1. Então respondeu Elifaz, o temanita, e disse:

2. Se alguém intentar falar-te, enfadarte-ás? Mas quem poderá conter as palavras?

3. Eis que tens ensinado a muitos, e tens fortalecido as mãos fracas.

4. As tuas palavras têm sustentado aos que cambaleavam, e os joelhos desfalecentes tens fortalecido.

5. Mas agora que se trata de ti, te enfadas; e, tocando-te a ti, te desanimas.

6. Porventura não está a tua confiança no teu temor de Deus, e a tua esperança na integridade dos teus caminhos?

7. Lembra-te agora disto: qual o inocente que jamais pereceu? E onde foram os retos destruídos?

8. Conforme tenho visto, os que lavram iniquidade e semeiam o mal segam o mesmo.

9. Pelo sopro de Deus perecem, e pela rajada da sua ira são consumidos.

10. Cessa o rugido do leão, e a voz do leão feroz; os dentes dos leõezinhos se quebram.

11. Perece o leão velho por falta de presa, e os filhotes da leoa andam dispersos.

12. Ora, uma palavra se me disse em segredo, e os meus ouvidos perceberam um sussurro dela.

13. Entre pensamentos nascidos de visões noturnas, quando cai sobre os homens o sono profundo,

14. sobrevieram-me o espanto e o tremor, que fizeram estremecer todos os meus ossos.

15. Então um espírito passou por diante de mim; arrepiaram-se os cabelos do meu corpo.

16. Parou ele, mas não pude discernir a sua aparência; um vulto estava diante dos meus olhos; houve silêncio, então ouvi uma voz que dizia:

17. Pode o homem mortal ser justo diante de Deus? Pode o varão ser puro diante do seu Criador?

18. Eis que Deus não confia nos seus servos, e até a seus anjos atribui loucura;

19. quanto mais aos que habitam em casas de lodo, cujo fundamento está no pó, e que são esmagados pela traça!

20. Entre a manhã e a tarde são destruídos; perecem para sempre sem que disso se faça caso.

21. Se dentro deles é arrancada a corda da sua tenda, porventura não morrem, e isso sem atingir a sabedoria?

1. Chama agora; há alguém que te responda; E a qual dentre os entes santos te dirigirás?

2. Pois a dor destrói o louco, e a inveja mata o tolo.

3. Bem vi eu o louco lançar raízes; mas logo amaldiçoei a sua habitação:

4. Seus filhos estão longe da segurança, e são pisados nas portas, e não há quem os livre.

5. A sua messe é devorada pelo faminto, que até dentre os espinhos a tira; e o laço abre as fauces para a fazenda deles.

6. Porque a aflição não procede do pó, nem a tribulação brota da terra;

7. mas o homem nasce para a tribulação, como as faíscas voam para cima.

8. Mas quanto a mim eu buscaria a Deus, e a Deus entregaria a minha causa;

9. o qual faz coisas grandes e inescrutáveis, maravilhas sem número.

10. Ele derrama a chuva sobre a terra, e envia águas sobre os campos.

11. Ele põe num lugar alto os abatidos; e os que choram são exaltados à segurança.

12. Ele frustra as maquinações dos astutos, de modo que as suas mãos não possam levar coisa alguma a efeito.

13. Ele apanha os sábios na sua própria astúcia, e o conselho dos perversos se precipita.

14. Eles de dia encontram as trevas, e ao meio-dia andam às apalpadelas, como de noite.

15. Mas Deus livra o necessitado da espada da boca deles, e da mão do poderoso.

16. Assim há esperança para o pobre; e a iniqüidade tapa a boca.

17. Eis que bem-aventurado é o homem a quem Deus corrige; não desprezes, pois, a correção do Todo-Poderoso.

18. Pois ele faz a ferida, e ele mesmo a liga; ele fere, e as suas mãos curam.

19. Em seis angústias te livrará, e em sete o mal não te tocará.

20. Na fome te livrará da morte, e na guerra do poder da espada.

21. Do açoite da língua estarás abrigado, e não temerás a assolação, quando chegar.

22. Da assolação e da fome te rirás, e dos animais da terra não terás medo.

23. Pois até com as pedras do campo terás a tua aliança, e as feras do campo estarão em paz contigo.

24. Saberás que a tua tenda está em paz; visitarás o teu rebanho, e nada te faltará.

25. Também saberás que se multiplicará a tua descendência e a tua posteridade como a erva da terra.

26. Em boa velhice irás à sepultura, como se recolhe o feixe de trigo a seu tempo.

27. Eis que isso já o havemos inquirido, e assim o é; ouve-o, e conhece-o para teu bem.

1. Então , respondendo, disse:

2. Oxalá de fato se pesasse a minha mágoa, e juntamente na balança se pusesse a minha calamidade!

3. Pois, na verdade, seria mais pesada do que a areia dos mares; por isso é que as minhas palavras têm sido temerárias.

4. Porque as flechas do Todo-Poderoso se cravaram em mim, e o meu espírito suga o veneno delas; os terrores de Deus se arregimentam contra mim.

5. Zurrará o asno montês quando tiver erva? Ou mugirá o boi junto ao seu pasto?:

6. Pode se comer sem sal o que é insípido? Ou há gosto na clara do ovo?

7. Nessas coisas a minha alma recusa tocar, pois são para mim qual comida repugnante.

8. Quem dera que se cumprisse o meu rogo, e que Deus me desse o que anelo!

9. que fosse do agrado de Deus esmagar-me; que soltasse a sua mão, e me exterminasse!

10. Isto ainda seria a minha consolação, e exultaria na dor que não me poupa; porque não tenho negado as palavras do Santo.

11. Qual é a minha força, para que eu espere? Ou qual é o meu fim, para que me porte com paciência?

12. É a minha força a força da pedra? Ou é de bronze a minha carne?

13. Na verdade não há em mim socorro nenhum. Não me desamparou todo o auxílio eficaz?

14. Ao que desfalece devia o amigo mostrar compaixão; mesmo ao que abandona o temor do Todo-Poderoso.

15. Meus irmãos houveram-se aleivosamente, como um ribeiro, como a torrente dos ribeiros que passam,

16. os quais se turvam com o gelo, e neles se esconde a neve;

17. no tempo do calor vão minguando; e quando o calor vem, desaparecem do seu lugar.

18. As caravanas se desviam do seu curso; sobem ao deserto, e perecem.

19. As caravanas de Tema olham; os viandantes de Sabá por eles esperam.

20. Ficam envergonhados por terem confiado; e, chegando ali, se confundem.

21. Agora, pois, tais vos tornastes para mim; vedes a minha calamidade e temeis.

22. Acaso disse eu: Dai-me um presente? Ou: Fazei-me uma oferta de vossos bens?

23. Ou: Livrai-me das mãos do adversário? Ou: Resgatai-me das mãos dos opressores ?

24. Ensinai-me, e eu me calarei; e fazei-me entender em que errei.

25. Quão poderosas são as palavras da boa razão! Mas que é o que a vossa argüição reprova?

26. Acaso pretendeis reprovar palavras, embora sejam as razões do desesperado como vento?

27. Até quereis lançar sortes sobre o órfão, e fazer mercadoria do vosso amigo.

28. Agora, pois, por favor, olhai para, mim; porque de certo à vossa face não mentirei.

29. Mudai de parecer, peço-vos, não haja injustiça; sim, mudai de parecer, que a minha causa é justa.

30. Há iniqüidade na minha língua? Ou não poderia o meu paladar discernir coisas perversas?

1. Porventura não tem o homem duro serviço sobre a terra? E não são os seus dias como os do jornaleiro?

2. Como o escravo que suspira pela sombra, e como o jornaleiro que espera pela sua paga,

3. assim se me deram meses de escassez, e noites de aflição se me ordenaram.

4. Havendo-me deitado, digo: Quando me levantarei? Mas comprida é a noite, e farto-me de me revolver na cama até a alva.

5. A minha carne se tem vestido de vermes e de torrões de pó; a minha pele endurece, e torna a rebentar-se.

6. Os meus dias são mais velozes do que a lançadeira do tecelão, e chegam ao fim sem esperança.

7. Lembra-te de que a minha vida é um sopro; os meus olhos não tornarão a ver o bem.

8. Os olhos dos que agora me vêem não me verão mais; os teus olhos estarão sobre mim, mas não serei mais.

9. Tal como a nuvem se desfaz e some, aquele que desce à sepultura nunca tornará a subir.

10. Nunca mais tornará à sua casa, nem o seu lugar o conhecerá mais.

11. Por isso não reprimirei a minha boca; falarei na angústia do meu espírito, queixar-me-ei na amargura da minha alma.

12. Sou eu o mar, ou um monstro marinho, para que me ponhas uma guarda?

13. Quando digo: Confortar-me-á a minha cama, meu leito aliviará a minha queixa,

14. então me espantas com sonhos, e com visões me atemorizas;

15. de modo que eu escolheria antes a estrangulação, e a morte do que estes meus ossos.

16. A minha vida abomino; não quero viver para sempre; retira-te de mim, pois os meus dias são vaidade.

17. Que é o homem, para que tanto o engrandeças, e ponhas sobre ele o teu pensamento,

18. e cada manhã o visites, e cada momento o proves?

19. Até quando não apartarás de mim a tua vista, nem me largarás, até que eu possa engolir a minha saliva?

20. Se peco, que te faço a ti, ó vigia dos homens? Por que me fizeste alvo dos teus dardos? Por que a mim mesmo me tornei pesado?

21. Por que me não perdoas a minha transgressão, e não tiras a minha iniqüidade? Pois agora me deitarei no pó; tu me buscarás, porém eu não serei mais.

1. Então respondeu Bildade, o suíta, dizendo:

2. Até quando falarás tais coisas, e até quando serão as palavras da tua boca qual vento impetuoso?

3. Perverteria Deus o direito? Ou perverteria o Todo-Poderoso a justiça?

4. Se teus filhos pecaram contra ele, ele os entregou ao poder da sua transgressão.

5. Mas, se tu com empenho buscares a Deus, e ,ao Todo-Poderoso fizeres a tua súplica,

6. se fores puro e reto, certamente mesmo agora ele despertará por ti, e tornará segura a habitação da tua justiça.

7. Embora tenha sido pequeno o teu princípio, contudo o teu último estado aumentará grandemente.

8. Indaga, pois, eu te peço, da geração passada, e considera o que seus pais descobriram.

9. Porque nós somos de ontem, e nada sabemos, porquanto nossos dias sobre a terra, são uma sombra.

10. Não te ensinarão eles, e não te falarão, e do seu entendimento não proferirão palavras?

11. Pode o papiro desenvolver-se fora de um pântano. Ou pode o junco crescer sem água?

12. Quando está em flor e ainda não cortado, seca-se antes de qualquer outra erva.

13. Assim são as veredas de todos quantos se esquecem de Deus; a esperança do ímpio perecerá,

14. a sua segurança se desfará, e a sua confiança será como a teia de aranha.

15. Encostar-se-á à sua casa, porém ela não subsistirá; apegar-se-lhe-á, porém ela não permanecerá.

16. Ele está verde diante do sol, e os seus renovos estendem-se sobre o seu jardim;

17. as suas raízes se entrelaçam junto ao monte de pedras; até penetra o pedregal.

18. Mas quando for arrancado do seu lugar, então este o negará, dizendo: Nunca te vi.

19. Eis que tal é a alegria do seu caminho; e da terra outros brotarão.

20. Eis que Deus não rejeitará ao reto, nem tomará pela mão os malfeitores;

21. ainda de riso te encherá a boca, e os teus lábios de louvor.

22. Teus aborrecedores se vestirão de confusão; e a tenda dos ímpios não subsistirá.

1. Então respondeu, dizendo:

2. Na verdade sei que assim é; mas como pode o homem ser justo para com Deus?

3. Se alguém quisesse contender com ele, não lhe poderia responder uma vez em mil.

4. Ele é sábio de coração e poderoso em forças; quem se endureceu contra ele, e ficou seguro?

5. Ele é o que remove os montes, sem que o saibam, e os transtorna no seu furor;

6. o que sacode a terra do seu lugar, de modo que as suas colunas estremecem;

7. o que dá ordens ao sol, e ele não nasce; o que sela as estrelas;

8. o que sozinho estende os céus, e anda sobre as ondas do mar;

9. o que fez a ursa, o Oriom, e as Plêiades, e as recâmaras do sul;

10. o que faz coisas grandes e insondáveis, e maravilhas que não se podem contar.

11. Eis que ele passa junto a mim, e, não o vejo; sim, vai passando adiante, mas não o percebo.

12. Eis que arrebata a presa; quem o pode impedir? Quem lhe dirá: Que é o que fazes?

13. Deus não retirará a sua ira; debaixo dele se curvaram os aliados de Raabe;

14. quanto menos lhe poderei eu responder ou escolher as minhas palavras para discutir com ele?

15. Embora, eu seja justo, não lhe posso responder; tenho de pedir misericórdia ao meu juiz.

16. Ainda que eu chamasse, e ele me respondesse, não poderia crer que ele estivesse escutando a minha voz.

17. Pois ele me quebranta com uma tempestade, e multiplica as minhas chagas sem causa.

18. Não me permite respirar, antes me farta de amarguras.

19. Se fosse uma prova de força, eis-me aqui, diria ele; e se fosse questão de juízo, quem o citaria para comparecer?

20. Ainda que eu fosse justo, a minha própria boca me condenaria; ainda que eu fosse perfeito, então ela me declararia perverso:

21. Eu sou inocente; não estimo a mim mesmo; desprezo a minha vida.

22. Tudo é o mesmo, portanto digo: Ele destrói o reto e o ímpio.

23. Quando o açoite mata de repente, ele zomba da calamidade dos inocentes.

24. A terra está entregue nas mãos do ímpio. Ele cobre o rosto dos juízes; se não é ele, quem é, logo?

25. Ora, os meus dias são mais velozes do que um correio; fogem, e não vêem o bem.

26. Eles passam como balsas de junco, como águia que se lança sobre a presa.

27. Se eu disser: Eu me esquecerei da minha queixa, mudarei o meu aspecto, e tomarei alento;

28. então tenho pavor de todas as minhas dores; porque bem sei que não me terás por inocente.

29. Eu serei condenado; por que, pois, trabalharei em vão?

30. Se eu me lavar com água de neve, e limpar as minhas mãos com sabão,

31. mesmo assim me submergirás no fosso, e as minhas próprias vestes me abominarão.

32. Porque ele não é homem, como eu, para eu lhe responder, para nos encontrarmos em juízo.

33. Não há entre nós árbitro para pôr a mão sobre nós ambos.

34. Tire ele a sua vara de cima de mim, e não me amedronte o seu terror;

35. então falarei, e não o temerei; pois eu não sou assim em mim mesmo.

1. Tendo tédio à minha vida; darei livre curso à minha queixa, falarei na amargura da minha alma:

2. Direi a Deus: Não me condenes; faze-me saber por que contendes comigo.

3. Tens prazer em oprimir, em desprezar a obra das tuas mãos e favorecer o desígnio dos ímpios?

4. Tens tu olhos de carne? Ou vês tu como vê o homem?

5. São os teus dias como os dias do homem? Ou são os teus anos como os anos de um homem,

6. para te informares da minha iniqüidade, e averiguares o meu pecado,

7. ainda que tu sabes que eu não sou ímpio, e que não há ninguém que possa livrar-me da tua mão?

8. As tuas mãos me fizeram e me deram forma; e te voltas agora para me consumir?

9. Lembra-te, pois, de que do barro me formaste; e queres fazer-me tornar ao pó?

10. Não me vazaste como leite, e não me coalhaste como queijo?

11. De pele e carne me vestiste, e de ossos e nervos me teceste.

12. Vida e misericórdia me tens concedido, e a tua providência me tem conservado o espírito.

13. Contudo ocultaste estas coisas no teu coração; bem sei que isso foi o teu desígnio.

14. Se eu pecar, tu me observas, e da minha iniqüidade não me absolverás.

15. Se for ímpio, ai de mim! Se for justo, não poderei levantar a minha cabeça, estando farto de ignomínia, e de contemplar a minha miséria.

16. Se a minha cabeça se exaltar, tu me caças como a um leão feroz; e de novo fazes maravilhas contra mim.

17. Tu renovas contra mim as tuas testemunhas, e multiplicas contra mim a tua ira; reveses e combate estão comigo.

18. Por que, pois, me tiraste da madre? Ah! se então tivera expirado, e olhos nenhuns me vissem!

19. Então fora como se nunca houvera sido; e da madre teria sido levado para a sepultura.

20. Não são poucos os meus dias? Cessa, pois, e deixa-me, para que por um pouco eu tome alento;

21. antes que me vá para o lugar de que não voltarei, para a terra da escuridão e das densas trevas,

22. terra escuríssima, como a própria escuridão, terra da sombra trevosa e do caos, e onde a própria luz é como a escuridão.

1. Então respondeu Zofar, o naamatita, dizendo:

2. Não se dará resposta à multidão de palavras? ou será justificado o homem falador?

3. Acaso as tuas jactâncias farão calar os homens? e zombarás tu sem que ninguém te envergonhe?

4. Pois dizes: A minha doutrina é pura, e limpo sou aos teus olhos.

5. Mas, na verdade, oxalá que Deus falasse e abrisse os seus lábios contra ti,

6. e te fizesse saber os segredos da sabedoria, pois é multiforme o seu entendimento; sabe, pois, que Deus exige de ti menos do que merece a tua iniqüidade.

7. Poderás descobrir as coisas profundas de Deus, ou descobrir perfeitamente o Todo-Poderoso?

8. Como as alturas do céu é a sua sabedoria; que poderás tu fazer? Mais profunda é ela do que o Seol; que poderás tu saber?

9. Mais comprida é a sua medida do que a terra, e mais larga do que o mar.

10. Se ele passar e prender alguém, e chamar a juízo, quem o poderá impedir?

11. Pois ele conhece os homens vãos; e quando vê a iniqüidade, não atentará para ela?

12. Mas o homem vão adquirirá entendimento, quando a cria do asno montês nascer homem.

13. Se tu preparares o teu coração, e estenderes as mãos para ele;

14. se há iniqüidade na tua mão, lança-a para longe de ti, e não deixes a perversidade habitar nas tuas tendas;

15. então levantarás o teu rosto sem mácula, e estarás firme, e não temerás.

16. Pois tu te esquecerás da tua miséria; apenas te lembrarás dela como das águas que já passaram.

17. E a tua vida será mais clara do que o meio-dia; a escuridão dela será como a alva.

18. E terás confiança, porque haverá esperança; olharás ao redor de ti e repousarás seguro.

19. Deitar-te-ás, e ninguém te amedrontará; muitos procurarão obter o teu favor.

20. Mas os olhos dos ímpios desfalecerão, e para eles não haverá refúgio; a sua esperança será o expirar.

1. Então respondeu, dizendo:

2. Sem dúvida vós sois o povo, e convosco morrerá a sabedoria.

3. Mas eu tenho entendimento como, vos; eu não vos sou inferior. Quem não sabe tais coisas como essas?

4. Sou motivo de riso para os meus amigos; eu, que invocava a Deus, e ele me respondia: o justo e reto servindo de irrisão!

5. No pensamento de quem está seguro há desprezo para a desgraça; ela está preparada para aquele cujos pés resvalam.

6. As tendas dos assoladores têm descanso, e os que provocam a Deus estão seguros; os que trazem o seu deus na mão!

7. Mas, pergunta agora às alimárias, e elas te ensinarão; e às aves do céu, e elas te farão saber;

8. ou fala com a terra, e ela te ensinará; até os peixes o mar to declararão.

9. Qual dentre todas estas coisas não sabe que a mão do Senhor fez isto?

10. Na sua mão está a vida de todo ser vivente, e o espírito de todo o gênero humano.

11. Porventura o ouvido não prova as palavras, como o paladar prova o alimento?

12. Com os anciãos está a sabedoria, e na longura de dias o entendimento.

13. Com Deus está a sabedoria e a força; ele tem conselho e entendimento.

14. Eis que ele derriba, e não se pode reedificar; ele encerra na prisão, e não se pode abrir.

15. Ele retém as águas, e elas secam; solta-as, e elas inundam a terra.

16. Com ele está a força e a sabedoria; são dele o enganado e o enganador.

17. Aos conselheiros leva despojados, e aos juízes faz desvairar.

18. Solta o cinto dos reis, e lhes ata uma corda aos lombos.

19. Aos sacerdotes leva despojados, e aos poderosos transtorna.

20. Aos que são dignos da confiança emudece, e tira aos anciãos o discernimento.

21. Derrama desprezo sobre os príncipes, e afrouxa o cinto dos fortes.

22. Das trevas descobre coisas profundas, e traz para a luz a sombra da morte.

23. Multiplica as nações e as faz perecer; alarga as fronteiras das nações, e as leva cativas.

24. Tira o entendimento aos chefes do povo da terra, e os faz vaguear pelos desertos, sem caminho.

25. Eles andam nas trevas às apalpadelas, sem luz, e ele os faz cambalear como um ébrio.

1. Eis que os meus olhos viram tudo isto, e os meus ouvidos o ouviram e entenderam.

2. O que vós sabeis também eu o sei; não vos sou inferior.

3. Mas eu falarei ao Todo-Poderoso, e quero defender-me perante Deus.

4. Vós, porém, sois forjadores de mentiras, e vós todos, médicos que não valem nada.

5. Oxalá vos calásseis de todo, pois assim passaríeis por sábios.

6. Ouvi agora a minha defesa, e escutai os argumentos dos meus lábios.

7. Falareis falsamente por Deus, e por ele proferireis mentiras?

8. Fareis aceitação da sua pessoa? Contendereis a favor de Deus?

9. Ser-vos-ia bom, se ele vos esquadrinhasse? Ou zombareis dele, como quem zomba de um homem?

10. Certamente vos repreenderá, se em oculto vos deixardes levar de respeitos humanos.

11. Não vos amedrontará a sua majestade? E não cairá sobre vós o seu terror?

12. As vossas máximas são provérbios de cinza; as vossas defesas são torres de barro.

13. Calai-vos perante mim, para que eu fale, e venha sobre mim o que vier.

14. Tomarei a minha carne entre os meus dentes, e porei a minha vida na minha mão.

15. Eis que ele me matará; não tenho esperança; contudo defenderei os meus caminhos diante dele.

16. Também isso será a minha salvação, pois o ímpio não virá perante ele.

17. Ouvi atentamente as minhas palavras, e chegue aos vossos ouvidos a minha declaração.

18. Eis que já pus em ordem a minha causa, e sei que serei achado justo:

19. Quem é o que contenderá comigo? Pois então me calaria e renderia o espírito.

20. Concede-me somente duas coisas; então não me esconderei do teu rosto:

21. desvia a tua mão rara longe de mim, e não me amedronte o teu terror.

22. Então chama tu, e eu responderei; ou eu falarei, e me responde tu.

23. Quantas iniqüidades e pecados tenho eu? Faze-me saber a minha transgressão e o meu pecado.

24. Por que escondes o teu rosto, e me tens por teu inimigo?

25. Acossarás uma folha arrebatada pelo vento? E perseguirás o restolho seco?

26. Pois escreves contra mim coisas amargas, e me fazes herdar os erros da minha mocidade;

27. também pões no tronco os meus pés, e observas todos os meus caminhos, e marcas um termo ao redor dos meus pés,

28. apesar de eu ser como uma coisa podre que se consome, e como um vestido, ao qual rói a traça.

1. O homem, nascido da mulher, é de poucos dias e cheio de inquietação.

2. Nasce como a flor, e murcha; foge também como a sombra, e não permanece.

3. Sobre esse tal abres os teus olhos, e a mim me fazes entrar em juízo contigo?

4. Quem do imundo tirará o puro? Ninguém.

5. Visto que os seus dias estão determinados, contigo está o número dos seus meses; tu lhe puseste limites, e ele não poderá passar além deles.

6. Desvia dele o teu rosto, para que ele descanse e, como o jornaleiro, tenha contentamento no seu dia.

7. Porque há esperança para a árvore, que, se for cortada, ainda torne a brotar, e que não cessem os seus renovos.

8. Ainda que envelheça a sua raiz na terra, e morra o seu tronco no pó,

9. contudo ao cheiro das águas brotará, e lançará ramos como uma planta nova.

10. O homem, porém, morre e se desfaz; sim, rende o homem o espírito, e então onde está?

11. Como as águas se retiram de um lago, e um rio se esgota e seca,

12. assim o homem se deita, e não se levanta; até que não haja mais céus não acordará nem será despertado de seu sono.

13. Oxalá me escondesses no Seol, e me ocultasses até que a tua ira tenha passado; que me determinasses um tempo, e te lembrasses de mim!

14. Morrendo o homem, acaso tornará a viver? Todos os dias da minha lida esperaria eu, até que viesse a minha mudança.

15. Chamar-me-ias, e eu te responderia; almejarias a obra de tuas mãos.

16. Então contarias os meus passos; não estarias a vigiar sobre o meu pecado;

17. a minha transgressão estaria selada num saco, e ocultarias a minha iniqüidade.

18. Mas, na verdade, a montanha cai e se desfaz, e a rocha se remove do seu lugar.

19. As águas gastam as pedras; as enchentes arrebatam o solo; assim tu fazes perecer a esperança do homem.

20. Prevaleces para sempre contra ele, e ele passa; mudas o seu rosto e o despedes.

21. Os seus filhos recebem honras, sem que ele o saiba; são humilhados sem que ele o perceba.

22. Sente as dores do seu próprio corpo somente, e só por si mesmo lamenta.

Significados: Elifaz, Deus, , Raabe, Senhor.

Você está lendo na edição AA, Almeida Revisada Imprensa Bíblica, em Português.
Este lívro compôe o Antigo Testamento, tem 42 capítulos, e 1070 versículos.