1. Depois disso abriu a boca e amaldiçoou o dia do seu nascimento,

2. dizendo:  

3. "Pereça o dia do meu nascimento e a noite em que se disse: ‘Nasceu um menino! ’

4. Transforme-se aquele dia em trevas, e Deus, lá do alto, não se importe com ele; não resplandeça a luz sobre ele.

5. Chamem-no de volta as trevas e a mais densa escuridão; coloque-se uma nuvem sobre ele e o negrume aterrorize a sua luz.

6. Apoderem-se daquela noite densas trevas! Não seja ela incluída entre os dias do ano, nem faça parte de nenhum dos meses.

7. Seja aquela noite estéril, e nela não se ouçam brados de alegria.

8. Amaldiçoem aquele dia os que amaldiçoam os dias e são capazes de atiçar o Leviatã.

9. Fiquem escuras as suas estrelas matutinas, e espere ele em vão pela luz do sol e não veja os primeiros raios da alvorada,

10. pois não fechou as portas do ventre materno para evitar que eu contemplasse males.

11. "Por que não morri ao nascer, e não pereci quando saí do ventre?

12. Por que houve joelhos para me receberem e seios para me amamentarem?

13. Agora eu bem poderia estar deitado em paz e achar repouso

14. junto aos reis e conselheiros da terra, que construíram para si lugares que agora jazem em ruínas,

15. com governantes que possuíam ouro, que enchiam suas casas de prata.

16. Por que não me sepultaram como criança abortada, como um bebê que nunca viu a luz do dia?

17. Ali os ímpios já não se agitam, e ali os cansados permanecem em repouso;

18. os prisioneiros também desfrutam sossego, já não ouvem mais os gritos do feitor de escravos.

19. Os simples e os poderosos ali estão, e o escravo está livre de seu senhor.

20. "Por que se dá luz aos infelizes, e vida aos de alma amargurada,

21. aos que anseiam pela morte, e esta não vem, e a procuram mais do que a um tesouro oculto,

22. aos que se enchem de alegria e exultam quando vão para a sepultura?

23. Por que se dá vida àquele cujo caminho é oculto, e a quem Deus fechou as saídas?

24. Pois me vêm suspiros em vez de comida; meus gemidos transbordam como água.

25. O que eu temia veio sobre mim; o que eu receava me aconteceu.

26. Não tenho paz, nem tranqüilidade, nem descanso; somente inquietação".

1. Então respondeu Elifaz, de Temã:

2. "Se alguém se aventurar a dizer-lhe uma palavra, você ficará impaciente? Mas quem pode refrear as palavras?

3. Pense bem! Você ensinou a tantos; fortaleceu mãos fracas.

4. Suas palavras davam firmeza aos que tropeçavam; você fortaleceu joelhos vacilantes.

5. Mas agora que se vê em dificuldade, você se desanima; quando você é atingido, fica prostrado.

6. Sua vida piedosa não lhe inspira confiança, e o seu procedimento irrepreensível não lhe dá esperança?

7. "Reflita agora: Qual foi o inocente que chegou a perecer? Onde foi que os íntegros sofreram destruição?

8. Pelo que tenho observado, quem cultiva o mal e semeia maldade, isso também colherá.

9. Pelo sopro de Deus são destruídos; pelo vento de sua ira eles perecem.

10. Os leões podem rugir e rosnar, mas até os dentes dos leões fortes se quebram.

11. O leão morre por falta de presa, e os filhotes da leoa se dispersam.

12. "Disseram-me uma palavra em segredo, da qual os meus ouvidos captaram um murmúrio.

13. Em meio a sonhos perturbadores da noite, quando cai sono profundo sobre os homens,

14. temor e tremor se apoderaram de mim e fizeram estremecer todos os meus ossos.

15. Um espírito roçou o meu rosto, e os pêlos do meu corpo se arrepiaram.

16. Ele parou, mas não pude identificá-lo. Um vulto se pôs diante dos meus olhos, e ouvi uma voz suave, que dizia:

17. ‘Poderá algum mortal ser mais justo que Deus? Poderá algum homem ser mais puro que o seu Criador?

18. Se Deus não confia em seus servos, se vê erro em seus anjos e os acusa,

19. quanto mais nos que moram em casas de barro, cujos alicerces estão no pó! São mais facilmente esmagados que uma traça!

20. Entre o alvorecer e o crepúsculo são despedaçados; perecem para sempre, sem sequer serem notados.

21. Não é certo que as cordas de suas tendas são arrancadas, e eles morrem sem sabedoria? ’

1. "Clame, se quiser, mas quem o ouvirá? Para qual dos seres celestes você se voltará?

2. O ressentimento mata o insensato, e a inveja destrói o tolo.

3. Eu mesmo já vi um insensato lançar raízes, mas de repente a sua casa foi amaldiçoada.

4. Seus filhos longe estão de desfrutar segurança, maltratados nos tribunais, não há quem os defenda.

5. Os famintos devoram a sua colheita, tirando-a até do meio dos espinhos, e os sedentos sugam a sua riqueza.

6. Pois o sofrimento não brota do pó, e as dificuldades não nascem do chão.

7. No entanto o homem nasce para as dificuldades tão certamente como as fagulhas voam para cima.

8. "Mas, se fosse comigo, eu apelaria para Deus; apresentaria a ele a minha causa.

9. Ele realiza maravilhas insondáveis, milagres que não se pode contar.

10. Derrama chuva sobre a terra, e envia água sobre os campos.

11. Os humildes, ele os exalta, e traz os que pranteiam a um lugar de segurança.

12. Ele frustra os planos dos astutos, para que fracassem as mãos deles.

13. Apanha os sábios na astúcia deles, e as maquinações dos astutos são malogradas por sua precipitação.

14. As trevas vêm sobre eles em pleno dia; ao meio-dia eles tateiam como se fosse noite.

15. Ele salva o oprimido da espada que trazem na boca; salva-o das garras dos poderosos.

16. Por isso os pobres têm esperança, e a injustiça cala a boca.

17. "Como é feliz o homem a quem Deus corrige; portanto, não despreze a disciplina do Todo-poderoso.

18. Pois ele fere, mas dela vem tratar; ele machuca, mas suas mãos também curam.

19. De seis desgraças ele o livrará; em sete delas você nada sofrerá.

20. Na fome ele o livrará da morte, e na guerra o livrará do golpe da espada.

21. Você será protegido do açoite da língua, e não precisará ter medo quando a destruição chegar.

22. Você rirá da destruição e da fome, e não precisará temer as feras da terra.

23. Pois fará aliança com as pedras do campo, e os animais selvagens estarão em paz com você.

24. Você saberá que a sua tenda é segura; contará os seus bens da tua morada e de nada achará falta.

25. Você saberá que os seus filhos serão muitos, e que os seus descendentes serão como a relva da terra.

26. Você irá para a sepultura em pleno vigor, como um feixe recolhido no devido tempo.

27. "Foi isso que verificamos ser verdade. Portanto, ouça e aplique isso à sua vida".

1. Então respondeu:

2. "Se tão-somente pudessem pesar a minha aflição e pôr na balança a minha desgraça!

3. Veriam que o seu peso é maior que o da areia dos mares. Por isso as minhas palavras são tão impetuosas.

4. As flechas do Todo-poderoso estão cravadas em mim, e o meu espírito suga delas o veneno; os terrores de Deus estão posicionados contra mim.

5. Zurra o jumento selvagem, se tiver capim? Muge o boi, se tiver forragem?

6. Come-se sem sal uma comida insípida? E a clara do ovo, tem algum sabor?

7. Recuso-me a tocar nisso; esse tipo de comida causa-me repugnância.

8. "Se tão-somente fosse atendido o meu pedido, se Deus me concedesse o meu desejo,

9. se Deus se dispusesse a esmagar-me, a soltar a mão protetora e eliminar-me!

10. Pois eu ainda teria o consolo, minha alegria em meio à dor implacável, de não ter negado as palavras do Santo.

11. "Que esperança posso ter, se já não tenho forças? Como posso ter paciência, se não tenho futuro?

12. Acaso tenho a força da pedra? Acaso a minha carne é de bronze?

13. Haverá poder que me ajude, agora que os meus recursos se foram?

14. "Um homem desesperado deve receber a compaixão de seus amigos, muito embora ele tenha abandonado o temor do Todo-poderoso.

15. Mas os meus irmãos enganaram-me como riachos temporários, como os riachos que transbordam

16. quando o degelo os torna turvos e a neve que se derrete os faz encher,

17. mas que param de fluir no tempo da seca, e no calor desaparecem dos seus leitos.

18. As caravanas se desviam de suas rotas; sobem para lugares desertos e perecem.

19. Procuram água as caravanas de Temá, olham esperançosos os mercadores de Sabá.

20. Ficam tristes, porque estavam confiantes; lá chegaram tão-somente para sofrer decepção.

21. Pois agora vocês de nada me valeram; contemplam minha temível situação, e se enchem de medo.

22. Alguma vez lhes pedi que me dessem alguma coisa? Ou que da sua riqueza pagassem resgate por mim?

23. Ou que me livrassem das mãos do inimigo? Ou que me libertassem das garras de quem me oprime?

24. "Ensinem-me, e eu me calarei; mostrem-me onde errei.

25. Como doem as palavras verdadeiras! Mas o que provam os argumentos de vocês?

26. Vocês pretendem corrigir o que digo e tratar como vento as palavras de um homem desesperado?

27. Vocês seriam capazes de pôr em sorteio o órfão e de vender um amigo por uma bagatela!

28. "Mas agora, tenham a bondade de olhar para mim. Será que eu mentiria na frente de vocês?

29. Reconsiderem a questão, não sejam injutos; tornem a analisá-la, pois a minha integridade está em jogo.

30. Há alguma iniqüidade em meus lábios? Será que a minha boca não consegue discernir a maldade?

1. "Não é pesado o labor do homem na terra? Seus dias não são como os de um assalariado?

2. Como o escravo que anseia pelas sombras do entardecer, ou como o assalariado que espera ansioso pelo pagamento,

3. assim me deram meses de ilusão, e noites de desgraça me foram destinadas.

4. Quando me deito, fico pensando: ‘Quanto vai demorar para eu me levantar? ’ A noite se arrasta, e eu fico me virando na cama até o amanhecer.

5. Meu corpo está coberto de vermes e cascas de ferida, minha pele está rachada e vertendo pus.

6. "Meus dias correm mais depressa que a lançadeira do tecelão, e chegam ao fim sem nenhuma esperança.

7. Lembra-te, ó Deus, de que a minha vida não passa de um sopro; meus olhos jamais tornarão a ver a felicidade.

8. Os que agora me vêem, nunca mais me verão; puseste o teu olhar em mim, e já não existo.

9. Assim como a nuvem esvai-se e desaparece, assim quem desce à sepultura não volta.

10. Nunca mais voltará ao seu lar; a sua habitação não mais o conhecerá.

11. "Por isso não me calo; na aflição do meu espírito me desabafarei, na amargura da minha alma farei as minhas queixas.

12. Sou eu o mar, ou o monstro das profundezas, para que me ponhas sob guarda?

13. Quando penso que a minha cama me consolará e que o meu leito aliviará a minha queixa,

14. mesmo aí me assustas com sonhos e me aterrorizas com visões.

15. Prefiro ser estrangulado e morrer do que sofrer assim;

16. sinto desprezo pela minha vida! Não vou viver para sempre; deixa-me, pois os meus dias não têm sentido.

17. "Que é o homem, para que lhe dês importância e atenção,

18. para que o examines a cada manhã e o proves a cada instante?

19. Nunca desviarás de mim o teu olhar? Nunca me deixarás a sós, nem por um instante?

20. Se pequei, que mal te causei, ó tu que vigias os homens? Por que me tornaste teu alvo? Acaso tornei-me um fardo para ti?

21. Por que não perdoas as minhas ofensas e não apagas os meus pecados? Pois logo me deitarei no pó; tu me procurarás, mas eu já não existirei".

1. Então Bildade, de Suá, respondeu:

2. "Até quando você vai falar desse modo? Suas palavras são um grande vendaval!

3. Acaso Deus torce a justiça? Será que o Todo-poderoso torce o que é direito?

4. Quando os seus filhos pecaram contra ele, ele os castigou pelo mal que fizeram.

5. Mas, se você procurar a Deus e implorar junto ao Todo-poderoso,

6. se você for íntegro e puro, ele se levantará agora mesmo em seu favor e o restabelecerá no lugar que por justiça cabe a você.

7. O seu começo parecerá modesto, mas o seu futuro será de grande prosperidade.

8. "Pergunte às gerações anteriores e veja o que os seus pais aprenderam,

9. pois nós nascemos ontem e não sabemos nada. Nossos dias na terra não passam de uma sombra.

10. Acaso eles não o instruirão, não lhe falarão? Não proferirão palavras vindas do entendimento?

11. Poderá o papiro crescer senão no pântano? Sem água cresce o junco?

12. Mal cresce e, antes de ser colhido, seca-se, mais depressa que qualquer grama.

13. Esse é o destino de todo o que se esquece de Deus; assim perece a esperança dos ímpios.

14. Aquilo em que ele confia é frágil, aquilo em que se apóia é uma teia de aranha.

15. Encosta-se em sua teia, mas ela cede; agarra-se a ela, mas ela não agüenta.

16. Ele é como uma planta bem regada ao brilho do sol, espalhando seus brotos pelo jardim;

17. entrelaça as raízes em torno de um monte de pedras e procura um lugar entre as rochas.

18. Mas, quando é arrancada do seu lugar, este o rejeita e diz: ‘Nunca o vi’.

19. Esse é o fim da sua vida, e do solo brotam outras plantas.

20. "Pois o certo é que Deus não rejeita o íntegro, e não fortalece as mãos dos que fazem o mal.

21. Mas, quanto a você, ele encherá de riso a sua boca e de brados de alegria os seus lábios.

22. Seus inimigos se vestirão de vergonha, e as tendas dos ímpios não mais existirão".

1. Então respondeu:

2. "Bem sei que isso é verdade. Mas como pode o mortal ser justo diante de Deus?

3. Ainda que quisesse discutir com ele, não conseguiria argumentar nem uma vez em mil.

4. Sua sabedoria é profunda, seu poder é imenso. Quem tentou resisti-lo e saiu ileso?

5. Ele transporta montanhas sem que elas o saibam, e em sua ira as põe de cabeça para baixo.

6. Sacode a terra e a tira do lugar, e faz suas colunas tremerem.

7. Fala com o sol, e ele não brilha; ele veda e esconde a luz das estrelas.

8. Só ele estende os céus e anda sobre as ondas do mar.

9. Ele é o Criador da Ursa e do Órion, das Plêiades e das constelações do sul.

10. Realiza maravilhas que não se podem perscrutar, milagres incontáveis.

11. Quando passa por mim, não posso vê-lo; se passa junto de mim, não o percebo.

12. Se ele apanha algo, quem pode pará-lo? Quem pode dizer-lhe: ‘O que fazes? ’

13. Deus não refreia a sua ira; até o séquito de Raabe encolheu-se diante dos seus pés.

14. "Como então poderei eu discutir com ele? Como achar palavras para com ele argumentar?

15. Embora inocente, eu seria incapaz de responder-lhe; poderia apenas implorar misericórdia ao meu Juiz.

16. Mesmo que eu o chamasse e ele me respondesse, não creio que me daria ouvidos.

17. Ele me esmagaria com uma tempestade e sem motivo multiplicaria minhas feridas.

18. Não me permitiria recuperar o fôlego, mas me engolfaria em agruras.

19. Se é questão de força, ele é poderoso! E se é questão de justiça, quem o intimará?

20. Mesmo sendo eu inocente, minha boca me condenaria; se eu fosse íntegro, ela me declararia culpado.

21. "Conquanto eu seja íntegro, já não me importo comigo; desprezo a minha própria vida.

22. É tudo a mesma coisa; por isso digo: Ele destrói tanto o íntegro como o ímpio.

23. Quando um flagelo causa morte repentina, ele zomba do desespero dos inocentes.

24. Quando um país cai nas mãos dos ímpios, ele venda os olhos de seus juízes. Se não é ele, quem é então? "

25. "Meus dias correm mais velozes que um atleta; eles voam sem um vislumbre de alegria.

26. Passam como barcos de papiro, como águias que mergulham sobre as presas.

27. Se eu disser: Vou esquecer a minha queixa, vou mudar o meu semblante e sorrir,

28. ainda assim me apavoro com todos os meus sofrimentos, pois sei que não me considerarás inocente.

29. Uma vez que já fui considerado culpado, por que deveria eu lutar em vão?

30. Mesmo que eu me lavasse com sabão e limpasse as minhas mãos com soda de lavadeira,

31. tu me atirarias num poço de lodo, para que até as minhas roupas me detestassem.

32. "Ele não é homem como eu, para que eu lhe responda, e nos enfrentemos em juízo.

33. Se tão-somente houvesse alguém para servir de árbitro entre nós, para impor as mãos sobre nós dois,

34. alguém que afastasse de mim a vara de Deus, para que o seu terror não mais me assustasse!

35. Então eu falaria sem medo; mas não é esse o caso.  

1. "Minha vida só me dá desgosto; por isso darei vazão à minha queixa e de alma amargurada me expressarei.

2. Direi a Deus: Não me condenes, revela-me que acusações tens contra mim.

3. Tens prazer em oprimir-me, em rejeitar a obra de tuas mãos, enquanto sorris para o plano dos ímpios?

4. Acaso tens olhos de carne? Enxergas como os mortais?

5. Teus dias são como os de qualquer mortal? Os anos de tua vida são como os do homem?

6. Pois investigas a minha iniqüidade e vasculhas o meu pecado,

7. embora saibas que não sou culpado e que ninguém pode livrar-me das tuas mãos.

8. "Foram as tuas mãos que me formaram e me fizeram. Irás agora voltar-te e destruir-me?

9. Lembra-te de que me moldaste como o barro, e agora me farás voltar ao pó?

10. Acaso não me despejaste como leite e não me coalhaste como queijo?

11. Não me vestiste de pele e carne e não me juntaste com ossos e tendões?

12. Deste-me vida e foste bondoso para comigo, e na tua providência cuidaste do meu espírito.

13. "Mas algo escondeste em teu coração, e bem sei que és tu:

14. Se eu pecasse, me estarias observando e não deixarias sem punição a minha ofensa.

15. Se eu fosse culpado, ai de mim! Mesmo sendo inocente, não posso erguer a cabeça, pois estou dominado pela vergonha e mergulhado na minha aflição.

16. Se mantenho a cabeça erguida, ficas à minha espreita como um leão, e de novo manifestas contra mim o teu poder tremendo.

17. Trazes novas testemunhas contra mim e contra mim aumentas a tua ira; teus exércitos atacam-me, em batalhões sucessivos.

18. "Então, por que me fizeste sair do ventre? Eu preferia ter morrido antes que pudesse ser visto.

19. Se tão-somente eu jamais tivesse existido, ou fosse levado direto do ventre para a sepultura!

20. Já estariam no fim os meus poucos dias? Afasta-te de mim, para que eu tenha um instante de alegria,

21. antes que eu vá para o lugar do qual não há retorno, para a terra de sombras e densas trevas,

22. para a terra tenebrosa como a noite, terra de trevas e de caos, onde até mesmo a luz é trevas".

1. Então Zofar, de Naamate, respondeu:

2. "Ficarão sem resposta todas essas palavras? Irá se confirmar o que esse tagarela diz?

3. Sua conversa tola calará os homens? Ninguém o repreenderá por sua zombaria?

4. Você diz a Deus: ‘A doutrina que eu aceito é perfeita, e sou puro aos teus olhos’.

5. Ah, se Deus lhe falasse, se abrisse os lábios contra você

6. e lhe revelasse os segredos da sabedoria! Pois a verdadeira sabedoria é complexa. Fique sabendo que Deus esqueceu alguns dos seus pecados.

7. "Você consegue perscrutar os mistérios de Deus? Pode sondar os limites do Todo-poderoso?

8. São mais altos que os céus! Que é que você poderá fazer? São mais profundos que as profundezas! O que você poderá saber?

9. Seu comprimento é maior do que a terra e a sua largura é maior do que o mar.

10. "Se ele ordena uma prisão e convoca o tribunal, quem poderá opor-se?

11. Pois ele identifica os enganadores; e não reconhece a iniqüidade logo que a vê?

12. Mas o tolo só será sábio quando a cria do jumento selvagem nascer homem.

13. "Contudo, se você lhe consagrar o coração, e estender as mãos para ele;

14. se afastar das suas mãos o pecado, e não permitir que a maldade habite em sua tenda,

15. então você levantará o rosto sem envergonhar-se; serás firme e destemido.

16. Você esquecerá as suas desgraças, lembrando-as apenas como águas passadas.

17. A vida será mais refulgente que o meio-dia, e as trevas serão como a manhã que brilha.

18. Você estará confiante, graças a esperança que haverá; olhará ao redor, e repousará em segurança.

19. Você se deitará, e ninguém lhe causará medo, e muitos procurarão o seu favor.

20. Mas os olhos dos ímpios fenecerão, e em vão procurarão refúgio; o suspiro da morte será a esperança que terão".

1. Então respondeu:

2. "Sem dúvida vocês são o povo, e a sabedoria morrerá com vocês!

3. Mas eu tenho a mesma capacidade de pensar que vocês têm; não sou inferior a vocês. Quem não sabe dessas coisas?

4. "Tornei-me objeto de riso para os meus amigos, eu que clamava a Deus e ele me respondia, eu, íntegro e irrepreensível, um mero objeto de riso!

5. Quem está bem despreza a desgraça, o destino daqueles cujos pés escorregam.

6. As tendas dos saqueadores não sofrem perturbação, e aqueles que provocam a Deus estão seguros, aqueles que transportam o seu deus em suas mãos.

7. "Pergunte, porém, aos animais, e eles o ensinarão, ou às aves do céu, e elas lhe contarão;

8. fale com a terra, e ela o instruirá, deixe que os peixes do mar o informem.

9. Quem de todos eles ignora que a mão do Senhor fez isso?

10. Em sua mão está a vida de cada criatura e o fôlego de toda a humanidade.

11. O ouvido não experimenta as palavras como a língua experimenta a comida?

12. A sabedoria se acha entre os idosos? A vida longa traz entendimento?

13. "Deus é que tem sabedoria e poder; a ele pertencem o conselho e o entendimento.

14. O que ele derruba não se pode reconstruir; aquele a quem ele aprisiona ninguém pode libertar.

15. Se ele retém as águas, predomina a seca; se as solta, devastam a terra.

16. A ele pertencem a força e a sabedoria; tanto o enganado quanto o enganador a ele pertencem.

17. Ele despoja e demite os conselheiros, e faz os juízes de tolos.

18. Tira as algemas postas pelos reis, e amarra uma faixa em torno da cintura deles.

19. Despoja e demite os sacerdotes, e arruína os homens de sólida posição.

20. Cala os lábios dos conselheiros de confiança, e tira o discernimento dos anciãos.

21. Derrama desprezo sobre os nobres, e desarma os poderosos.

22. Revela coisas profundas das trevas, e traz à luz densas sombras.

23. Dá grandeza às nações, e as destrói; faz crescer as nações, e as dispersa.

24. Priva da razão os líderes da terra, e os envia a perambular num deserto sem caminhos.

25. Andam tateando nas trevas, sem nenhuma luz; ele os faz cambalear como bêbados.

1. "Meus olhos viram tudo isso, meus ouvidos o ouviram e entenderam.

2. O que vocês sabem, eu também sei; não sou inferior a vocês.

3. Mas desejo falar ao Todo-poderoso e defender a minha causa diante de Deus.

4. Vocês, porém, me difamam com mentiras; todos vocês são médicos que de nada valem!

5. Se tão-somente ficassem calados! Mostrariam sabedoria.

6. Escutem agora o meu argumento; prestem atenção à réplica de meus lábios.

7. Vocês vão falar com maldade em nome de Deus? Vão falar enganosamente a favor dele?

8. Vão revelar parcialidade por ele? Vão defender a causa a favor de Deus?

9. Tudo iria bem, se ele os examinasse? Vocês conseguiriam enganá-lo, como podem enganar os homens?

10. Com certeza ele os repreenderia, se no íntimo vocês fossem parciais.

11. O esplendor dele não os aterrorizaria? O pavor dele não cairia sobre vocês?

12. As máximas que vocês citam são provérbios de cinza; suas defesas não passam de barro.

13. "Aquietem-se e deixem-me falar; e aconteça-me o que me acontecer.

14. Por que me ponho em perigo e tomo a minha vida em minhas mãos?

15. Embora ele me mate, ainda assim esperarei nele; certo é que defenderei os meus caminhos diante dele.

16. Aliás, isso será a minha libertação, pois nenhum ímpio ousaria apresentar-se a ele!

17. Escutem atentamente as minhas palavras; que os seus ouvidos acolham o que eu digo.

18. Agora que preparei a minha defesa, sei que serei justificado.

19. Haverá quem me acuse? Se houver, ficarei calado e morrerei.

20. "Concede-me só estas duas coisas, ó Deus, e não me esconderei de ti:

21. Afasta de mim a tua mão, e não mais me assuste com os teus terrores.

22. Chama-me, e eu responderei, ou deixa-me falar, e tu responderás.

23. Quantos erros e pecados cometi? Mostra-me a minha falta e o meu pecado.

24. Por que escondes o teu rosto e consideras-me teu inimigo?

25. Atormentarás uma folha levada pelo vento? Perseguirás a palha?

26. Pois fazes constar contra mim coisas amargas e fazes-me herdar os pecados da minha juventude.

27. Acorrentas os meus pés e vigias todos os meus caminhos, pondo limites aos meus passos.

28. "Assim o homem se consome como coisa podre, como a roupa que a traça vai roendo.

1. "O homem nascido de mulher vive pouco tempo e passa por muitas dificuldades.

2. Brota como a flor e murcha. Vai-se como a sombra passageira; não dura muito.

3. Fixas o olhar num homem desses? E o trarás à tua presença para julgamento?

4. Quem pode extrair algo puro da impureza? Ninguém!

5. Os dias do homem estão determinados; tu decretaste o número de seus meses e estabeleceste limites que ele não pode ultrapassar.

6. Por isso desvia dele o teu olhar, e deixa-o, até que ele cumpra o seu tempo como trabalhador contratado.

7. "Para a árvore pelo menos há esperança: se é cortada, torna a brotar, e os seus renovos vingam.

8. Suas raízes poderão envelhecer no solo e seu tronco morrer no chão;

9. ainda assim, com o cheiro de água ela brotará e dará ramos como se fosse muda plantada.

10. Mas o homem morre, e morto permanece; dá o último suspiro, e deixa de existir.

11. Assim como a água desaparece do mar e o leito do rio perde as águas e seca,

12. assim o homem se deita e não se levanta; até quando os céus já não existirem, os homens não acordarão e não serão despertados do seu sono.

13. "Se tão-somente me escondesses na sepultura e me ocultasses até passar a tua ira! Se tão-somente me impusesses um prazo e depois te lembrasses de mim!

14. Quando um homem morre, acaso tornará a viver? Durante todos os dias do meu árduo labor esperarei pela minha dispensa.

15. Chamarás, e eu te responderei; terás anelo pela criatura que as tuas mãos fizeram.

16. Por certo contarás então os meus passos, mas não tomarás conhecimento do meu pecado.

17. Minhas faltas serão encerradas num saco; tu esconderás a minha iniqüidade.

18. "Mas, assim como a montanha sofre erosão e desmorona, e a rocha muda de lugar;

19. e assim como a água desgasta as pedras e as torrentes arrastam terra, assim destróis a esperança do homem.

20. Tu o subjulgas de uma vez por todas, e ele se vai; alteras a sua fisionomia, e o mandas embora.

21. Se honram os seus filhos, ele não fica sabendo; se os humilham, ele não o vê.

22. Só sente a dor do seu próprio corpo; só pranteia por si mesmo".

1. Então Elifaz, de Temã, respondeu:

2. "Responderia o sábio com idéias vãs, ou encheria o estômago com o vento?

3. Será que argumentaria com palavras inúteis, com discursos sem valor?

4. Mas você sufoca a piedade e diminui a devoção a Deus.

5. O seu pecado motiva a sua boca; você adota a linguagem dos astutos.

6. É a sua própria boca que o condena, e não a minha; os seus próprios lábios depõem contra você.

7. "Será que você foi o primeiro a nascer? Acaso foi gerado antes das colinas?

8. Você costuma ouvir o conselho secreto de Deus? Só a você pertence a sabedoria?

9. Que é que você sabe, que nós não sabemos? Que compreensão têm você, que nós não temos?

10. Temos do nosso lado homens de cabelos brancos, muito mais velhos que o seu pai.

11. Não lhe bastam as consolações divinas, e as nossas palavras amáveis?

12. Por que você se deixa levar pelo coração, e por que esse brilho nos seus olhos?

13. Pois contra Deus é que você dirige a sua ira e despeja da sua boca essas palavras!

14. "Como o homem pode ser puro? Como pode ser justo quem nasce de mulher?

15. Pois se nem nos seus Deus confia, e se nem os céus são puros aos seus olhos,

16. quanto menos o homem, que é impuro e corrupto, e que bebe iniqüidade como água.

17. "Escute-me, e eu lhe explicarei; vou dizer-lhe o que vi,

18. o que os sábios declaram, sem esconder o que receberam dos seus pais,

19. a quem foi dada a terra, e a mais ninguém; nenhum estrangeiro passou entre eles:

20. O ímpio sofre tormentos a vida toda, como também o homem cruel, nos poucos anos que lhe são reservados.

21. Só ouve ruídos aterrorizantes; quando se sente em paz, ladrões o atacam.

22. Não tem esperança de escapar das trevas; sente-se destinado ao fio da espada.

23. Fica perambulando; é comida para os abutres; sabe muito bem que logo virão sobre ele as trevas.

24. A aflição e a angústia o apavoram e o dominam; como um rei pronto para bater,

25. porque agitou os punhos contra Deus, e desafiou o Todo-poderoso,

26. afrontando-o com arrogância com um escudo grosso e resistente.

27. "Apesar de ter o rosto coberto de gordura e a cintura estufada de carne,

28. habitará em cidades prestes a arruinar-se, em casas inabitáveis, caindo aos pedaços.

29. Nunca mais será rico; sua riqueza não durará, e os seus bens não se propagarão pela terra.

30. Não poderá escapar das trevas; o fogo chamuscará os seus renovos, e o sopro da boca de Deus o arrebatará.

31. Que ele não se iluda em confiar no que não tem valor, pois nada receberá como compensação.

32. Terá completa paga antes do tempo, e os seus ramos não florescerão.

33. Ele será como a vinha despojada de suas uvas verdes, como a oliveira que perdeu a sua floração,

34. pois o companheirismo dos ímpios nada lhe trará, e o fogo devorará as tendas dos que gostam de subornar.

35. Eles concebem maldade e dão à luz a iniqüidade; seu ventre gera engano".

1. Então respondeu:

2. "Já ouvi muitas palavras como essas. Pobres consoladores são vocês todos!

3. Esses discursos inúteis nunca acabarão? O que o leva a continuar discutindo?

4. Bem que eu poderia falar como vocês, se estivessem em meu lugar; eu poderia condená-los com belos discursos, e menear a cabeça contra vocês.

5. Mas a minha boca procuraria encorajá-los; a consolação dos meus lábios lhes daria alívio.

6. "Contudo, se falo, a minha dor não se alivia; se me calo, ela não desaparece.

7. Sem dúvida, ó Deus, tu me esgotaste as forças; deste fim a toda a minha família.

8. Tu me deixaste deprimido, o que é uma testemunha disso; a minha magreza se levanta e depõe contra mim.

9. Deus, em sua ira, ataca-me e faz-me em pedaços, e range os dentes contra mim; meus inimigos fitam-me com olhar penetrante.

10. Os homens abrem sua boca contra mim, esmurram meu rosto com zombaria e se unem contra mim.

11. Deus fez-me cair nas mãos dos ímpios, e atirou-me nas garras dos maus.

12. Eu estava tranqüilo, mas ele me arrebentou; agarrou-me pelo pescoço e esmagou-me. Fez de mim o seu alvo;

13. seus flecheiros me cercam. Ele traspassou sem dó os meus rins e derramou na terra a minha bílis.

14. Lança-se sobre mim uma e outra vez; ataca-me como um guerreiro.

15. "Costurei veste de lamento sobre a minha pele e enterrei a minha testa no pó.

16. Meu rosto está rubro de tanto eu chorar, e sombras densas circundam os meus olhos,

17. apesar de que não há violência em minhas mãos e de que é pura a minha oração.

18. "Ó terra, não cubra o meu sangue! Não haja lugar de repouso para o meu clamor!

19. Saibam que agora mesmo a minha testemunha está nos céus; nas alturas está o meu advogado.

20. O meu intercessor é meu amigo, quando diante de Deus correm lágrimas dos meus olhos;

21. ele defende a causa do homem perante Deus, como quem defende a causa do amigo.

22. "Pois mais alguns anos apenas, e farei a viagem sem retorno.

1. "Meu espírito está quebrantado, os meus dias se encurtam, a sepultura me espera.

2. A verdade é que zombadores me rodeiam, e tenho que ficar olhando a hostilidade deles.

3. "Dá-me, ó Deus, a garantia que exiges. Quem, senão tu, me dará segurança?

4. Fechaste as mentes deles para o entendimento, e com isso não os deixarás triunfar.

5. Se alguém denunciar os seus amigos por recompensa, os olhos dos filhos dele fraquejarão,

6. "mas de mim Deus fez um provérbio para todos, um homem em cujo rosto os outros cospem.

7. Meus olhos se turvaram de tristeza; o meu corpo não passa de uma sombra.

8. Os íntegros ficam atônitos em face disso, e os inocentes se levantam contra os ímpios.

9. Mas os justos se manterão firmes em seus caminhos, e os homens de mãos puras se tornarão cada vez mais fortes.

10. "Venham, porém, vocês todos, e façam nova tentativa! Não acharei nenhum sábio entre vocês.

11. Foram-se os meus dias, os meus planos fracassaram, como também os desejos do meu coração.

12. Andam querendo tornar a noite em dia; ante a aproximação das trevas dizem: ‘Vem chegando a luz’.

13. Ora, se o único lar pelo qual espero é a sepultura; se estendo a minha cama nas trevas;

14. se digo à corrupção mortal: Você é o meu pai, e se aos vermes digo: Vocês são minha mãe e minha irmã,

15. onde está então minha esperança? Quem poderá ver alguma esperança para mim?

16. Descerá ela às portas do Sheol? Desceremos juntos ao pó? "

1. Então Bildade, de Suá, respondeu:

2. "Quando você vai parar de falar? Proceda com sensatez, e depois poderemos conversar.

3. Por que somos considerados como animais, e somos ignorantes aos seus olhos?

4. Ah você, que se dilacera de ira! Deve-se abandonar a terra por sua causa? Ou devem as rochas mudar de lugar?

5. "A lâmpada do ímpio se apaga, e a chama do seu fogo se extingue.

6. Na sua tenda a luz se escurece; a lâmpada de sua vida se apaga.

7. O vigor dos seus passos se enfraquece, e os seus próprios planos lançam por terra.

8. Por seus próprios pés você se prende na rede, e se perde na sua malha.

9. A armadilha o pega pelo calcanhar; o laço o prende firme.

10. O nó corredio está escondido na terra para pegá-lo, há uma armadilha em seu caminho.

11. Terrores de todos os lados o assustam e o perseguem em todos os seus passos.

12. A calamidade tem fome para alcançá-la, e a desgraça está à espera de sua queda.

13. Ela consome partes da sua pele; o primogênito da morte devora os membros do seu corpo.

14. Ele é arrancado da segurança de sua tenda, e o levam à força ao rei dos terrores.

15. O fogo mora na tenda dele; espalham enxofre ardente sobre a sua habitação.

16. Suas raízes secam-se embaixo, e seus ramos murcham em cima.

17. Sua lembrança desaparece da terra, e nome não tem, em parte alguma.

18. É lançado da luz para as trevas; é banido do mundo.

19. Não tem filhos nem descendentes entre o seu povo, nem lhe restou sobrevivente algum nos lugares onde antes vivia.

20. Os homens do ocidente assustam-se com a sua ruína, e os do oriente enchem-se de pavor.

21. É assim a habitação do perverso; essa é a situação de quem não conhece a Deus".

1. Então respondeu:

2. "Até quando vocês continuarão a atormentar-me, e a esmagar-me com palavras?

3. Vocês já me repreenderam dez vezes; não se envergonham de agredir-me!

4. Se é verdade que me desviei, meu erro só interessa a mim.

5. Se de fato vocês se exaltam acima de mim e usam contra mim a minha humilhação,

6. saibam que foi Deus que me tratou mal e me envolveu em sua rede.

7. "Se grito: É injustiça! Não obtenho resposta; clamo por socorro, todavia não há justiça.

8. Ele bloqueou o meu caminho, e não consigo passar; cobriu de trevas as minhas veredas.

9. Despiu-me da minha honra e tirou a coroa de minha cabeça.

10. Ele me arrasa por todos os lados, enquanto eu não me vou; desarraiga a minha esperança como se arranca uma planta.

11. Sua ira acendeu-se contra mim; ele me vê como inimigo.

12. Suas tropas avançam poderosamente; cercam-me e acampam ao redor da minha tenda.

13. "Ele afastou de mim os meus irmãos; até os meus conhecidos estão longe de mim.

14. Os meus parentes me abandonaram e os meus amigos esqueceram-se de mim.

15. Os meus hóspedes e as minhas servas consideram-me estrangeiro; vêem-me como um estranho.

16. Chamo o meu servo, mas ele não me responde, ainda que eu lhe implore pessoalmente.

17. Minha mulher acha repugnante o meu hálito; meus próprios irmãos têm nojo de mim.

18. Até os meninos zombam de mim, e dão risada quando apareço.

19. Todos os meus amigos chegados me detestam; aqueles a quem amo voltaram-se contra mim.

20. Não passo de pele e ossos; só escapei com a pele dos meus dentes.

21. "Misericórdia, meus amigos! Misericórdia! Pois a mão de Deus me feriu.

22. Por que vocês me perseguem como Deus o faz? Nunca vão saciar-se da minha carne?

23. "Quem dera as minhas palavras fossem registradas! Quem dera fossem escritas num livro,

24. fossem talhadas a ferro no chumbo, ou gravadas para sempre na rocha!

25. Eu sei que o meu Redentor vive, e que no fim se levantará sobre a terra.

26. E depois que o meu corpo estiver destruído e sem carne, verei a Deus.

27. Eu o verei, com os meus próprios olhos; eu mesmo, e não outro! Como anseia no meu peito o coração!

28. "Se vocês disserem: ‘Vejamos como vamos persegui-lo, pois a raiz do problema está nele’,

29. melhor será que temam a espada, porquanto por meio dela a ira lhes trará castigo, e então vocês saberão que há julgamento".

1. Então Zofar, de Naamate, respondeu:

2. "Agitam-se os meus pensamentos e levam-me a responder porque estou profundamente perturbado.

3. Ouvi uma repreensão que me desonra, e o meu entendimento faz-me contestar.

4. "Certamente você sabe que sempre foi assim, desde a antigüidade; desde que o homem foi posto na terra,

5. o riso dos maus é passageiro, e a alegria dos ímpios dura apenas um instante.

6. Mesmo que o seu orgulho chegue aos céus e a sua cabeça toque as nuvens,

7. ele perecerá para sempre, como o seu próprio excremento; os que o tinham visto perguntarão: ‘Onde ele foi parar? ’

8. Ele voa e vai-se como um sonho, para nunca mais ser encontrado, banido como uma visão noturna.

9. O olho que o viu não o verá mais, nem o seu lugar o tornará a ver.

10. Seus filhos têm que indenizar os pobres; ele próprio, com suas mãos, terá que refazer sua riqueza.

11. O vigor juvenil que enche os seus ossos jazerá com ele no pó.

12. "Mesmo que o mal seja doce em sua boca e ele o esconda sob a língua,

13. mesmo que o retenha na boca para saboreá-lo,

14. ainda assim a sua comida azedará no estômago; e será como veneno de cobra em seu interior.

15. Ele vomitará as riquezas que engoliu; Deus fará seu estômago lançá-las fora.

16. Sugará veneno de cobra; as presas de uma víbora o matarão.

17. Não terá gosto na contemplação dos regatos, e dos rios que vertem mel e nata.

18. Terá que devolver aquilo pelo que lutou, sem aproveitá-lo, e não desfrutará dos lucros do seu comércio.

19. Sim, pois ele tem oprimido os pobres e os tem deixado desamparados; apoderou-se de casas que não construiu.

20. "Certo é que a sua cobiça não lhe trará descanso, e o seu tesouro não o salvará.

21. Nada lhe restou para devorar; sua prosperidade não durará muito.

22. Em meio à sua fartura, a aflição o dominará; a força total da desgraça o atingirá.

23. Quando ele estiver de estômago cheio, Deus dará vazão às tremendas chamas de sua ira, e sobre ele despejará o seu furor.

24. Se escapar da arma de ferro, o bronze da sua flecha o atravessará.

25. Ele o arrancará das suas costas, a ponta reluzente saindo do seu fígado. Grande pavor virá sobre ele;

26. densas trevas estarão à espera dos seus tesouros. Um fogo não assoprado o consumirá e devorará o que sobrar em sua tenda.

27. Os céus porão à mostra a sua culpa; a terra se levantará contra ele.

28. Uma inundação arrastará a sua casa, águas avassaladoras, no dia da ira de Deus.

29. Esse é o destino que Deus dá aos ímpios, é a herança designada por Deus para eles".

1. Então respondeu:

2. "Escutem com atenção as minhas palavras; seja esse o consolo que vocês haverão de dar-me.

3. Suportem-me enquanto eu estiver falando; depois que eu falar poderão zombar de mim.

4. "Acaso é dos homens que me queixo? Por que não deveria eu estar impaciente?

5. Olhem para mim, e ficarão atônitos; tapem a boca com a mão.

6. Quando penso nisso, fico aterrorizado; todo o meu corpo se põe a tremer.

7. Por que vivem os ímpios? Por que chegam à velhice e aumentam seu poder?

8. Eles vêem os seus filhos estabelecidos ao seu redor, e os seus descendentes diante dos seus olhos.

9. Seus lares estão seguros e livres de medo; a vara de Deus não os vem ferir.

10. Seus touros nunca deixam de procriar; suas vacas dão crias e não abortam.

11. Eles soltam os seus filhos como um rebanho; seus pequeninos põem-se a dançar.

12. Cantam, acompanhando a música do tamborim e da harpa; alegram-se ao som da flauta.

13. Passam a vida na prosperidade e descem à sepultura em paz.

14. Contudo, dizem eles a Deus: ‘Deixa-nos! Não queremos conhecer os teus caminhos.

15. Quem é o Todo-poderoso, para que o sirvamos? Que vantagem nos dá orar a ele? ’

16. Mas não depende deles a prosperidade de que desfrutam; por isso fico longe do conselho dos ímpios.

17. "Pois, quantas vezes a lâmpada dos ímpios se apaga? Quantas vezes a desgraça cai sobre eles, o destino que em sua ira Deus lhes dá?

18. Quantas vezes o vento os leva como palha, e o furacão os arrebata como cisco?

19. Dizem que Deus reserva o castigo de um homem para os seus filhos. Que ele mesmo o receba, para que aprenda a lição!

20. Que os seus próprios olhos vejam a sua ruína; que ele mesmo beba da ira do Todo-poderoso!

21. Pois, que lhe importará a família que deixa atrás de si quando chegar ao fim os meses que lhe foram destinados?

22. "Haverá alguém que o ensine a conhecer a Deus, uma vez que ele julga até os de mais alta posição?

23. Um homem morre em pleno vigor, quando se sentia bem e seguro,

24. tendo o corpo bem nutrido e os ossos cheios de tutano.

25. Já outro morre tendo a alma amargurada, sem nada ter desfrutado.

26. Um e outro jazem no pó, ambos cobertos de vermes.

27. "Sei muito bem o que vocês estão pensando, as suas conspirações contra mim.

28. ‘Onde está agora a casa do grande homem? ’, vocês perguntam. ‘Onde a tenda dos ímpios? ’

29. Vocês nunca fizeram perguntas aos que viajam? Não deram atenção ao que contam?

30. Que o mau é poupado da calamidade, e que do dia da ira recebe livramento?

31. Quem o acusa lançando em rosto a sua conduta? Quem lhe retribui pelo mal que fez?

32. Pois o levam para o túmulo, e sobre a sua sepultura se mantém vigilância.

33. Para ele é macio o terreno do vale; todos o seguem, e uma multidão incontável o precede.

34. "Por isso, como podem vocês consolar-me com esses absurdos? O que sobra das suas respostas é pura falsidade! "

1. Então, de Temã, Elifaz respondeu:

2. "Pode alguém ser útil a Deus? Mesmo um sábio, pode ser-lhe de algum proveito?

3. Que prazer você daria ao Todo-poderoso se você fosse justo? Que é que ele ganharia se os seus caminhos fossem irrepreensíveis?

4. "É por sua piedade que ele o repreende e lhe faz acusações?

5. Não é grande a sua maldade? Não são infindos os seus pecados?

6. Sem motivo você exigia penhores dos seus irmãos; você despojava das roupas os que quase nenhuma tinham.

7. Você não deu água ao sedento e reteve a comida do faminto,

8. sendo você poderoso, e dono de terras, delas vivendo, e honrado diante de todos.

9. Você mandou embora de mãos vazias as viúvas e quebrou a força dos órfãos.

10. Por isso está cercado de armadilhas e o perigo repentino o apavora.

11. Também por isso você se vê envolto em escuridão que o cega, e o cobrem as águas, em tremenda inundação.

12. "Não está Deus nas alturas dos céus? E em que altura estão as estrelas mais distantes!

13. Contudo você diz: ‘Que é que Deus sabe? Poderá julgar através de tão grande escuridão?

14. Nuvens espessas o cobrem, e ele não pode nos ver, quando percorre a abóbada dos céus’.

15. Você vai continuar no velho caminho que os perversos palmilharam?

16. Estes foram levados antes da hora; seus alicerces foram arrastados por uma enchente.

17. Eles disseram a Deus: ‘Deixa-nos! Que é que o Todo-poderoso poderá fazer conosco? ’

18. Contudo, foi ele que encheu de bens as casas deles; por isso fico longe do conselho dos ímpios.

19. "Os justos vêem a ruína deles, e se regozijam; os inocentes zombam deles, dizendo:

20. ‘Certo é que os nossos inimigos foram destruídos, e o fogo devorou a sua riqueza’.

21. "Sujeite-se a Deus, fique em paz com ele, e a prosperidade virá a você.

22. Aceite a instrução que vem da sua boca e ponha no coração as suas palavras.

23. Se você voltar-se para o Todo-poderoso, voltará ao seu lugar: Se afastar da sua tenda a injustiça,

24. lançar ao pó as suas pepitas, o seu ouro puro de Ofir às rochas dos vales,

25. o Todo-poderoso será o seu ouro, será para você prata seleta.

26. É certo que você achará prazer no Todo-poderoso e erguerá o rosto para Deus.

27. A ele orará, e ele o ouvirá, e você cumprirá os seus votos.

28. O que você decidir se fará, e a luz brilhará em seus caminhos.

29. Quando os homens forem humilhados e você disser: ‘Levanta-os! ’, ele salvará o abatido.

30. Livrará até o que não é inocente, que será liberto graças à pureza que há nas suas mãos".

1. Então respondeu:

2. "Até agora me queixo com amargura; a mão dele é pesada, a despeito de meu gemido.

3. Se tão-somente eu soubesse onde encontrá-lo e ir à sua habitação!

4. Eu lhe apresentaria a minha causa e encheria a minha boca de argumentos.

5. Estudaria o que ele me respondesse e analisaria o que me dissesse.

6. Será que ele se oporia a mim com grande poder? Não, ele não me faria acusações.

7. O homem íntegro poderia apresentar-lhe sua causa; eu seria liberto para sempre de quem me julga.

8. "Mas, se vou para o oriente, lá ele não está; se vou para o ocidente, não o encontro.

9. Quando ele está em ação no norte, não o enxergo; quando vai para o sul, nem sombra dele eu vejo!

10. Mas ele conhece o caminho por onde ando; se me puser à prova, aparecerei como o ouro.

11. Meus pés seguiram de perto as suas pegadas; mantive-me no seu caminho, sem desviar-me.

12. Não me afastei dos mandamentos dos seus lábios; dei mais valor às palavras de sua boca, do que ao meu pão de cada dia.

13. "Mas ele é ele! Quem poderá fazer-lhe oposição? Ele faz o que quer.

14. Executa o seu decreto contra mim, e tem muitos outros semelhantes.

15. Por isso fico apavorado diante dele; pensar nisso me enche de medo.

16. Deus fez desmaiar o meu coração; o Todo-poderoso causou-me pavor.

17. Contudo não fui silenciado pelas trevas, pelas densas trevas que cobrem o meu rosto.

1. "Por que o Todo-poderoso não marca as datas para julgamento? Por que aqueles que o conhecem não chegam a vê-las?

2. Há os que mudam os marcos dos limites e apascentam rebanhos que eles roubaram.

3. Levam o jumento que pertence ao órfão e tomam o boi da viúva como penhor.

4. Forçam os necessitados a saírem do caminho e os pobres da terra a esconder-se.

5. Como jumentos selvagens no deserto, os pobres vão em busca de comida; da terra deserta a obtêm para os seus filhos.

6. Juntam forragem nos campos e respigam nas vinhas dos ímpios.

7. Pela falta de roupas, passam a noite nus; não têm com que cobrir-se no frio.

8. Encharcados pelas chuvas das montanhas, abraçam-se às rochas por falta de abrigo.

9. A criança órfã é arrancada do seio de sua mãe; o recém-nascido do pobre é tomado para pagar uma dívida.

10. Por falta de roupas, andam nus; carregam os feixes, mas continuam famintos.

11. Espremem azeitonas dentro dos seus muros; pisam uvas nos lagares, mas assim mesmo sofrem sede.

12. Sobem da cidade os gemidos dos que estão para morrer, e as almas dos feridos clamam por socorro. Mas Deus não vê mal nisso.

13. "Há os que se revoltam contra a luz, não conhecem os caminhos dela e não permanecem em suas veredas.

14. De manhã o assassino se levanta e mata os pobres e os necessitados; de noite age como ladrão.

15. Os olhos do adúltero ficam à espera do crepúsculo; ‘Nenhum olho me verá’, pensa ele; e mantém oculto o rosto.

16. No escuro os homens invadem casas, mas de dia se enclausuram; não querem saber da luz.

17. Para eles a manhã é tremenda escuridão; eles são amigos dos pavores das trevas.

18. "São, porém, como espuma sobre as águas; sua parte da terra foi amaldiçoada, e por isso ninguém vai às vinhas.

19. Assim como o calor e a seca depressa consomem a neve derretida, assim a sepultura consome os que pecaram.

20. Sua mãe os esquece, os vermes se banqueteiam neles. Ninguém se lembra dos maus; quebram-se como árvores.

21. Devoram a estéril e sem filhos e não mostram bondade para com a viúva.

22. Mas Deus, por seu poder, os arranca; embora firmemente estabelecidos, a vida deles não tem segurança.

23. Ele poderá deixá-los descansar, sentindo-se seguros, mas os vigia atento nos caminhos que seguem.

24. Por um breve instante são exaltados, e depois se vão; colhidos como todos os demais; ceifados como espigas de cereal.

25. "Se não é assim, quem poderá provar que minto e reduzir a nada as minhas palavras? "

1. Então Bildade, de Suá, respondeu:

2. "O domínio e o temor pertencem a Deus; ele impõe ordem nas alturas, que a ele pertencem.

3. Seria possível contar os seus exércitos? E a sua luz, sobre quem não se levanta?

4. Como pode então o homem ser justo diante de Deus? Como pode ser puro quem nasce de mulher?

5. Se nem a lua é brilhante e as estrelas são puras aos olhos dele,

6. muito menos o será o homem, que não passa de larva, o filho do homem, que não passa de verme! "

1. Então respondeu:

2. Grande foi a ajuda que você deu ao desvalido! Que socorro você prestou ao braço frágil!

3. Belo conselho você ofereceu a quem não é sábio, e que grande sabedoria você revelou!

4. Quem o ajudou a proferir essas palavras, e por meio de que espírito você falou?

5. "Os mortos estão em grande angústia sob as águas e os que nelas vivem.

6. Nu está o Sheol diante de Deus, e nada encobre a Destruição.

7. Ele estende os céus do norte sobre o espaço vazio; suspende a terra sobre o nada.

8. Envolve as águas em suas nuvens, e estas não se rompem sob o peso delas.

9. Ele cobre a face da lua cheia estendendo sobre ela as suas nuvens.

10. Traça o horizonte sobre a superfície das águas para servir de limite entre a luz e as trevas.

11. As colunas dos céus estremecem e ficam perplexas diante da sua repreensão.

12. Com seu poder agitou violentamente o mar; com sua sabedoria despedaçou Raabe.

13. Com seu sopro os céus ficaram límpidos; sua mão feriu a serpente arisca.

14. E isso tudo é apenas a borda das suas obras! Um suave sussurro é o que ouvimos dele. Mas quem poderá compreender o trovão do seu poder? "

1. E prosseguiu em seu discurso:

2. "Pelo Deus vivo, que me negou justiça, pelo Todo-poderoso, que deu amargura à minha alma,

3. enquanto eu tiver vida em mim, o sopro de Deus em minhas narinas,

4. meus lábios não falarão maldade, e minha língua não proferirá nada que seja falso.

5. Nunca darei razão a vocês! Minha integridade não negarei jamais, até à morte.

6. Manterei minha retidão, e nunca a deixarei; enquanto eu viver, a minha consciência não me repreenderá.

7. "Sejam os meus inimigos como os ímpios, e os meus adversários como os injustos!

8. Pois, qual é a esperança do ímpio, quando é eliminado, quando Deus lhe tira a vida?

9. Ouvirá Deus o seu clamor, quando vier sobre ele a aflição?

10. Terá ele prazer no Todo-poderoso? Chamará a Deus a cada instante?

11. "Eu os ensinarei sobre o poder de Deus; não esconderei de vocês os caminhos do Todo-poderoso.

12. Pois a verdade é que todos vocês já viram isso. Por que então essa conversa sem sentido?

13. "Este é o destino que Deus determinou para o ímpio, a herança que o mau recebe do Todo-poderoso:

14. Por mais filhos que tenha, o destino deles é a espada; sua prole jamais terá comida suficiente.

15. A epidemia sepultará aqueles que lhe sobreviverem, e as suas viúvas não chorarão por eles.

16. Ainda que ele acumule prata como pó e roupas como barro, amontoe;

17. o que ele armazenar ficará para os justos, e os inocentes dividirão sua prata.

18. A casa que ele constrói é como casulo de traça, como cabana feita pela sentinela.

19. Rico ele se deita, mas nunca mais será! Quando abre os olhos, tudo se foi.

20. Pavores vêm sobre ele como uma enchente; de noite a tempestade o leva de roldão.

21. O vento oriental o leva, e ele desaparece; arranca-o do seu lugar.

22. Atira-se contra ele sem piedade, enquanto ele foge às pressas do seu poder.

23. Bate palmas contra ele e com assobios o expele do seu lugar.

1. "Existem minas de prata e locais onde se refina ouro.

2. O ferro é extraído da terra, e do minério se funde o cobre.

3. O homem dá fim à escuridão; e vasculha os recônditos mais remotos em busca de minério, nas mais escuras trevas.

4. Longe das moradias ele cava um poço, em local esquecido pelos pés dos homens; longe de todos, ele se pendura e balança.

5. A terra, da qual vem o alimento, é revolvida embaixo como que pelo fogo;

6. das suas rochas saem safiras, e seu pó contém pepitas de ouro.

7. Nenhuma ave de rapina conhece aquele caminho oculto, e os olhos de nenhum falcão o viram.

8. Os animais altivos não põem os pés nele, e nenhum leão ronda por ali.

9. As mãos dos homens atacam a pederneira e transtornam as raízes das montanhas.

10. Fazem túneis através da rocha, e os seus olhos enxergam todos os tesouros dali.

11. Eles vasculham as nascentes dos rios e trazem à luz coisas ocultas.

12. "Onde, porém, se poderá achar a sabedoria? Onde habita o entendimento?

13. O homem não percebe o valor da sabedoria; ela não se encontra na terra dos viventes.

14. O abismo diz: ‘Em mim não está’; o mar diz: ‘Não está comigo’.

15. Não pode ser comprada, mesmo com o ouro mais puro, nem se pode pesar o seu preço em prata.

16. Não pode ser comprada nem com o ouro puro de Ofir, nem com o precioso ônix ou com safiras.

17. O ouro e o cristal não se comparam com ela, e é impossível tê-la em troca de jóias de ouro.

18. O coral e o jaspe nem merecem menção; o preço da sabedoria ultrapassa o dos rubis.

19. O topázio da Etiópia não se compara com ela; não se compra a sabedoria nem com ouro puro!

20. "De onde vem, então, a sabedoria? Onde habita o entendimento?

21. Escondida está dos olhos de toda criatura viva, até das aves dos céus.

22. A Destruição e a Morte dizem: ‘Aos nossos ouvidos só chegou um leve rumor dela’.

23. Deus conhece o caminho; só ele sabe onde ela habita,

24. pois ele enxerga os confins da terra e vê tudo o que há debaixo dos céus.

25. Quando ele determinou a força do vento e estabeleceu a medida exata para as águas,

26. quando fez um decreto para a chuva e o caminho para a tempestade trovejante,

27. ele olhou para a sabedoria e a avaliou; confirmou-a e a pôs à prova.

28. Disse então ao homem: ‘No temor do Senhor está a sabedoria, e evitar o mal é ter entendimento’ ".

1. prosseguiu sua fala:

2. "Como tenho saudade dos meses que se passaram, dos dias em que Deus cuidava de mim,

3. quando a sua lâmpada brilhava sobre a minha cabeça e por sua luz eu caminhava em meio às trevas!

4. Como tenho saudade dos dias do meu vigor, quando a amizade de Deus abençoava a minha casa,

5. quando o Todo-poderoso ainda estava comigo e meus filhos estavam ao meu redor,

6. quando as minhas veredas se embebiam em nata e a rocha me despejava torrentes de azeite.

7. "Quando eu ia à porta da cidade e tomava assento na praça pública;

8. quando, ao me verem, os jovens saíam do caminho, e os idosos ficavam de pé;

9. os líderes se abstinham de falar e com a mão cobriam a boca.

10. As vozes dos nobres silenciavam, e suas línguas colavam-se ao céu da boca.

11. Todos os que me ouviam falavam bem de mim, e quem me via me elogiava,

12. pois eu socorria o pobre que clamava por ajuda, e o órfão que não tinha quem o ajudasse.

13. O que estava à beira da morte me abençoava, e eu fazia regozijar-se o coração da viúva.

14. A retidão era a minha roupa; a justiça era o meu manto e o meu turbante.

15. Eu era os olhos do cego e os pés do aleijado.

16. Eu era o pai dos necessitados, e me interessava pela defesa de desconhecidos.

17. Eu quebrava as presas dos ímpios e dos seus dentes arrancava as suas vítimas.

18. "Eu pensava: ‘Morrerei em casa, e os meus dias serão numerosos como os grãos de areia.

19. Minhas raízes chegarão até as águas, e o orvalho passará a noite nos meus ramos.

20. Minha glória se renovará em mim, e novo será o meu arco em minha mão’.

21. "Os homens me escutavam em ansiosa expectativa, aguardando em silêncio o meu conselho.

22. Depois que eu falava, eles nada diziam; minhas palavras caíam suavemente em seus ouvidos.

23. Esperavam por mim como quem espera por uma chuvarada, e bebiam minhas palavras como quem bebe a chuva da primavera.

24. Quando eu lhes sorria, mal acreditavam; a luz do meu rosto lhes era preciosa.

25. Era eu que escolhia o caminho para eles, e me assentava como seu líder; instalava-me como um rei no meio das suas tropas; eu era como um consolador dos que choram.

1. "Mas agora eles zombam de mim, homens mais jovens que eu, homens cujos pais eu teria rejeitado, não lhes permitindo sequer estar com os cães de guarda do rebanho.

2. De que me serviria a força de suas mãos, já que desapareceu o seu vigor?

3. Desfigurados de tanta necessidade e fome, perambulavam pela terra ressequida, em sombrios e devastados desertos.

4. Nos campos de mato rasteiro colhiam ervas, e a raiz da giesta era a sua comida.

5. Da companhia dos amigos foram expulsos aos gritos, como se fossem ladrões.

6. Foram forçados a morar nos leitos secos dos rios, entre as rochas e nos buracos da terra.

7. Rugiam entre os arbustos e se encolhiam sob a vegetação.

8. Prole desprezível e sem nome, foram expulsos da terra.

9. "E agora os filhos deles zombam de mim com suas canções; tornei-me um provérbio entre eles.

10. Eles me detestam e se mantêm à distância; não hesitam em cuspir em meu rosto.

11. Agora que Deus afrouxou a corda do meu arco e me afligiu, eles ficam sem freios na minha presença.

12. À direita os embrutecidos me atacam; preparam armadilhas para os meus pés, e constroem rampas de cerco contra mim.

13. Destroem o meu caminho; conseguem destruir-me, sem a ajuda de ninguém.

14. Avançam como através de uma grande brecha; arrojam-se entre as ruínas.

15. Pavores apoderam-se de mim; a minha dignidade é levada como pelo vento, a minha segurança se desfaz como nuvem.

16. "E agora esvai-se a minha vida; estou preso a dias de sofrimento.

17. A noite penetra os meus ossos; minhas dores me corroem sem cessar.

18. Em seu grande poder Deus é como a minha roupa; ele me envolve como a gola da minha veste.

19. Lança-me na lama, e sou reduzido a pó e cinza.

20. "Clamo a ti, ó Deus, mas não respondes; fico de pé, mas apenas olhas para mim.

21. Contra mim te voltas com dureza e me atacas com a força de tua mão.

22. Tu me apanhas e me levas contra o vento, e me jogas de um lado a outro na tempestade.

23. Sei que me farás descer até a morte, ao lugar destinado a todos os viventes.

24. "A verdade é que ninguém dá a mão ao homem arruinado, quando este, em sua aflição, grita por socorro.

25. Não é certo que chorei por causa dos que passavam dificuldade? E que a minha alma entristeceu-se por causa dos pobres?

26. Mesmo assim, quando eu esperava o bem, veio o mal; quando eu procurava luz, vieram trevas.

27. Nunca pára a agitação dentro de mim; dias de sofrimento me confrontam.

28. Perambulo escurecido, mas não pelo sol; levanto-me na assembléia e clamo por ajuda.

29. Tornei-me irmão dos chacais, companheiro das corujas.

30. Minha pele escurece e cai; meu corpo queima de febre.

31. Minha harpa está afinada para cantos fúnebres, e minha flauta para o som de pranto.

1. "Fiz acordo com os meus olhos de não olhar com cobiça para as moças.

2. Pois qual é a porção que o homem recebe de Deus, lá de cima? Qual a sua herança do Todo-poderoso, que habita nas alturas?

3. Não é ruína para os ímpios, desgraça para os que fazem o mal?

4. Não vê ele os meus caminhos, e não considera cada um de meus passos?

5. "Se me conduzi com falsidade, ou se meus pés se apressaram a enganar,

6. Deus me pese em balança justa, e saberá que não tenho culpa;

7. se meus passos desviaram-se do caminho, se o meu coração foi conduzido por meus olhos, ou se minhas mãos foram contaminadas,

8. que outros comam o que semeei, e que as minhas plantações sejam arrancadas pelas raízes.

9. "Se o meu coração foi seduzido por mulher, ou se fiquei à espreita junto à porta do meu próximo,

10. que a minha esposa moa cereal de outro homem, e que outros durmam com ela.

11. Pois fazê-lo seria vergonhoso, crime merecedor de julgamento.

12. Isso é um fogo que consome até a Destruição; teria extirpado a minha colheita.

13. "Se neguei justiça aos meus servos e servas, quando reclamaram contra mim,

14. que farei quando Deus me confrontar? Que responderei quando chamado a prestar contas?

15. Aquele que me fez no ventre materno não fez também a eles? Não foi ele quem formou a mim e a eles No interior de nossas mães?

16. "Se não atendi aos desejos do pobre, ou se fatiguei os olhos da viúva,

17. se comi meu pão sozinho, sem compartilhá-lo com o órfão,

18. sendo que desde a minha juventude o criei como se fosse seu pai, e desde o nascimento guiei a viúva;

19. se vi alguém morrendo por falta de roupa, ou um necessitado sem cobertor,

20. e o seu coração não me abençoou porque o aqueci com a lã de minhas ovelhas,

21. se levantei a mão contra o órfão, ciente da minha influência no tribunal,

22. que o meu braço descaia do ombro, e se quebre nas juntas.

23. Pois eu tinha medo que Deus me destruísse, e, temendo o seu esplendor, não podia fazer tais coisas.

24. "Se pus no ouro a minha confiança e disse ao ouro puro: Você é a minha garantia,

25. se me regozijei por ter grande riqueza, pela fortuna que as minhas mãos obtiveram,

26. se contemplei o sol em seu fulgor e a lua a mover-se esplêndida,

27. e em segredo o meu coração foi seduzido e a minha mão lhes ofereceu beijos de veneração,

28. esses também seriam pecados merecedores de condenação, pois eu teria sido infiel a Deus, que está nas alturas.

29. "Se a desgraça do meu inimigo me alegrou, ou se os problemas que teve me deram prazer;

30. eu, que nunca deixei minha boca pecar, lançando maldição sobre ele;

31. se os que moram em minha casa nunca tivessem dito: ‘Quem não recebeu de um pedaço de carne? ’,

32. sendo que nenhum estrangeiro teve que passar a noite na rua, pois a minha porta sempre esteve aberta para o viajante;

33. se escondi o meu pecado, como outros fazem, acobertando no coração a minha culpa,

34. com tanto medo da multidão e do desprezo dos familiares que me calei e não saí de casa...

35. ( "Ah, se alguém me ouvisse! Agora assino a minha defesa. Que o Todo-poderoso me responda; que o meu acusador faça a acusação por escrito.

36. Eu bem que a levaria nos ombros e a usaria como coroa.

37. Eu lhe falaria sobre todos os meus passos; como um príncipe eu me aproximaria dele. )

38. "Se a minha terra se queixar de mim e todos os seus sulcos chorarem,

39. se consumi os seus produtos sem nada pagar, ou se causei desânimo aos seus ocupantes,

40. que me venham espinhos em lugar de trigo e ervas daninhas em lugar de cevada". Aqui terminam as palavras de .

1. Então esses três homens pararam de responder a , pois este se julgava justo.

2. Mas Eliú, filho de Baraquel, de Buz, da família de Rão, indignou-se muito contra , porque este se justificava a si mesmo diante de Deus.

3. Também se indignou contra os três amigos, pois não encontraram meios de refutar a , e mesmo assim o tinham condenado.

4. Eliú tinha ficado esperando para falar a , porque eles eram mais velhos que ele.

5. Mas, quando viu que os três não tinham mais nada a dizer, indignou-se.

6. Então Eliú, filho de Baraquel, de Buz, falou: "Eu sou jovem, vocês têm idade. Por isso tive receio e não ousei dizer-lhes o que sei.

7. Os que têm idade é que devem falar, pensava eu, os anos avançados é que devem ensinar sabedoria.

8. Mas é o espírito dentro do homem que lhe dá entendimento, o sopro do Todo-poderoso.

9. Não são só os mais velhos, os sábios, não são só os de idade que entendem o que é certo.

10. "Por isso digo: Escutem-me; também vou dizer o que sei.

11. Enquanto vocês estavam falando, esperei; fiquei ouvindo os seus arrazoados; enquanto vocês estavam procurando palavras,

12. dei-lhes total atenção. Mas não é que nenhum de vocês demonstrou que está errado? Nenhum de vocês respondeu aos seus argumentos.

13. Não digam: ‘Encontramos a sabedoria; que Deus o refute, não o homem’.

14. Só que não foi contra mim que dirigiu as suas palavras, e não vou responder a ele com os argumentos de vocês.

15. "Vejam eles estão consternados e não têm mais o que dizer; as palavras lhes fugiram.

16. Devo aguardar, agora que estão calados e sem resposta?

17. Também vou dar a minha opinião, também vou dizer o que sei,

18. pois não me faltam palavras, e dentro de mim o espírito me impulsiona.

19. Por dentro estou como vinho arrolhado, como vasilhas de couro novas prestes a romper.

20. Tenho que falar. Isso me aliviará. Tenho que abrir os lábios e responder.

21. Não serei parcial com ninguém, e a ninguém bajularei,

22. porque não sou bom em bajular; se fosse, o meu Criador em breve me levaria.

1. "Mas agora, , escute as minhas palavras; preste atenção a tudo o que vou dizer.

2. Estou prestes a abrir a boca; minhas palavras estão na ponta da língua.

3. Minhas palavras procedem de um coração íntegro; meus lábios falam com sinceridade o que eu sei.

4. O Espírito de Deus me fez; o sopro do Todo-poderoso me dá vida.

5. Responda-me, então, se puder; prepare-se para enfrentar-me.

6. Sou igual a você diante de Deus; eu também fui feito do barro.

7. Por isso não lhe devo inspirar temor, e a minha mão não há de ser pesada sobre você.

8. "Mas você disse ao meu alcance, eu ouvi bem as palavras:

9. ‘Estou limpo e sem pecado; estou puro e sem culpa.

10. Contudo, Deus procurou em mim motivos para inimizade; ele me considera seu inimigo.

11. Ele acorrenta os meus pés; vigia de perto todos os meus caminhos. ’

12. "Mas eu lhe digo que você não está certo, porquanto Deus é maior do que o homem.

13. Por que você se queixa a ele de que não responde às palavras dos homens?

14. Pois a verdade é que Deus fala, ora de um modo, ora de outro, mesmo que o homem não o perceba.

15. Em sonho ou em visão durante a noite, quando o sono profundo cai sobre os homens e eles dormem em suas camas,

16. ele pode falar aos ouvidos deles e aterrorizá-los com advertências

17. para previnir o homem das suas más ações e livrá-lo do orgulho,

18. para preservar da cova a sua alma, e a sua vida da espada.

19. Ou o homem pode ser castigado no leito de dor, com os seus ossos em constante agonia,

20. levando-o a achar a comida repulsiva e a detestar na alma sua refeição preferida.

21. Já não se vê sua carne, e seus ossos, que não se viam, agora aparecem.

22. Sua alma aproxima-se da cova, e sua vida, dos mensageiros da morte.

23. "Havendo, porém, um anjo ao seu lado, como mediador dentre mil, que diga ao homem o que é certo a seu respeito,

24. para ser-lhe favorável e dizer: ‘Poupa-o de descer à cova; encontrei resgate para ele’,

25. então sua carne se renova voltando a ser como de criança; ele se rejuvenece.

26. Ele ora a Deus e recebe o seu favor; vê o rosto de Deus e dá gritos de alegria, e Deus lhe restitui a condição de justo.

27. Depois ele vem aos homens e diz: ‘Pequei e torci o que era certo, mas ele não me deu o que eu merecia.

28. Ele resgatou a minha alma, impedindo-a de descer à cova, e viverei para desfrutar a luz’.

29. "Deus faz dessas coisas ao homem, duas ou três vezes,

30. para recuperar sua alma da cova, a fim de que refulja sobre ele a luz da vida.

31. "Preste atenção, , e escute-me; fique em silêncio, e falarei.

32. Se você tem algo para dizer, responda-me; fale logo, pois quero que você seja absolvido.

33. Se não tem nada a dizer, ouça-me, fique em silêncio, e eu lhe ensinarei a sabedoria".

1. Disse então Eliú:

2. "Ouçam as minhas palavras, vocês que são sábios; escutem-me, vocês que têm conhecimento.

3. Pois o ouvido prova as palavras como a língua prova o alimento.

4. Tratemos de discernir juntos o que é certo e de aprender o que é bom.

5. " afirma: ‘Sou inocente, mas Deus me nega justiça.

6. Apesar de eu estar certo, sou considerado mentiroso; apesar de estar sem culpa, sua flecha me causa ferida incurável’.

7. Que homem existe como , que bebe zombaria como água?

8. Ele é companheiro dos que fazem o mal, e anda com os ímpios.

9. Pois diz: ‘Não dá lucro agradar a Deus’.

10. "Por isso escutem-me, vocês que têm conhecimento. Longe de Deus esteja o fazer o mal, e do Todo-poderoso o praticar a iniqüidade.

11. Ele retribui ao homem conforme o que este fez, e lhe dá o que a sua conduta merece.

12. Não se pode nem pensar que Deus faça o mal, que o Todo-poderoso perverta a justiça.

13. Quem o nomeou para governar a terra? Quem o encarregou de cuidar do mundo inteiro?

14. Se fosse intenção dele, e de fato retirasse o seu espírito e o seu sopro,

15. a humanidade pereceria toda de uma vez, e o homem voltaria ao pó.

16. "Portanto, se você tem entendimento, ouça-me, escute o que lhe digo.

17. Acaso quem odeia a justiça poderá governar? Será que você condenará aquele que é justo e poderoso?

18. Não é ele que diz aos reis: ‘Vocês nada valem’, e aos nobres: ‘Vocês são ímpios’?

19. Não é verdade que ele não mostra parcialidade a favor dos príncipes, e não favorece o rico em detrimento do pobre, uma vez que todos são obra de suas mãos?

20. Morrem num momento, em plena noite; cambaleiam e passam. Os poderosos são retirados sem a intervenção de mãos humanas.

21. "Pois Deus vê o caminho dos homens; ele enxerga cada um dos seus passos.

22. Não há sombra densa o bastante, onde os que fazem o mal possam esconder-se.

23. Deus não precisa de maior tempo para examinar os homens, e levá-los à sua presença para julgamento.

24. Sem depender de investigações, ele destrói os poderosos e coloca outros em seu lugar.

25. Visto que ele repara nos atos que eles praticam, derruba-os, e eles são esmagados.

26. Pela impiedade deles, ele os castiga onde todos podem vê-los.

27. Isso porque deixaram de segui-lo e não deram atenção aos caminhos por ele traçados.

28. Fizeram chegar a ele o grito do pobre, e ele ouviu o clamor do necessitado.

29. Mas, se ele permanecer calado, quem poderá condená-lo? Se esconder o rosto, quem poderá vê-lo? No entanto, ele domina igualmente sobre homens e nações,

30. para evitar que o ímpio governe e prepare armadilhas para o povo.

31. "Suponhamos que um homem diga a Deus: ‘Sou culpado, mas não vou mais pecar.

32. Mostra-me o que não estou vendo; se agi mal, não tornarei a fazê-lo’.

33. Quanto a você, deveria Deus recompensá-lo quando você nega a sua culpa? É você que tem que decidir, não eu; conte-me, pois, o que você sabe.

34. "Os homens de bom senso, os sábios que me ouvem, me declaram:

35. não sabe o que diz; não há discernimento em suas palavras’.

36. Ah, se sofresse a mais dura prova, por sua resposta de ímpio!

37. Ao seu pecado ele acrescenta a revolta; com desprezo bate palmas entre nós e multiplica suas palavras contra Deus".

1. Eliú prosseguiu:

2. "Você acha que isso é justo? Pois você diz: ‘Serei absolvido por Deus’.

3. Contudo, você lhe pergunta: ‘Que vantagem tenho eu, e o que ganho, se não pecar? ’

4. "Desejo responder-lhe, a você e aos seus amigos que estão com você.

5. Olhe para os céus e veja; mire as nuvens, tão elevadas.

6. Se você pecar, em que isso o afetará? Se os seus pecados forem muitos, que é que isso lhe fará?

7. Se você for justo, o que lhe dará? Ou o que ele receberá de sua mão?

8. A sua impiedade só afeta aos homens, seus semelhantes, e a sua justiça, aos filhos dos homens.

9. "Os homens se lamentam sob fardos de opressão; imploram que os libertem do braço dos poderosos.

10. Mas não há quem pergunte: ‘Onde está Deus, o meu Criador, que de noite faz surgirem cânticos,

11. que nos ensina mais que aos animais da terra e nos faz mais sábios que as aves dos céus? ’

12. Quando clamam, ele não responde por causa da arrogância dos ímpios.

13. Aliás, Deus não escuta a vã súplica que fazem; o Todo-poderoso não lhe dá atenção.

14. Pois muito menos escutará quando você disser que não o vê, que a sua causa está diante dele e que você tem que esperar por ele.

15. Mais que isso, que a sua ira jamais castiga e que ele não dá a mínima atenção à iniqüidade.

16. Assim é que abre a sua boca para dizer palavras vãs; em sua ignorância ele multiplica palavras".

1. Disse mais Eliú:

2. "Peço-lhe que seja um pouco mais paciente comigo, e lhe mostrarei que se pode dizer mais verdades em defesa de Deus.

3. Vem de longe o meu conhecimento; atribuirei justiça ao meu Criador.

4. Não tenha dúvida de que as minhas palavras não são falsas; quem está com você é a perfeição no conhecimento.

5. "Deus é poderoso, mas não despreza os homens; é poderoso e firme em seu propósito.

6. Não poupa a vida dos ímpios, mas garante os direitos dos aflitos.

7. Não tira os seus olhos do justo; ele o coloca nos tronos com os reis e o exalta para sempre.

8. Mas, se os homens forem acorrentados, presos firmemente com as cordas da aflição,

9. e lhes dirá o que fizeram, que pecaram com arrogância.

10. Ele os fará ouvir a correção e lhes ordenará que se arrependam do mal que praticaram.

11. Se lhe obedecerem e o servirem, serão prósperos até o fim dos seus dias e terão contentamento nos anos que lhes restam.

12. Mas, se não obedecerem, perecerão à espada e morrerão na ignorância.

13. "Os que têm coração ímpio guardam ressentimento; mesmo quando ele os agrilhoa eles não clamam por socorro.

14. Morrem em plena juventude entre os prostitutos dos santuários.

15. Mas aos que sofrem ele os livra em meio ao sofrimento; em sua aflição ele lhes fala.

16. "Ele está atraindo você para longe das mandíbulas da aflição, para um lugar amplo e livre, para o conforto da mesa farta e seleta que você terá.

17. Mas agora, farto sobre você é o julgamento que cabe aos ímpios; o julgamento e a justiça o pegaram.

18. Cuidado! Que ninguém o seduza com riquezas; não se deixe desviar por suborno, por maior que este seja.

19. Acaso a sua riqueza, ou mesmo todos os seus grandes esforços, dariam a você apoio e alívio da aflição?

20. Não anseie pela noite, quando o povo é tirado dos seus lares.

21. Cuidado! Não se volte para a iniqüidade, que você parece preferir à aflição.

22. "Deus é exaltado em seu poder. Quem é mestre como ele?

23. Quem lhe prescreveu os seus caminhos, ou lhe disse: ‘Agiste mal’?

24. Lembre-se de exaltar as suas obras, às quais os homens dedicam cânticos de louvor.

25. Toda a humanidade as vê; de lugares distantes os homens as contemplam.

26. Como Deus é grande! Ultrapassa o nosso entendimento! Não há como calcular os anos da sua existência.

27. "Ele atrai as gotas de água, que se dissolvem e descem como chuva para os regatos;

28. as nuvens as despejam em aguaceiros sobre a humanidade.

29. Quem pode entender como ele estende as suas nuvens, como ele troveja desde o seu pavilhão?

30. Observe como ele espalha os seus relâmpagos ao redor, iluminando até as profundezas do mar.

31. É assim que ele governa as nações e lhes fornece grande fartura.

32. Ele enche as mãos de relâmpagos e lhes determina o alvo que deverão atingir.

33. Seu trovão anuncia a tempestade que está a caminho; até o gado a pressente.

1. "Diante disso o meu coração bate aceleradamente e salta do seu lugar.

2. Ouça! Escute o estrondo da sua voz, o trovejar da sua boca.

3. Ele solta os seus relâmpagos por baixo de toda a extensão do céu e os manda para os confins da terra.

4. Depois vem o som do seu grande estrondo: ele troveja com sua majestosa voz. Quando a sua voz ressoa, nada o faz recuar.

5. A voz de Deus troveja maravilhosamente; ele faz coisas grandiosas, acima do nosso entendimento.

6. Ele diz à neve: ‘Caia sobre a terra’, e à chuva: ‘Seja um forte aguaceiro’.

7. Ele paralisa o trabalho de cada homem, a fim de que todos os que ele criou conheçam a sua obra.

8. Os animais vão para os seus esconderijos; e ficam nas suas tocas.

9. A tempestade sai da sua câmara, e dos ventos vem o frio.

10. O sopro de Deus produz gelo, e as vastas águas se congelam.

11. Também carrega de umidade as nuvens, e entre elas espalha os seus relâmpagos.

12. Ele as faz girar, circulando sobre a superfície de toda a terra, para fazerem tudo o que ele lhes ordenar.

13. Ele traz as nuvens, ora para castigar os homens, ora para regar a sua terra e mostrar o seu amor.

14. "Escute isto, ; pare e reflita nas maravilhas de Deus.

15. Acaso você sabe como Deus comanda as nuvens e faz brilhar os seus relâmpagos?

16. Você sabe como ficam suspensas as nuvens, essas maravilhas daquele que tem perfeito conhecimento?

17. Você, que em sua roupa desfalece de calor quando a terra fica amortecida sob o vento sul,

18. pode ajudá-lo a estender os céus, duros como espelho de bronze?

19. "Diga-nos o que devemos dizer a ele; não podemos elaborar a nossa defesa por causa das nossas trevas.

20. Deve-se dizer-lhe o que lhe quero falar? Quem pediria para ser devorado?

21. Ninguém pode olhar para o fulgor do sol nos céus, depois que o vento os clareia.

22. Do norte vem luz dourada; Deus vem em temível majestade.

23. Fora de nosso alcance está o Todo-poderoso, exaltado em poder; mas, em sua justiça e retidão, não oprime ninguém.

24. Por isso os homens o temem; não dá ele atenção a todos os sábios de coração? "

Você está lendo na edição NVI, Nova Versão Internacional, em Português.
Este lívro compôe o Antigo Testamento, tem 42 capítulos, e 1070 versículos.