

15. Porventura sabes tu como Deus as opera, e faz resplandecer a luz da sua nuvem?

16. Tens tu notícia do equilíbrio das grossas nuvens e das maravilhas daquele que é perfeito nos conhecimentos?

17. Ou de como as tuas roupas aquecem, quando do sul há calma sobre a terra?

18. Ou estendeste com ele os céus, que estão firmes como espelho fundido?

19. Ensina-nos o que lhe diremos: porque nós nada poderemos pôr em boa ordem, por causa das trevas.

20. Contar-lhe-ia alguém o que tenho falado? Ou desejaria um homem que ele fosse devorado?

21. E agora não se pode olhar para o sol, que resplandece nas nuvens, quando o vento, tendo passado, o deixa limpo.

22. O esplendor de ouro vem do norte; pois, em Deus há uma tremenda majestade.

23. Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça.

24. Por isso o temem os homens; ele não respeita os que se julgam sábios de coração.

Significados: , Deus, Elifaz, Etiópia, Senhor, Adão.

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Este lívro compôe o Antigo Testamento, tem 42 capítulos, e 1070 versículos.