1. Depois disto, começou a falar, e amaldiçoou o seu dia.

2. E disse:

3. Pereça o dia em que nasci, E a noite que disse: Foi concebido um homem.

4. Converta-se aquele dia em trevas; Não olhe Deus para ele lá de cima, Nem sobre ele resplandeça a luz.

5. Reclamem-no para si as trevas e a sombra da morte; Sobre ele façam as nuvens a sua habitação; Espante-o tudo o que escurece o dia.

6. Aquela noite! dela se apoderem densas trevas; Não se regozije entre os dias do ano; Não entre em o número dos meses.

7. Seja estéril aquela noite, Nela não se ouçam vozes de regozijo.

8. Amaldiçoem-na os que amaldiçoam o dia, E são peritos em suscitar a leviatã.

9. Escureçam-se as estrelas da sua alva; Espere ela a luz, e a luz não venha, E não veja as pálpebras da manhã,

10. Porque não fechou as portas do ventre de minha mãe, Nem escondeu dos meus olhos a aflição.

11. Por que não morri ao sair da madre? Por que não expirei ao deixar as entranhas?

12. Por que me receberam os joelhos? Ou por que os peitos me amamentaram?

13. Pois agora eu estaria deitado e quieto; Eu dormiria e assim teria estado em descanso,

14. Juntamente com os reis e conselheiros da terra, Que edificaram para si mausoléus;

15. Ou como os príncipes que possuíram ouro, Os quais encheram as suas casas de prata:

16. Ou como aborto oculto eu não teria existido, Como infantes que nunca viram a luz.

17. Ali os ímpios cessam de inquietar, E ali descansam os cansados.

18. Ali os encarcerados juntos repousam: Não ouvem a voz do encantador.

19. O pequeno e o grande ali estão, E o servo está livre do seu senhor.

20. Porque se concede luz ao aflito, E vida aos amargurados de alma,

21. Que esperam a morte, sem que ela venha, E cavam em procura dela mais do que de tesouros escondidos;

22. Que se regozijam em extremo, E exultam quando podem achar a sepultura?

23. Ao homem cujo caminho está escondido, E a quem Deus cercou de todos os lados?

24. Como a minha comida vêm os meus suspiros E como águas se derramam os meus gemidos.

25. Pois aquilo que temo me sobrevém, E o de que tenho medo me acontece.

26. Não tenho repouso, nem estou quieto, nem tenho descanso, Mas vem inquietação.

1. Então respondeu Elifaz temanita:

2. Se alguém intentar falar-te, enfadar-te-ás? Mas quem poderá conter as palavras?

3. Eis que tens ensinado a muitos, E tens fortalecido as mãos fracas.

4. As tuas palavras têm sustentado aos que estavam caindo, E tens fortalecido os joelhos trêmulos.

5. Porém agora que se trata de ti, te enfadas: Agora que és atingido, te perturbas.

6. O teu temor de Deus não é a tua confiança, E a tua esperança a integridade dos teus caminhos?

7. Lembra-te, pois, quem, sendo inocente, jamais pereceu? E onde foram os retos exterminados?

8. Conforme tenho visto, os que cultivam iniqüidade, E semeiam aflição, as segam.

9. Pelo assopro de Deus perecem, E pela rajada da sua ira são consumidos.

10. O rugido do leão, e a voz do leão feroz, E os dentes dos leões novos são quebrados.

11. O leão velho perece por falta de presa, E os cachorros da leoa são espalhados.

12. Mas a mim se me disse uma palavra em segredo, E os meus ouvidos perceberam um sussurro dela.

13. No meio dos pensamentos que nascem das visões noturnas, Quando profundo sono cai sobre os homens,

14. Sobrevieram-me medo e tremor, Que fizeram estremecer todos os meus ossos.

15. Então passou um sopro sobre o meu rosto; Arrepiaram-se os cabelos da minha carne.

16. Alguém, cuja aparência eu não podia discernir, parou; Um vulto estava diante dos meus olhos: Houve silêncio, e ouvi uma voz:

17. Pode o mortal ser justo diante de Deus? Pode o varão ser puro diante do seu Criador?

18. Eis que Deus não confia nos seus servos; E aos seus anjos atribui loucura:

19. Quanto mais aos que moram em casas de lodo, Que têm o seu fundamento no pó, E que são machucados como a traça!

20. Nascem de manhã e à tarde são destruídos: Perecem para sempre, sem que disso se faça caso.

21. Se dentro deles é arrancada a corda da tenda, Morrem, e não atingem a sabedoria.

1. Chama agora; há alguém que te responda? A qual dos entes santos te dirigirás?

2. Pois a insubmissão mata o fátuo, E o apaixonamento tira a vida ao parvo.

3. Eu vi o fátuo criando raízes; Mas de repente declarei maldita a sua habitação.

4. Seus filhos estão longe da segurança, São espezinhados na porta, E não há quem os livre.

5. A sua messe é devorada pelo faminto, Que a arrebata até dentre os espinhos, E o laço abre as fauces para a fazenda deles.

6. Pois a iniqüidade não procede do pó, Nem da terra brota a aflição;

7. Mas o homem nasce para a aflição, Tão certamente como as faíscas voam para cima.

8. Porém quanto a mim, eu buscaria a Deus, E a Deus entregaria a minha causa,

9. O qual faz cousas grandes e inescrutáveis, Maravilhas sem número.

10. Ele faz chover sobre a terra, E envia águas sobre os campos,

11. De modo que põe os abatidos num lugar alto; E os que choram são exaltados à segurança,

12. Ele frustra as maquinações dos astutos, De maneira que as suas mãos não possam acabar o seu empreendimento.

13. Ele apanha os sábios na sua astúcia, O conselho dos perversos é precipitado.

14. De dia se acham em trevas, E ao meio dia andam às apalpadelas como de noite.

15. Porém Deus salva da espada que sai da boca deles, Ele salva o necessitado da mão do poderoso.

16. Assim há esperança para o pobre, E a iniqüidade tapa a boca.

17. Eis que feliz é o homem a quem Deus reprova, Portanto não desprezes a correção do Todo-poderoso.

18. Pois ele faz a ferida, e a ata; Ele fere, e as suas mãos curam.

19. Em seis tribulações ele te livrará, E em sete o mal não te tocará.

20. Na fome ele te redimirá da morte, E na guerra do poder da espada.

21. Estará escondido do açoite da língua, E não terás medo da assolação quando chegar.

22. Da assolação e da penúria te rirás, E não terás medo das feras da terra.

23. Pois terás aliança com as pedras do campo, E as feras do campo estarão em paz contigo.

24. Saberás que a tua tenda está em paz, Visitarás o teu rebanho, e nada te faltará.

25. Também saberás que se multiplicará a tua descendência, E a tua posteridade como a erva da terra.

26. Em boa velhice entrarás na sepultura, Como se recolhe a meda de trigo a seu tempo.

27. Eis que isso, nós o temos provado, assim o é; Ouve-o, e conhece-o tu para o teu bem.

1. Então respondeu:

2. Oxalá que de fato se pesasse a minha insubmissão, E juntamente na balança, se pusesse a minha calamidade!

3. Pois agora seria esta mais pesada do que a areia dos mares; Portanto as minhas palavras foram temerárias.

4. Porque as setas do Todo-poderoso estão em mim cravadas, E o meu espírito suga o veneno delas: Os terrores de Deus se arregimentam contra mim.

5. Zurrará o asno montês quando tiver erva? Ou mugirá o boi junto ao seu pasto?

6. Pode comer-se sem sal o que é insípido? Ou há gosto na clara do ovo?

7. Isto! ... a minha alma recusa tocá-lo, É para mim como comida repugnante.

8. Quem dera que se cumprisse o meu rogo, E que Deus me concedesse o que anelo!

9. Que fosse do agrado de Deus esmagar-me, Que estendesse a sua mão, e me exterminasse!

10. Então eu acharia ainda conforto; E exultaria na dor que não poupa; Porque não tenho negado as palavras do Santo.

11. Pois que força é a minha, para que eu espere? Ou qual é o meu fim, para me portar com paciência?

12. É a minha força a força de pedras? Ou é de cobre a minha carne?

13. Não é verdade que não há socorro em mim, E que o ser bem sucedido me é vedado?

14. Ao que está prestes a sucumbir deve o amigo mostrar compaixão, Mesmo ao que abandona o temor do Todo-poderoso.

15. Meus irmãos houveram-se aleivosamente como uma torrente, Como o canal de torrentes que desaparecem;

16. As quais se turvam com o gelo, E nelas se esconde a neve,

17. No tempo em que ficam quentes, desvanecem; Quando vem o calor, se fazem secas.

18. As caravanas que acompanham o seu curso, se desviam; Sobem ao deserto, e perecem,

19. As caravanas de Tema viram, Os viandantes de Seba por elas esperaram.

20. Ficaram desapontados por terem esperado, Chegaram ali e ficaram confundidos.

21. Assim, pois, vos assemelhais à torrente; Vedes em mim um terror, e tendes medo.

22. Acaso disse eu: Dai-me um presente? Ou: Fazei-me uma oferta da vossa fazenda?

23. Ou: Livrai-me da mão do adversário? Ou: Redimi-me do poder dos opressores?

24. Ensinai-me, e eu me calarei, E fazei-me entender em que tenho errado.

25. Quão persuasivas são palavras de justiça! Mas que é o que a vossa argüição reprova?

26. Acaso pensais em reprovardes palavras? Sendo que os ditos do homem desesperado são proferidos ao vento.

27. Até quereis deitar sorte sobre o órfão, E fazer mercadoria do vosso amigo.

28. Agora, pois, tende a bondade de olhar para mim, Porque certamente à vossa face não mentirei.

29. Mudai de parecer, vos peço, não haja injustiça; Sim mudai de parecer, a minha causa é justa.

30. Há injustiça na minha língua? Não pode o meu paladar discernir cousas perniciosas?

1. Não é a sorte do homem sobre a terra a dum soldado? Não são os seus dias como os dum jornaleiro?

2. Como o escravo que suspira pela sombra, E como o jornaleiro que espera pela sua paga;

3. Assim se me fez passar meses de vaidade, E noites trabalhosas me são apontadas.

4. Ao deitar-me, digo: Quando me levantarei? mas comprida é a noite, Estou farto de me revolver até o romper da alva.

5. A minha carne está vestida de vermes e de crostas terrosas; A minha pele solda-se e de novo rebenta.

6. Os meus dias são mais velozes do que a lançadeira do tecelão, E gastam-se sem esperança.

7. Lembra-te de que a minha vida é vento; Os meus olhos não tornarão a ver a felicidade.

8. Os olhos do que me vê, não me contemplarão mais; Os teus olhos estarão sobre mim, porém não serei mais.

9. Assim como a nuvem se desfaz e passa. Assim aquele que desce ao Cheol, não subirá mais.

10. Nunca mais tornará à sua casa, Nem o lugar onde habita o conhecerá jamais.

11. Portanto eu não reprimirei a minha boca, Falarei na angústia do meu espírito, Queixar-me-ei na amargura da minha alma.

12. Sou eu o mar, ou monstro do mar, Para que me ponhas guarda?

13. Dizendo eu: Consolar-me-á o meu leito, A minha cama aliviará a minha queixa;

14. Então me assustas com sonhos, E com visões me atemorizas;

15. De sorte que a minha alma escolhe a sufocação, E a morte antes do que estes meus ossos.

16. Abomino a minha vida; não quero viver para sempre. Deixa-me, pois, porque os meus dias são vaidade.

17. Que é o homem para tu o engrandeceres, E pores nele o teu coração,

18. E o visitares todos os dias, E o experimentares a todo o momento?

19. Até quando não apartará de mim a tua vista, Até quando não me darás tempo de engulir a minha saliva?

20. Se pequei, que é o que te pude fazer, ó vigia dos homens? Por que me puseste como tropeço a ti, De sorte que me tornei pesado a mim mesmo?

21. Por que não perdoas a minha transgressão, E não tiras a minha iniqüidade? Pois agora me deitarei no pó; Tu me buscarás com empenho, porém eu não serei mais.

1. Então respondeu Bildade suíta:

2. Até quando falarás tais cousas? E até quando serão as palavras da tua boca como um vento impetuoso?

3. Perverte Deus o juízo Ou perverte o Todo-poderoso a justiça?

4. Desde que teus filhos pecaram contra ele, Ele os entregou ao poder da sua transgressão.

5. Se tu buscares com empenho a Deus, E fizeres a tua súplica ao Todo-poderoso;

6. Se fores puro e reto, De certo então despertará para te acudir, E fará próspera a habitação da tua justiça.

7. Embora fosse pequeno o teu primeiro estado, Contudo o teu último estado se aumentará em grande maneira.

8. Pois indaga, peço-te, a geração passada, E aplica-te ao que seus pais pesquisaram

9. (Pois nós somos de ontem, e nada sabemos, Porque os nossos dias sobre a terra são uma sombra),

10. Não te ensinarão eles, não te falarão? E do seu coração não proferirão palavras?

11. Pode o papiro desenvolver-se sem lodo? Pode o junco crescer sem água?

12. Quando está verde, e ainda não cortado, Seca-se antes de qualquer outra erva.

13. Assim são as veredas de todos os que se esquecem de Deus; Perecerá a esperança do ímpio,

14. Cuja segurança se despedaça, E a sua confiança é teia de aranha.

15. Encostar-se-á à sua casa, porém ele não subsistirá; Apegar-se-lhe-á, porém, ela não permanecerá.

16. Ele está verde diante do sol, E os sarmentos estendem-se sobre o seu jardim.

17. As suas raízes entrelaçam-se junto à fonte, Ele contempla o lugar de pedras.

18. Se for arrancado do seu lugar, Então este o negará, dizendo: Nunca te vi.

19. Eis a alegria do seu caminho! E da terra brotarão outros.

20. Eis que Deus não rejeitará ao homem sincero, Nem sustentará os malfeitores.

21. Ele ainda te encherá a boca de riso, E os teus lábios de júbilo.

22. Os que te aborrecem, serão vestidos de vergonha; E a tenda dos iníquos não subsistirá.

1. Então respondeu :

2. Na verdade sei que assim é: Mas como pode um homem ser justo para com Deus?

3. Se alguém quisesse contender com ele, De mil cousas não lhe poderia responder nem sequer uma.

4. Sábio é ele de coração, e poderoso em força: Quem se endureceu contra ele, e foi bem sucedido?

5. Ele é quem remove os montes, sem que o saibam, Quando os transtorna na sua ira.

6. Ele move a terra do seu lugar, E as suas colunas estremecem.

7. Ele dá ordens ao sol, e o sol não nasce; E sela as estrelas.

8. Ele sozinho estende os céus, E anda sobre as ondas do mar.

9. Ele faz a Ursa, o Órion e as Plêiadas E as câmaras do Sul.

10. Ele faz grandes cousas inescrutáveis E maravilhas sem número.

11. Eis que ele passa junto a mim, e eu não o vejo; Ele segue o seu caminho, mas eu não o percebo.

12. Eis que toma a presa! quem o pode proibir? Quem lhe dirá: Que é o que fazes?

13. Deus não retirará a sua ira; Debaixo dele curvam-se os que ajudam a Raabe.

14. Quanto menos lhe responderei eu, E escolherei as minhas palavras para discutir com ele?

15. Ainda que eu fosse justo, todavia não lhe responderia; Faria súplicas ao meu adversário.

16. Se eu tivesse chamado, e ele me tivesse respondido; Ainda assim eu não creria que ele me desse ouvidos à minha voz.

17. Pois ele me desfaria com uma tempestade, E multiplicaria as minhas feridas sem causa.

18. Não me permitiria respirar, Mas me encheria de amargura.

19. Se falais da força do poderoso, Eis-me aqui, diz ele. E se do juízo, Quem me citará para comparecer?

20. Ainda que eu seja justo, a minha própria boca me condenará;

21. Embora seja eu sincero, ela me convencerá de perverso. Eu sou sincero; não me estimo a mim mesmo, Desprezo a minha vida.

22. Para mim tudo é o mesmo, portanto digo: Ele destrói o sincero e o iníquo.

23. Se o flagelo mata de repente, Ele zombará do desespero dos inocentes.

24. A terra está entregue nas mãos dos iníquos. Ele cobre os rostos dos juízes dela, Se não é ele, quem é logo?

25. Os meus dias são mais velozes do que um correio; Fogem, e não vêem a felicidade.

26. Eles têm passado como navios de papiro, Como a águia que se lança sobre a presa.

27. Se digo: Esquecer-me-ei da minha queixa, Deixarei o meu ar triste e tomarei alento:

28. Tenho medo de todas as minhas tristezas, Sei que não me terás por inocente.

29. Eu serei condenado; Por que, pois, trabalho eu debalde?

30. Se eu me lavar com a água de neve, E limpar as minhas mãos o mais possível;

31. Todavia me submergirás no fosso, E os meus próprios vestidos me abominarão.

32. Pois ele não é homem, como eu, para eu lhe responder, Para nos encontrarmos em juízo.

33. Não há entre nós um árbitro, Para pôr a sua mão sobre ambos.

34. Tire ele a sua vara de cima de mim, E não me amedronte o seu terror;

35. Então eu falarei, e não o temerei; Pois eu não sou assim em mim mesmo.

1. A minha alma tem tédio à minha vida; Darei livre curso à minha queixa, Falarei na amargura da minha alma.

2. Direi a Deus: Não me condenes, Faze-me saber porque contendes comigo.

3. Porventura tens prazer em oprimir, Em rejeitar a obra das tuas mãos E em favorecer o conselho dos iníquos?

4. Acaso tens tu olhos de carne, Ou vês tu como vê o homem?

5. São os teus dias como os dias do homem, Ou os teus anos como os anos do homem,

6. Para te informares da minha iniqüidade, E averiguares o meu pecado?

7. Sabendo tu que eu não sou iníquo: Não há ninguém que possa livrar da tua mão.

8. As tuas mãos me fizeram e me formaram Todo em roda ... e tu me consomes!

9. Lembra-te, pois, de que como barro me fizeste; E queres reduzir-me a pó?

10. Porventura não me vasaste como leite, E não me coalhaste como queijo?

11. De pele e de carne me vestiste, E de ossos e de nervos me teceste.

12. Vida e misericórdia me tens concedido, E a tua providência tem conservado o meu espírito.

13. Contudo ocultaste estas cousas no teu coração, Sei que isto está no teu espírito.

14. Se eu pecar, tu me observas, E não me absolverás da minha iniqüidade.

15. Se eu for iníquo, ai de mim; Ainda que seja justo, não levantarei a minha cabeça, Estando farto de ignomínia, e de contemplar a minha aflição.

16. Se a minha cabeça se exaltar, tu me caçarás como um leão feroz; E tornarás a mostrar-te em maravilhas contra mim.

17. Renovarás as tuas testemunhas contra mim, E multiplicarás a tua indignação sobre mim, Revezar-se-ão contra mim tropas de males.

18. Por que, pois, me tiraste da madre? Eu tivera expirado e nenhum olho me tivera visto.

19. Eu teria sido como se nunca fora; Da madre teria sido levado para a sepultura.

20. Não são poucos os meus dias? cessa pois, E deixa-me, para que por um pouco eu tome alento.

21. Antes que eu vá para o lugar, de que não voltarei, Para a terra das trevas e da sombra da morte;

22. Terra escuríssima, como a mesma escuridão; Terra da sombra da morte, sem ordem alguma, E onde a própria luz é escuridão.

1. Então respondeu Zofar naamatita:

2. Não se dará resposta à multidão de palavras? Acaso será justificado o falador?

3. Porventura as tuas jactâncias farão calar as gentes? Quando zombares, ninguém te fará envergonhar?

4. Pois dizes: A minha doutrina é pura, E limpo sou aos teus olhos.

5. Porém oxalá que Deus falasse, E abrisse os seus lábios contra ti;

6. E te mostrasse os segredos da sabedoria, Pois complicada é a verdadeira sabedoria. Sabe, portanto, que Deus te remite algo da tua iniqüidade.

7. Poderás descobrir as cousas profundas de Deus? Poderás descobrir perfeitamente o Todo-poderoso?

8. Como as alturas do céu é a sua sabedoria; que poderás fazer? Mais profunda do que o Cheol; que poderás saber?

9. A sua medida é mais comprida do que a terra, E mais larga do que o mar.

10. Se ele passar, prender a alguém E chamar a juízo, quem o poderá proibir?

11. Pois conhece os homens vãos, E vê sem esforço a iniqüidade,

12. Mas um homem vão se tornará sábio, Quando a cria dum asno montês nascer homem.

13. Se tu preparares o teu coração, E estenderes as mãos para ele;

14. Se lançares para longe a iniqüidade da tua mão, E não habitar a iniqüidade nas tuas tendas;

15. Então na verdade levantarás o teu rosto sem mácula; Sim estarás firme, e não temerás;

16. Pois tu te esquecerás da tua miséria; E te lembrarás dela como de águas que passaram.

17. A tua vida será mais clara do que o meio dia; Ainda que haja escuridão, será como a manhã.

18. Estarás firme, porque há esperança; Olharás ao redor de ti, e pousarás seguro.

19. Deitar-te-ás, e ninguém te amedrontará; E muitos procurarão obter o teu favor.

20. Mas os olhos dos iníquos desfalecerão, Não lhes ficará refúgio, E a sua esperança será o render do espírito.

1. Então respondeu :

2. Na verdade vós sois o povo, E a sabedoria morrerá convosco.

3. Mas eu tenho entendimento como vós, Eu não vos sou inferior. Quem não sabe tais cousas como essas?

4. Eu sou como quem se torna o ludibrio do seu vizinho, Eu, homem, que invocava a Deus, e ele me respondia; O homem justo e sincero servindo de ludibrio.

5. No pensamento de quem está seguro há desprezo para a desgraça, Ela está preparada para aquele cujos pés resvalam.

6. As tendas dos salteadores são prósperas, E os que provocam a Deus estão seguros; Tudo lhes põe Deus nas mãos.

7. Mas pergunta agora às bestas da terra, e elas te ensinarão; E às aves do céu, e elas te farão saber.

8. Ou fala com a terra, e ela te ensinará; E os peixes do mar to declararão.

9. Quem não aprendeu de todos estes Que a mão de Jeová faz isto?

10. Na mão dele está a alma de todo o ser vivente, E o espírito de todo o gênero humano.

11. Porventura não provará o ouvido as palavras, Assim como o paladar experimenta a sua comida?

12. Com os velhos está a sabedoria, E na vida dilatada, o entendimento.

13. Com Deus está a sabedoria e a força, Ele tem conselho e entendimento.

14. Eis que derriba, e não se pode reedificar; Lança na prisão, e não se pode abrir.

15. Retém as águas, e elas secam; Solta-as, e elas transtornam a terra.

16. Com ele está a fortaleza e a verdadeira sabedoria, São dele os enganados e os que enganam.

17. Despoja os conselheiros, E faz os juízos tolos.

18. Dissolve a autoridade dos reis, E cinge os lombos deles com um cinto.

19. Despoja os sacerdotes, E abate os poderosos.

20. Emudece os que são dignos da fé, E tira o entendimento aos anciãos.

21. Derrama desprezo sobre os príncipes, E afrouxa o cinto dos fortes.

22. Das trevas revela cousas profundas, E traz à luz a sombra da morte.

23. Multiplica as nações, e fá-las perecer; Dissipa as nações, e as congrega.

24. Tira o entendimento aos príncipes do povo da terra, E fá-los errar num deserto em que não há caminho.

25. Eles apalpam trevas e não luz, E fá-los cambalear como um ébrio.

1. Eis que os meus olhos têm visto tudo isso, Os meus ouvidos o têm ouvido e entendido.

2. Como vós o sabeis, também eu o sei: Eu não vos sou inferior.

3. Mas eu quero falar com o Todo-poderoso, E desejo discutir com Deus.

4. Porém vós sois forjadores de mentiras, Vós todos médicos que não valem nada.

5. Oxalá que calásseis de todo! Isso vos faria passar por sábios.

6. Ouvi, pois, a minha reprovação, E atendei aos argumentos dos meus lábios.

7. Falareis por Deus injustamente, E usareis de engano em nome dele?

8. Sereis parciais por ele? Contendereis a favor de Deus?

9. Estais prontos a que ele vos esquadrinhe? Ou zombareis dele, como quem zomba de um homem?

10. Certamente vos repreenderá, Se em oculto vos deixardes levar de respeitos humanos.

11. Porventura não vos amedrontará a sua majestade, E não cairá sobre vós o seu terror?

12. As vossas máximas são provérbios de cinza, As vossas defezas são defezas de barro.

13. Calai-vos, deixai-me, para que eu fale, E venha sobre mim o que vier.

14. Por sim ou por não tomarei a minha carne nos meus dentes, E porei a minha vida em minha mão.

15. Eis que me matará; não esperarei: Contudo defenderei os meus caminhos diante dele.

16. Nisto conto com a minha salvação: Que um ímpio não se atreve apresentar-se a ele.

17. Ouvi com atenção as minhas palavras, E fique a minha declaração nos vossos ouvidos.

18. Eis que agora pus em ordem a minha causa; Sei que eu serei justificado.

19. Quem há que queira contender comigo? Pois então me calaria e expiraria.

20. Concede-me somente duas cousas, E não me esconderei da tua face:

21. Retira a tua mão de sobre mim, E não me amedronte o teu terror.

22. Então chama tu, e eu responderei; Ou fale eu, e responde-me tu.

23. Quantas iniqüidades e pecados tenho eu? Faze-me saber a minha transgressão e o meu pecado.

24. Por que escondes o teu rosto, E por que me tens por teu inimigo?

25. Acossarás uma folha levada do vento? E perseguirás uma palha seca?

26. Pois prescreves contra mim cousas amargas, E punes as faltas da minha mocidade.

27. Também pões no tronco os meus pés, Observas todas as minhas veredas E traças uma linha ao redor dos meus pés.

28. Embora seja eu como uma cousa podre que se desfaz, Como um vestido que é comido da traça.

1. O homem, nascido da mulher, É de poucos dias e cheio de inquietação.

2. Como flor nasce, e murcha; Como sombra foge, e não permanece.

3. Sobre um tal abres os teus olhos? A mim me fazes entrar em juízo contigo?

4. Oxalá que o puro pudesse sair do imundo! Não é possível.

5. Visto que os seus dias estão contados, o número dos seus meses nas tuas mãos, E lhe tens demarcado limites intransponíveis.

6. Aparta dele o teu rosto, para que descanse, Até que, qual jornaleiro, goze do seu dia.

7. A esperança para a árvore, sendo cortada, é que torne a brotar, E que não cessem os seus renovos.

8. Ainda que a sua raiz envelheça na terra, E o seu tronco morra no pó;

9. Contudo ao cheiro de água brotará, E lançará ramos como uma planta.

10. O homem, porém, morre, e fica prostrado; Expira o homem, e onde está?

11. Como as águas se retiram do mar, E o rio se esgota e seca;

12. Assim o homem se deita, e não se levanta: Enquanto existirem os céus, não acordará, Nem será despertado do seu sono.

13. Quem me dera que me escondesses no Cheol, Que me ocultasses até que a tua ira tenha passado, Que após um tempo determinado, te lembrasses de mim.

14. Se o homem morrer, acaso tornará a viver? Todos os dias da minha milícia esperaria eu, Até que viesse a minha dispensa.

15. Tu chamarias, e eu te responderia; Serias afeiçoado à obra das tuas mãos.

16. Agora, porém, contas os meus passos; Porventura não observas o meu pecado?

17. A minha transgressão está selada num saco, E guardas fechada a minha iniqüidade.

18. Mas o monte que se esboroa, desfaz-se, E a penha se remove do seu lugar;

19. As águas gastam as pedras, As suas inundações arrebatam o pó da terra: Assim fazes perecer a esperança do homem.

20. Prevaleces para sempre contra ele, e ele passa; Mudas o seu rosto e o despedes.

21. Seus filhos recebem honras, e ele não o sabe; São humilhados, mas ele nada percebe a respeito deles.

22. Somente para si mesmo sente dores a sua carne, E para si mesmo lamenta a sua alma.

1. Então respondeu Elifaz temanita:

2. Responderá o sábio com ciência vã, E encherá do vento oriental o seu ventre?

3. Argumentando com palavras que de nada servem, Ou com razões com que ele nada aproveita?

4. Na verdade tu destróis a reverência, E prejudicas o espírito religioso para com Deus.

5. Pois a tua iniqüidade ensina a tua boca, E escolhes a língua dos astutos.

6. A tua própria boca te condena, e não eu; E os teus lábios dão testemunho contra ti.

7. És tu o primeiro homem que nasceu? Ou foste dado à luz antes dos outeiros?

8. Assistes no concílio de Deus? Aproprias para ti a sabedoria?

9. Que sabes tu, que nós não sabemos? E que entendes, que não se acha em nós?

10. Conosco estão os homens encanecidos e idosos, Mais velhos do que teu pai.

11. Porventura fazes pouco caso das consolações de Deus, E da palavra que te trata benignamente?

12. Por que te arrebata o teu coração? Por que flamejam os teus olhos?

13. De modo que voltas o teu espírito contra Deus, E permites sair as palavras da tua boca.

14. Que é o homem, para ser puro? E o que é nascido da mulher, para ser justo?

15. Eis que Deus não confia nos seus santos, E à sua vista os céus não são limpos;

16. Quanto menos o homem abominável e corrompido, Que bebe a iniqüidade como a água?

17. Eu to mostrarei, ouve-me; E te contarei o que tenho visto

18. (O que homens sábios têm anunciado Da parte de seus pais, não o ocultando;

19. A eles somente pertencia o país, Não havendo estrangeiro algum passado por meio deles):

20. O iníquo passa em angústia todos os dias, O número dos anos que são reservados para o opressor.

21. A voz de terrores retine nos seus ouvidos; Na prosperidade lhe sobrevirá o assolador.

22. Não espera escapar das trevas, E a espada o está esperando.

23. Ele anda em busca de pão, dizendo: Onde está? Sabe que o dia das trevas lhe está iminente:

24. O aperto e a angústia o amedrontam; Prevalecem contra ele, como um rei preparado para a batalha,

25. Porque estendeu a sua mão contra Deus, E com soberba se porta contra o Todo-poderoso.

26. Corre contra ele com cerviz dura, Opõe-lhe as saliências do seu escudo,

27. Porque cobriu o rosto com a gordura, E criou carnes grossas sobre as ilhargas.

28. Habitou em cidades assoladas, Em casas que ninguém habitaria E que estavam prestes a cair em ruínas.

29. Não se enriquecerá, nem subsistirá a sua fazenda, Nem as suas colheitas serão abundantes.

30. Não escapará das trevas; A chama secará os seus ramos, E pelo assopro da boca de Deus desaparecerá.

31. Não confie na vaidade, enganando-se a si mesmo; Pois a vaidade será a sua recompensa.

32. Ela lhe chegará antes do termo dos teus dias, E o seu ramo não reverdecerá.

33. Sacudirá as suas uvas verdes como a vide, E deixará cair a sua flor como a oliveira;

34. Pois a companhia dos ímpios será estéril, E o fogo consumirá as tendas de suborno.

35. Eles concebem a malícia, dão à luz a iniqüidade, E o seu ventre prepara enganos.

1. Então respondeu :

2. Tenho ouvido muitas cousas como estas, Todos vós sois consoladores enfadonhos,

3. Não se acabarão nunca essas palavras de vento? Ou que é o que te provoca a dar respostas?

4. Eu também poderia falar como vós falais; Se a vossa alma estivesse no lugar da minha, Eu poderia amontoar palavras contra vós, E contra vós menear a minha cabeça.

5. Poderia fortalecer-vos com a minha boca, E a condolência dos meus lábios poderia mitigar a vossa dor.

6. Ainda que eu fale, não se mitiga a minha dor; E embora me cale, de que sou aliviado?

7. Mas agora me deixou ele exausto; Assolaste toda a minha companhia.

8. Puseste a mão sobre mim, e isto constitui uma testemunha contra mim; E a minha magreza levanta-se contra mim, dá testemunho na minha cara.

9. Na sua ira me despedaçou e me perseguiu, Rangeu os dentes contra mim, O meu adversário aguça os olhos contra mim;

10. Abrem contra mim a boca, Com desprezo me ferem no queixo: À uma se ajuntam contra mim.

11. Deus entrega-me aos ímpios, E lança-me na mão dos iníquos.

12. Descansado estava eu, e ele me quebrantou; Tomou-me pelo pescoço, e despedaçou-me: Pôs-me por seu alvo.

13. Cercam-me as suas flechas, Atravessa-me os rins, e não me poupa; Derrama o meu fel sobre a terra.

14. Faz-me brecha sobre brecha, Arremete sobre mim como um guerreiro.

15. Sobre a minha pele cosi saco, E no pó deitei a minha cabeça.

16. O meu rosto está inflamado de chorar, E sobre as minhas pálpebras está a sombra da morte;

17. Embora não haja violência nas minhas mãos, E seja pura a minha oração.

18. Ó terra, não cubras o meu sangue, E não haja lugar em que se oculte o meu clamor.

19. Agora mesmo a minha testemunha está no céu, E nas alturas quem advoga a minha causa.

20. Os meus amigos são os que zombam de mim; Mas os meus olhos derramam lágrimas perante Deus,

21. Para que ele defenda o direito que o homem tem diante de Deus, E o que o filho do homem tem perante o seu próximo.

22. Pois quando houver passado poucos anos, Seguirei o caminho donde não voltarei.

1. O meu espírito se esvai, os meus dias se extinguem, A sepultura me está preparada.

2. Estou de fato cercado de mofadores, E os meus olhos são obrigados a contemplar a sua provocação.

3. Dá-me, pois, um penhor, sê o meu fiador para contigo mesmo: Quem mais há que me possa dar a mão?

4. Apartaste dos seus corações o entendimento, Portanto não os exaltarás.

5. Quem entrega os amigos como presa, Os olhos de seus filhos desfalecerão.

6. Ele me fez também o provérbio dos povos, Tornei-me como aquele em cujo rosto se cospe.

7. Também se escurecem de mágoa os meus olhos, E todos os meus membros são como uma sombra.

8. Os retos pasmarão disto, E o inocente se levantará contra o ímpio.

9. Contudo o justo prosseguirá no seu caminho, E o que tem mãos puras irá crescendo mais e mais em forças.

10. Mas tornai à carga todos vós, e vinde; Não acharei entre vós um só que seja sábio.

11. Passados são os meus dias, Desfeitos os meus propósitos: Os pensamentos do meu coração.

12. Trocam a noite em dia; A luz, dizem, está perto das trevas.

13. Se eu esperar a Cheol como minha casa, Se estender o meu leito nas trevas,

14. Se disser à cova: Tu és meu pai; Aos vermes: Vós sois minha mãe, e minha irmã.

15. Onde está logo a minha esperança? Quanto à minha esperança, quem a poderá ver?

16. Ela descerá às grades do Cheol, Quando formos juntos descansar no pó.

1. Então respondeu Bildade suíta:

2. Até quando andareis à caça de palavras? Entendei, e depois falaremos.

3. Por que somos reputados por animais, E feitos imundos aos vossos olhos?

4. Tu que te despedaças na tua ira, Acaso por amor de ti será abandonada a terra? Ou será a penha removida do seu lugar?

5. Na verdade a luz do iníquo se apagará, E não resplandecerá a chama do seu fogo.

6. A luz se obscurecerá na sua tenda, E a lâmpada que está por cima dele se apagará.

7. Estreitar-se-ão os passos do seu poder, E o seu conselho o derribará.

8. Pois pelos seus próprios pés é lançado na rede, E anda sobre as malhas.

9. O alçapé o apanha pelo calcanhar, E o laço o prende.

10. A corda está-lhe escondida na terra, E a armadilha na vereda.

11. De todos os lados o amedrontam terrores, E de perto perseguem-lhe os pés.

12. O seu vigor será consumido pela fome, E a calamidade estará pronta ao seu lado.

13. Serão devorados os membros do seu corpo; O primogênito da morte devorará os seus membros.

14. Será arrancado da sua tenda em que confia, Será levado ao rei dos terrores.

15. Na sua tenda habitarão os que não lhe pertencem, Espalhar-se-á enxofre sobre a sua habitação.

16. Por baixo as suas raízes secarão, E por cima murcharão os seus ramos.

17. A sua memória perecerá do país, E o seu nome não ficará sobre a face da terra.

18. Será lançado da luz para as trevas, E afugentado do mundo.

19. Não terá nem filho nem neto entre o seu povo, Nem alguém que fique onde ele peregrinava.

20. Os do ocidente pasmam do dia dele, Assim como se espantam os do oriente.

21. Na verdade tais são as moradas do ímpio, E este é o paradeiro daquele que não conhece a Deus.

1. Então respondeu :

2. Até quando afligireis a minha alma, E me despedaçareis com palavras?

3. Já são dez vezes que me haveis vituperado: Não vos envergonhais de me oprimir?

4. Embora tenha eu de fato errado, O meu erro fica comigo.

5. Se vos engrandecerdes na verdade contra mim, E me incriminardes pelo meu opróbrio;

6. Sabei que Deus não me fez justiça, E me cercou com a sua rede.

7. Eis que clamo: Violência! porém não sou ouvido; Peço socorro, porém não há justiça.

8. Com muros fechou ele o meu caminho, de modo que não posso passar, E pôs trevas nas minhas veredas.

9. Despojou-me da minha glória, E tirou-me da cabeça a coroa.

10. De todos os lados me derrui, e eu me vou, E a minha esperança arranca-a como uma árvore.

11. Acende também a sua ira contra mim, E sou tido por ele como um dos seus adversários.

12. Avançam-se as suas tropas juntas, Levantam um caminho alto contra mim, E acampam-se ao redor da minha tenda.

13. Ele pôs longe de mim a meus irmãos, E os que me conhecem são de todo alienados de mim.

14. Meus parentes faltaram, E os meus conhecidos esqueceram-se de mim.

15. Os que moram em minha casa, e as minhas servas, me têm por estranho: Sou estrangeiro aos seus olhos.

16. Chamo ao meu servo, e ele não me responde: Tenho que suplicar-lhe com a minha boca.

17. O meu bafo é intolerável à minha mulher, Sou repugnante aos filhos de minha mãe.

18. Até os pequeninos me desprezam; Tentando levantar-me, falam de mim.

19. Todos os meus amigos íntimos me abominam, E os que eu amava me voltam as costas.

20. Os meus ossos apegam-se à minha pele e à minha carne, E escapei-me com a pele dos meus dentes.

21. Compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim, amigos meus; Pois a mão de Deus me tocou.

22. Por que me perseguis como Deus, E não cessais de devorar a minha carne?

23. Oxalá que as minhas palavras fossem agora escritas! Oxalá que fossem inscritas num livro!

24. Que com uma pena de ferro, e com chumbo, Fossem para sempre gravadas na rocha!

25. Sei porém que o meu redentor vive, E o que vem depois de mim, se levantará em pé sobre o pó;

26. E depois de destruída esta minha pele, Mesmo fora da minha carne verei a Deus:

27. Vê-lo-ei ao meu lado, E os meus olhos o contemplarão, não mais como adversário: Eis que os meus rins desfalecem dentro em mim.

28. Se disserdes: Como o havemos de perseguir! E que a causa deste mal se acha em mim,

29. Temei a espada: Terríveis são os castigos dela, Para que saibais que há juízo.

1. Então respondeu Zofar naamatita:

2. Os meus pensamentos forçam-me a responder, Sinto-me agitado no meu íntimo.

3. Ouvi repreensões que me envergonham, Mas no meu entendimento responde-me o meu espírito.

4. Não sabes isto desde tempos remotos, Desde que o homem foi posto sobre a terra,

5. Que é breve o triunfo dos iníquos, E que é de um momento a alegria do ímpio?

6. Ainda que a sua exaltação se remonte aos céus, E a sua cabeça chegue até as nuvens;

7. Contudo perecerá para sempre como o seu esterco. Os que o viam, perguntarão: Onde está?

8. Voará como um sonho, e não será achado; Será afugentado como uma visão noturna.

9. Os olhos que me viram não me virão mais: Nem o seu lugar o contemplará mais.

10. Seus filhos procurarão o favor dos pobres, E as suas mãos restituirão os bens que roubou.

11. Os seus ossos são cheios de mocidade, Esta, porém, se deitará com ele no pó.

12. Embora a maldade lhe seja doce na boca, Embora ele a esconda debaixo da sua língua;

13. Embora a poupe, e não a queira largar, Mas a guarde ainda dentro da sua boca;

14. Contudo nas suas entranhas a comida é transformada, Dentro dele se torna em fel de áspides.

15. Enguliu riquezas, e vomitá-las-á; Do ventre dele as lançará Deus.

16. Chupará o veneno dos áspides, A língua da víbora o matará.

17. Não olhará para os rios, Ribeiros e torrentes de mel e de manteiga.

18. O que adquiriu, isso restituirá, e não o engulirá; Não terá gozo proporcional à fazenda que ajuntou.

19. Pois oprimiu e desamparou os pobres, A casa de que se apoderou por violência não prosperará.

20. Por não haver limites na sua cobiça, Nada salvará daquilo em que se deleita.

21. Nada escapou a sua voracidade, Portanto a sua prosperidade não perdurará.

22. Na plenitude da sua abundância ver-se-á apertado; Virá sobre ele a mão de todo o que está na miséria.

23. Estando ele para encher a sua barriga, Deus enviará sobre ele o furor da sua ira, Que fará cair sobre ele quando estiver comendo.

24. Se fugir da arma de ferro, O arco de cobre o traspassará.

25. Ele tira do seu corpo a flecha, Que vem resplandecendo do seu fel; Terrores se apoderam dele.

26. Todas as trevas são reservadas para os seus tesouros: Devorá-lo-á um fogo não assoprado por homem, Que consumirá o que for deixado na sua tenda.

27. Os céus revelarão a sua iniqüidade, E a terra se levantará contra ele.

28. As rendas da sua casa ir-se-ão, Os seus bens se desfarão no dia da ira de Deus.

29. Esta é a porção que Deus dará ao iníquo, E a herança que por Deus lhe é decretada.

1. Então respondeu :

2. Ouvi atentamente as minhas palavras; Seja isso a consolação que me quereis dar.

3. Permiti-me que eu também fale; E havendo eu falado, zombai.

4. É porventura do homem que eu me queixo? Não tenho motivo de me impacientar?

5. Olhai para mim e pasmai, E ponde a mão sobre a vossa boca.

6. Mesmo de pensar nisto, me perturbo, E o horror apodera-se da minha carne;

7. Por que vivem os iníquos, Se envelhecem, e se robustecem em poder?

8. Seus filhos estabelecem-se com eles à sua vista, E os seus descendentes diante dos seus olhos.

9. As suas casas estão livres de medo, E a vara de Deus não cai sobre eles.

10. O seu touro gera, e não falha; Pare a sua vaca, e não aborta.

11. Fazem sair a seus filhos como um rebanho, E os seus pequenos saltam e brincam.

12. Cantam ao som do tamboril e da harpa, E regozijam-se ao som da flauta.

13. Passam os seus dias em prosperidade, E num momento descem a Cheol.

14. Contudo disseram a Deus: Retira-te de nós; Pois não desejamos conhecer os teus caminhos.

15. Que é o Todo-poderoso, para que o sirvamos? Que nos aproveitará, se lhe dirigirmos orações?

16. Eis que não está nas mãos deles a sua prosperidade; Longe de mim o conselho dos iníquos!

17. Quantas vezes sucede que se apaga a lâmpada dos iníquos? Que lhes sobrevém a calamidade? Que Deus na sua ira lhes distribui dores?

18. Que eles são como a palha diante do vento, E como a pragana que a tempestade leva?

19. Deus, dizeis vós, reserva a iniqüidade do pai para seus filhos, Mas é a ele mesmo que Deus deveria punir, para que o sinta.

20. Vejam os seus próprios olhos a sua destruição, E beba ele do furor do Todo-poderoso.

21. Pois que se lhe dá a ele da sua casa depois de morto, Quando lhe for cortado o número dos seus meses?

22. Acaso a Deus ensinará alguém ciência, Desde que é ele quem julga os que são elevados?

23. Um morre em seu pleno vigor, Inteiramente sossegado e tranqüilo;

24. Com os seus baldes cheios de leite, E a medula dos seus ossos umedecida;

25. Outro, porém, morre em amargura de alma, E nunca prova o bem;

26. Dormem juntamente no pó, Cobrem-nos os vermes.

27. Eis que conheço os vossos pensamentos, E os desígnios que injustamente imaginais contra mim.

28. Pois dizeis: Onde está a casa do príncipe? Onde está a tenda em que moravam os iníquos?

29. Porventura não tendes interrogado aos viandantes? E desconheceis os fatos da sua experiência:

30. Que os homens maus são poupados no dia da calamidade, Que são protegidos no dia do furor?

31. Quem lhe lançará no rosto o seu caminho? Quem lhe dará o pago do que fez?

32. Contudo ele é levado para a sepultura, E vigiam-lhe o túmulo.

33. Os torrões do vale lhe são leves, E todos os homens o imitarão, Como ele o fez aos inumeráveis predecessores.

34. Como, pois, me ofereceis consolações vãs, Visto que das vossas respostas só resta a falsidade?

1. Então respondeu Elifaz temanita:

2. Pode o homem ser de proveito a Deus? Não, o sábio é só útil a si mesmo.

3. De que serve ao Todo-poderoso que sejas justo? Ou que lucro tem ele, se fizeres perfeitos os teus caminhos?

4. É por causa da tua reverência que te reprova, Que entra contigo em juízo?

5. Não é grande a tua maldade, E infinitas as tuas iniqüidades?

6. Pois sem causa tomaste penhores a teu irmão, E despojaste dos seus vestidos os nus.

7. Não deste de beber ao cansado, E negaste pão ao faminto.

8. Mas ao homem forte pertencia a terra; E o homem acatado nela habitava.

9. Despediste vazias as viúvas, E os braços dos orfãos foram quebrados.

10. Portanto estás cercado de laços, E um repentino pavor te conturba.

11. Não vês tu as trevas E a inundação de águas que te cobre?

12. Não está Deus nas alturas do céu? E olha a altura das estrelas, quão grande é!

13. E dizes: Pois que sabe Deus? Pode ele julgar através das densas trevas?

14. Grossas nuvens o encobrem, de modo que não pode ver; Só passeia pela abóbada do céu.

15. Queres seguir a rota antiga, Que os homens iníquos pisaram?

16. Estes iníquos foram arrebatados antes de tempo, E os seus alicerces foram derramados como um dilúvio.

17. Eles diziam a Deus: Retira-te de nós, E: Que nos pode fazer o Todo-poderoso?

18. Contudo Deus encheu as suas casas de bens: Longe de mim os conselhos dos iníquos.

19. Os justos o vêem, e se alegram; Os inocentes riem-se deles,

20. Dizendo: Na verdade são exterminados os que se levantaram contra nós, E o fogo consumiu o que deixaram.

21. Apega-te, pois, a Deus, e tem paz; E assim te sobrevirá o bem.

22. Recebe, peço-te, da sua boca a lei, E põe as suas palavras no teu coração.

23. Se voltares para o Todo-poderoso, serás restabelecido; Se lançares a injustiça longe das tuas tendas,

24. E deitares o teu tesouro no pó, E o ouro de Ofir entre as pedras do ribeiro;

25. Então o Todo-poderoso será o teu tesouro, E a tua prata abundantíssima.

26. Pois então te deleitarás no Todo-poderoso, E levantarás o teu rosto a Deus.

27. Tu lhe orarás, e ele te ouvirá; E pagarás os teus votos.

28. Farás decretos que serão bem sucedidos, E a luz brilhará em teus caminhos.

29. Quando os homens te abaterem, dirás: Levantamento! E ele salvará ao humilde.

30. Livrará até aquele que não é inocente, Que deverá a sua salvação à pureza das tuas mãos.

1. Então respondeu :

2. Ainda hoje a minha queixa é uma revolta, Embora a minha mão reprima o meu gemido.

3. Quem me dera que soubesse onde o encontrasse, Para que eu chegasse até a sua habitação!

4. Exporia ante ele a minha causa, E encheria a minha boca de argumentos.

5. Saberia as palavras que ele me respondesse, E entenderia a que ele me dissesse.

6. Porventura oporia contra mim a grandeza do seu poder? Não; mas ele me prestaria atenção.

7. Nesse caso um reto estaria pleiteando com ele; Assim para sempre ficaria livre do meu juiz.

8. Eis que eu vou para adiante, mas ele lá não está; E para trás, porém não o posso perceber:

9. Para a esquerda, quando ele opera, porém não o posso contemplar; Ele se esconde à direita, de modo que não o posso ver.

10. Mas ele sabe o caminho por que ando; Se ele me provasse, sairia eu como ouro.

11. O meu pé seguiu de perto as suas pisadas; Guardei o meu caminho, e não me desviei.

12. Do mandamento dos seus lábios não me apartei, Escondi no meu seio as palavras da sua boca.

13. Porém ele está resolvido, quem pode desviá-lo? E o que desejar a sua alma, isso mesmo faz.

14. Pois ele cumprirá o que está ordenado para mim, E dele ainda vêm muitas cousas como estas.

15. Portanto estou perturbado na sua presença; Quando considero, tenho medo dele.

16. É Deus quem me fez desmaiar o coração, E o Todo-poderoso que me perturbou.

17. Porque não estou desfalecido por causa das trevas, Nem porque a escuridão cobre o meu rosto.

1. Por que o Todo-poderoso não designa tempos? E por que os que o conhecem, não vêem os dias designados?

2. Há os que removem os limites, Roubam os rebanhos e os apascentam.

3. Levam o jumento do órfão, Tomam em penhor o boi da viúva.

4. Desviam do caminho aos necessitados; Os pobres da terra juntos se escondem.

5. Como asnos monteses no deserto, Saem eles ao trabalho, procurando diligentemente a comida: O ermo fornece-lhes sustento para seus filhos.

6. No campo cortam o seu pasto, E rabiscam na vinha do iníquo.

7. Passam a noite toda nus, sem roupa, E não têm com que se cobrir no frio.

8. São molhados pelas chuvas dos montes, E na falta dum abrigo achegam-se a um rochedo.

9. Há os que arrancam do peito o órfão, E tomam em penhor a roupa dos pobres,

10. De modo que estes andam nus, sem roupa, E famintos carregam os molhos.

11. Espremem azeite dentro das casas daqueles homens; Pisam nos lagares deles, e padecem sede,

12. Da cidade levantam-se os gemidos moribundos, E clama a alma dos feridos: Contudo Deus não o tem por loucura.

13. Estes são aqueles que se rebelam contra a luz; Não conhecem os caminhos dela, Nem permanecem nas suas veredas.

14. O homicida levanta-se ao romper da alva, Mata ao pobre e ao necessitado, E de noite torna-se ladrão.

15. Também os olhos do adúltero aguardam o crepúsculo, Dizendo: Ninguém me verá: E disfarça o seu rosto.

16. De noite minam as casas, De dia se conservam encerrados: Não conhecem a luz.

17. Pois a manhã é para todos eles como a sombra da morte, Porque dela conhecem os pavores.

18. Passa rápido como o que é levado na superfície das águas; Maldita é a porção dos tais na terra; Não anda mais pelo caminho das vinhas.

19. A sequidão e o calor desfazem as águas de neve, Assim faz o Cheol aos que pecaram.

20. A madre se esquecerá dele, Dele se banquetearão os vermes, Não será mais lembrado: Como árvore será quebrado o injusto.

21. Aquele que devora o estéril que não tem filhos, E não faz o bem à viúva.

22. Não! pela sua força Deus prolonga os dias dos valentes: Ei-los de pé, quando desesperavam da vida.

23. Ele lhes concede estar em segurança, e nisso se estribam, E os seus olhos estão sobre os caminhos deles.

24. São exaltados, mas em breve tempo se vão; São abatidos, colhidos como todos os mais, São cortados como as espigas do trigo.

25. Se não é assim, quem me desmentirá, E reduzirá a nada as minhas palavras?

1. Então respondeu Bildade suíta:

2. A Deus pertence o domínio e o poder, Ele faz reinar a paz nas regiões celestes.

3. Acaso têm número as suas tropas? E sobre quem não surge a sua luz?

4. Como, pois, pode o homem ser justo diante de Deus? Ou como pode ser puro aquele que nasce de mulher?

5. Eis que até a lua não tem brilho, E as estrelas não são puras aos olhos dele;

6. Quanto menos o que é verme! É o filho do homem que é vermezinho!

1. Então respondeu :

2. Como sabes ajudar ao que não tem poder! Como prestar socorro ao braço que não tem força!

3. Que bons conselhos dás ao que não tem sabedoria, E em quão grande cópia revelas o verdadeiro conhecimento!

4. A quem diriges palavras? E de quem é o espírito que fala em ti?

5. Tremem debaixo das águas Os manes e os que ali habitam.

6. O Cheol está nu diante dele, E Abadom não tem o que lhe cubra.

7. Ele estende o norte sobre o vácuo, E suspende a terra sobre o nada.

8. Encerra as águas nas suas nuvens grossas, E com elas não se rasga a nuvem.

9. Encobre a face do seu trono, E sobre ele estende a sua nuvem.

10. Descreve um limite circular sobre a superfície das águas, Onde a luz e as trevas se confinam.

11. As colunas do céu tremem E se espantam das suas ameaças.

12. Com o seu poder agita o mar, E pelo seu entendimento traspassa a Raabe.

13. Pelo seu sopro os céus são embelezados, A sua mão fere a serpente veloz.

14. Eis que estas cousas são somente as bordas dos seus caminhos; Quão pequeno é o sussurro que dele ouvimos! Porém o trovão dos seus grandes feitos, quem o poderá entender?

1. De novo prosseguiu o seu discurso e disse:

2. Pela vida de Deus, que me tirou o direito, E do Todo-poderoso, que me amargurou a alma

3. (Pois ainda está em mim a minha vida, E o sopro de Deus no meu nariz);

4. Os meus lábios não falam a injustiça, Nem a minha língua profere o engano.

5. Não permita Deus que eu vos dê razão: Até que eu morra, não apartarei de mim a minha integridade.

6. À minha justiça me apegarei, e não a largarei; Não reprova o meu coração dia algum da minha vida.

7. Seja como iníquo o meu inimigo, E como injusto aquele que se levanta contra mim.

8. Pois qual é a esperança do ímpio quando Deus o corta, Quando lhe arrebata a alma?

9. Acaso ouvirá Deus o clamor, Quando lhe sobrevier a tribulação?

10. Deleitar-se-á no Todo-poderoso, E invocará a Deus em todo o tempo?

11. Ensinar-vos-ei acerca das obras de Deus, E não ocultarei a mente do Todo-poderoso.

12. Eis que todos vós o conheceis. Por que, pois, vos entregais a juízos falsos?

13. Esta é a porção do iníquo da parte de Deus, E a herança que os opressores recebem do Todo-poderoso.

14. Se seus filhos se multiplicarem, multiplicam-se para a espada; A sua prole não se fartará de pão.

15. Os que ficarem deles, na peste serão sepultados, E as suas viúvas não chorarão.

16. Embora amontoe ele prata como pó, E aparelhe vestidos como barro;

17. Ele pode aparelhá-los, mas o justo os vestirá, E o inocente repartirá a prata.

18. Edifica a sua casa como a traça, E como a choça que o vigia faz.

19. Deita-se rico, porém não será recolhido à sepultura; Abre os seus olhos, e já não é.

20. Pavores o alcançam como águas, De noite o arrebata a tempestade.

21. O vento oriental leva-o, e ele se vai, E varre-o do seu lugar.

22. Pois Deus atirará contra ele, e não o poupará a ele Que quer fugir da sua mão a toda a pressa.

23. Os homens baterão palmas à sua queda, E o afugentarão com assobios.

1. Pois a prata tem as suas minas, E o ouro que se refina, o seu lugar.

2. O ferro tira-se da terra, E da pedra se funde o cobre.

3. O homem põe termo às trevas E até os últimos confins ele explora As pedras ocultas na escuridão e na sombra da morte.

4. Abre um poço muito por baixo da habitação humana; São esquecidos dos que andam em cima; Longe dos homens ficam pendentes, e oscilam de um para o outro lado.

5. Quanto à terra, dela procede o pão: E por baixo está revolta como pelo fogo.

6. As suas pedras são o lugar de safiras, Onde se acham também grãos de ouro.

7. Vereda é essa que a ave de rapina ignora, E que o olho do milhafre jamais viu:

8. As altivas bestas feras não a pisam, Nem por ela passa o leão feroz.

9. Estende a sua mão contra a pederneira, Transtorna os montes desde as suas raízes.

10. Corta galerias nas pedras, E os seus olhos vêem tudo o que há de precioso.

11. Tapa os veios de água para que não gotejem, E traz à luz o que está escondido.

12. Mas onde se achará a sabedoria? E onde está o lugar do entendimento?

13. O homem não conhece o preço dela, Nem se acha ela na terra dos viventes.

14. O abismo diz: Ela não está em mim; E o mar diz: Ela não está comigo.

15. Ela não se poderá obter por ouro fino, Nem se passará prata em câmbio dela.

16. O seu valor não poderá ser determinado pelo ouro de Ofir, Nem pelo precioso ônix, nem pela safira.

17. Não se lhe poderá igualar o ouro ou o vidro; Nem se darão em troco dela vasos de ouro fino.

18. Não se fará menção de coral nem de cristal: Na verdade a sabedoria vale mais que as pérolas.

19. Não se lhe igualará o topázio da Etiópia, Nem será o seu valor determinado pelo ouro puro.

20. Donde, pois, vem a sabedoria? Onde está o lugar do entendimento,

21. Visto que está escondida aos olhos de todos os viventes, E oculta às aves do céu?

22. A Perdição e a Morte dizem: Com os nossos ouvidos ouvimos um rumor dela.

23. Deus é quem entende o seu caminho, E é ele quem sabe o lugar dela.

24. Pois ele perscruta até as extremidades da terra, E vê tudo o que há debaixo do céu.

25. Quando regulou o peso do vento, E fixou a medida das águas:

26. Quando decretou leis para a chuva, E caminho para o relâmpago do trovão;

27. Então viu a sabedoria e a manifestou, Estabeleceu-a, esquadrinhou-a mesmo.

28. E disse ao homem: Eis que o temor do Senhor é a sabedoria; E o apartar-se do mal é o entendimento.

1. De novo prosseguiu no seu discurso e disse:

2. Quem me dera ser como fui nos meses antigos, Como nos dias em que Deus me guardava;

3. Quando a sua lâmpada luzia sobre a minha cabeça; E quando eu, guiado pela sua luz, caminhava através das trevas;

4. Como fui nos dias do meu vigor, Quando a amizade de Deus estava sobre a minha tenda;

5. Quando o Todo-poderoso estava comigo, E meus filhos me rodeavam;

6. Quando meus passos eram banhados em manteiga, E quando a pedra derramava para mim rios de azeite.

7. Quando eu saía para ir à porta da cidade, E mandava preparar-me um assento na praça.

8. Viam-me os mancebos e escondiam-se, E os velhos levantavam-se e punham-se em pé;

9. Os príncipes cessavam de falar, E punham a mão sobre a sua boca;

10. A voz dos nobres emudecia, E a sua língua apegava-se ao seu paladar.

11. Pois o ouvido que me ouvia, chamava-me bem-aventurado; E o olho que me via, dava testemunho de mim,

12. Porque eu livrava ao pobre que gritava, E ao órfão que não tinha quem o socorresse.

13. A bênção do que estava a perecer vinha sobre mim, E eu fazia que o coração da viúva cantasse de alegria.

14. Vestia-me da retidão, e ela se vestia de mim; A minha justiça era como um manto e como um diadema.

15. Fazia-me olhos para o cego, E pés para o coxo.

16. Eu era o pai dos necessitados, E examinava a causa dos desconhecidos.

17. Eu quebrava os queixos do iníquo, E arrancava-lhe a presa dentre os dentes.

18. Então dizia eu: Morrerei no meu ninho, Multiplicarei os meus dias como a areia.

19. A minha raiz se estenderá até as águas, E o orvalho ficará a noite toda sobre os meus ramos;

20. A minha glória se renovará em mim, E o meu arco será revigorado na minha mão.

21. A mim me ouviam e esperavam, E guardavam silêncio para receberem o meu conselho.

22. Depois de falar eu, nada replicavam; As minhas razões caíam sobre eles como orvalho.

23. Esperavam-me como a chuva, E abriam a sua boca como as chuvas tardias.

24. Eu me sorria para eles quando não tinham confiança; E a luz do meu rosto, não a podiam abater.

25. Eu lhes escolhia o caminho, e me sentava como chefe, E estava como um rei entre as tropas, Como quem consola os aflitos.

1. Agora, porém, zombam de mim os de menos idade, Cujos pais desdenhei de pôr com os cães do meu rebanho.

2. Pois de que me aproveitaria a força das mãos deles? Homens nos quais já pereceu o vigor.

3. De míngua e fome estão emagrecidos; Roem o deserto, desde muito em ruínas e desolado.

4. Apanham malvas junto aos arbustos, E as raízes da giesta são o seu mantimento.

5. São expulsos do meio dos homens, Grita-se atrás deles como atrás dum gatuno.

6. Têm que habitar nos desfiladeiros sombrios, Nas covas da terra e dos penhascos.

7. Zurram entre os arbustos, Estendem-se debaixo das ortigas,

8. São filhos de insensatos, filhos de gente infame; Foram enxotados para fora do país.

9. Agora vim a ser a sua canção, E lhes sirvo de provérbio.

10. Eles me abominam, ficam longe de mim, E não hesitam em me cuspir no rosto.

11. Pois Deus afrouxou a sua corda, e me afligiu, Eles também expeliram de si o freio diante de mim.

12. À minha direita levanta-se gente vil, Empurram os seus pés, E contra mim erigem o seu caminho de destruição.

13. Estragam a minha vereda, Promovem a minha calamidade, Uns homens esses a quem ninguém ajudaria.

14. Como por uma larga brecha entram, Ao meio das ruínas precipitam-se.

15. Terrores me assediam, A minha honra é levada como pelo vento; Como nuvem passou a minha prosperidade.

16. Agora dentro de mim se derrama a minha alma; Apoderam-se de mim dias de aflição.

17. À noite os ossos se me traspassam e caem, E as dores que me devoram não descansam.

18. Pela grande violência do mal está desfigurado o meu vestido: Ele se cola ao meu corpo como o cabeção da minha túnica.

19. Deus lançou-me na lama, E tornei-me como pó e cinza.

20. Clamo a ti, e não me respondes; Ponho-me em pé, e olhas para mim.

21. Tornas-te cruel para comigo, Com a força da tua mão me persegues.

22. Levantas-me ao vento, fazes-me cavalgar sobre ele; Dissolves-me na tempestade.

23. Pois sei que me levarás à morte, E à casa de reunião estabelecida para todo o vivente.

24. Contudo não estende a mão quem vai cair? Ou ao ser ele destruído não dá gritos?

25. Porventura não chorava eu sobre o que estava angustiado? Não se afligia a minha alma pelo necessitado?

26. Esperando eu o bem, veio-me o mal; E esperando a luz, veio a escuridão.

27. As minhas entranhas fervem e não descansam; Dias de aflição me sobrevieram.

28. Denegrido ando, porém não do sol: Levanto-me na assembléia, e clamo por socorro.

29. Sou irmão dos chacais, E companheiro de avestruzes.

30. A minha pele enegrece, e se me cai, E os meus ossos estão queimados do calor.

31. Por isso se trocou a minha harpa em pranto, E a minha flauta na voz dos que choram.

1. Fiz aliança com os meus olhos; Como, pois, haveria eu de olhar para uma donzela?

2. Pois que porção teria eu do Deus lá de cima, E que herança do Todo-poderoso lá do alto?

3. Acaso não há calamidade para o injusto, E desastre para os que obram a iniqüidade?

4. Porventura não vê ele todos os meus caminhos, E conta todos os meus passos?

5. Se eu tenho andado na companhia de falsidade; E o meu pé se tem apressado após o engano;

6. (Seja eu pesado em balança fiel, Para que Deus conheça a minha integridade);

7. Se os meus passos se têm desviado do caminho, E o meu coração tem seguido os meus olhos, E se qualquer mancha se tem pegado às minhas mãos;

8. Então que eu semeie, e outro coma; Seja arrancado o que produz o meu campo.

9. Se o meu coração se tem deixado seduzir por causa duma mulher, E tenho armado traição à porta do meu próximo;

10. Então moa minha mulher para outro, E sobre ela encurvem-se outros.

11. Pois isso seria um crime infame; Isso seria uma iniqüidade que deveria ser punida pelos juízes:

12. Pois é fogo que consome até a destruição, E desarreigaria toda a minha renda.

13. Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, Quando eles pleitearam comigo:

14. Que, pois, farei, quando Deus se levantar? E quando ele me visitar, que lhe responderei?

15. Quem me fez na madre a mim, não os fez também a eles? E não foi um que nos formou na madre?

16. Se retive o que desejavam os pobres, Ou se fiz desfalecer os olhos da viúva;

17. Ou se tenho comido sozinho o meu bocado, E dele o órfão não participou

18. (Pelo contrário desde a minha mocidade eu o criei como pai, E desde a madre da minha mãe fui o guia da viúva);

19. Se tenho visto alguém perecer por falta de roupa, Ou que o necessitado não tem com que se cobrir;

20. Se os seus lombos não me abençoaram, E se não se aquentava com os velos das minhas ovelhas,

21. Se tenho levantado a minha mão contra o órfão, Porque eu sentia apoio nos juízes:

22. Então caia o meu ombro da juntura, E dos ossos separe-se o meu braço.

23. Pois a calamidade vinda de Deus foi para mim um horror, Por causa da sua majestade eu nada pude fazer.

24. Se fiz do ouro a minha esperança, E disse ao ouro fino: Em ti confio;

25. Se me regozijei por ser grande a minha riqueza, E por ter a minha mão alcançado muito;

26. Se olhei para o sol quando resplandecia, Ou para a lua quando caminhava cheia de brilho,

27. E o meu coração se deixou enganar em oculto, E beijos lhes mandei com a minha mão:

28. Isso também seria uma iniqüidade que devia ser punida pelos juízes: Pois eu teria negado a Deus que está lá em cima.

29. Se me regozijei na ruína daquele que me odiava; Ou exultei quando o mal lhe sobreveio,

30. (Eu não permiti, na verdade, que a minha boca pecasse, Pedindo com imprecação a sua morte);

31. Se as pessoas da minha tenda não disseram: Quem nos dera achar a alguém que não nos tenha fartado da carne provida por ele.

32. O estrangeiro não passou a noite na rua, Mas abri as minhas portas ao viandante;

33. Se como Adão encobri as minhas transgressões, Escondendo a minha iniqüidade no meu seio,

34. Porque eu tinha medo da grande multidão, E o desprezo das famílias me aterrorizava, De modo que me calei e não saí da porta.

35. Oxalá que eu tivesse quem me ouvisse! (Eis a minha assinatura! que me responda o Todo-poderoso)! E que eu tivesse a acusação que o meu adversário escreveu!

36. Por certo eu a levaria sobre o ombro; Atá-la-ia à fronte como uma coroa.

37. Declarar-lhe-ia o número dos meus passos; Como um príncipe chegar-me-ia a ele.

38. Se a minha terra clamar contra mim, E se os meus sulcos juntamente chorarem;

39. Se comi os seus frutos sem dinheiro, Ou se fiz que os seus donos morressem:

40. Produza ela espinhos em lugar de trigo, E plantas daninhas em lugar de cevada. Acabadas são as palavras de .

1. Cessaram estes três homens de responder a , porque era justo aos seus próprios olhos.

2. Então se acendeu a ira de Eliú, filho de Baraquel buzita, da família de Rão; acendeu-se a sua ira contra , porque se justificava a si mesmo e não a Deus.

3. Também contra os seus três amigos se acendeu a sua ira, porque não tinham achado que responder, e contudo tinham condenado a .

4. Como eram mais velhos do que ele, Eliú tinha esperado até este momento para falar a .

5. Vendo Eliú que não havia resposta na boca destes três homens, acendeu-se-lhe a ira.

6. Então respondeu Eliú, filho de Baraquel buzita: Eu sou de pouca idade, e vós sois muito velhos, Pelo que receei e não me atrevi a manifestar a minha opinião.

7. Dizia eu: Falem os dias, E a multidão dos anos ensine a sabedoria.

8. Há, porém, um espírito no homem, E o assopro do Todo-poderoso dá-lhe entendimento.

9. Os de muitos anos não é que são sábios, Nem os velhos, que entendem o juízo.

10. Portanto eu dizia: Ouvi-me; Também eu manifestarei a minha opinião.

11. Eis que aguardei as vossas palavras, Escutei as vossas razões, Enquanto buscáveis que dizer.

12. Eu vos dei toda a minha atenção, E não houve entre vós quem convencesse a , Nem refutasse as suas palavras.

13. Não digais: Nele achamos a sabedoria, Deus é que pode vencê-lo, não o homem!

14. Ele não se dirigiu diretamente a mim, E eu não lhe responderei com as vossas razões.

15. Estão pasmados, não respondem mais! Faltam-lhes palavras.

16. Hei de eu esperar, porque eles não falam, Por que estão parados e não respondem mais?

17. Eu também darei a minha resposta, Também manifestarei a minha opinião.

18. Pois estou cheio de palavras, O espírito dentro de mim me constrange.

19. Eis que o meu peito é como o mosto sem respiradouro, Como odres novos que estão para arrebentar.

20. Falarei, para que eu ache alívio; Abrirei os meus lábios e responderei.

21. Que não seja eu, pois, levado de respeitos humanos, Nem use de lisonja para com homem algum.

22. Pois não sei usar de lisonja; Se assim fizesse, em breve me levaria o meu Criador.

1. Todavia peço-te, , que ouças o meu discurso, E que dês ouvidos a todas as minhas palavras.

2. Eis que agora abro a minha boca, E em minha boca fala a minha língua.

3. As minhas palavras vão mostrar que é reto o meu coração! Os meus lábios falarão com sinceridade o que sabem.

4. O espírito de Deus me fez, E o assopro do Todo-poderoso me dá vida.

5. Se puderes, responde-me; Põe as tuas palavras em ordem diante de mim, apresenta-te.

6. Eis que diante de Deus sou o que tú és; Eu também sou formado do barro.

7. Eis que não inspiro terror que te amedronte, Nem será pesada sobre ti a minha mão.

8. Na verdade disseste aos meus ouvidos, E ouvi o som das tuas palavras:

9. Estou limpo, sem transgressão; Sou inocente, e não há em mim iniqüidade:

10. Eis que Deus procura motivos de inimizade comigo, E me considera como o seu inimigo,

11. Põe no tronco os meus pés, E observa todas as minhas veredas.

12. Eu te responderei que nisso não tens razão, Pois Deus é maior do que o homem.

13. Queres contender com ele, Porque ele não dá conta dos seus atos.

14. Entretanto Deus fala de um modo, E ainda de outro modo, sem que o homem lhe atenda.

15. Em sonho, em visão noturna, Quando cai sono profundo sobre os homens, E dormem na cama;

16. Então lhes abre os ouvidos, E lhes sela a instrução,

17. Para apartar o homem do seu mau propósito, E escondê-lo da soberba;

18. Para guardar da cova a sua alma, E que a sua vida não pereça pela espada.

19. É castigado no seu leito com dores, E com luta constante nos seus ossos.

20. De modo que a sua vida abomina o pão, E a sua alma a comida apetecível.

21. Consome-se a sua carne, de maneira que desaparece, E os seus ossos que não se viam, se descobrem.

22. A sua alma aproxima-se da cova; E a sua vida, dos mensageiros da morte.

23. Se houver com ele um anjo, Um intérprete, um entre mil, Para mostrar ao homem qual é o seu dever;

24. Então Deus se compadece dele, e diz ao anjo: Livra-o, para que não desça à cova, Acabo de achar resgate.

25. A sua carne faz-se mais fresca do que a duma criança, Ele torna aos dias da sua mocidade.

26. Ele ora a Deus, e Deus lhe é propício; De modo que lhe vê o rosto com júbilo, E lhe restitui a sua justiça.

27. Canta diante dos homens, e diz: Pequei, e perverti o que era reto, E não fui punido como merecia.

28. Deus resgatou a minha alma da cova, E a minha vida verá a luz.

29. Eis que tudo isso faz Deus Duas, e três vezes, ao homem,

30. Para reconduzir da cova a sua alma, A fim de que seja iluminado com a luz dos viventes.

31. Atende, , ouve-me; Cala-te, e eu falarei.

32. Se tens alguma cousa que dizer, responde-me; Fala, porque gostaria de te dar razão.

33. Se não, escuta-me; Cala-te, e eu te ensinarei a sabedoria.

1. Disse mais Eliú:

2. Ouvi, sábios, as minhas palavras; Escutai-me, vós que tendes conhecimento,

3. Pois o ouvido prova as palavras, Como o paladar experimenta a comida.

4. Escolhamos para nós o que é reto; Conheçamos entre nós o que é bom.

5. Porque disse: Sou justo, E Deus me tirou o direito.

6. Apesar do meu direito sou tido por mentiroso; Incurável é a minha ferida, embora não seja um transgressor.

7. Que homem há como , Que bebe o escárnio como água?

8. Que anda com os que obram a iniqüidade, E caminha com os homens iníquos?

9. Pois disse: De nada aproveita ao homem Ter o seu prazer em Deus.

10. Portanto ouvi-me, homens de entendimento: Longe esteja de Deus, que pratique ele a maldade; E do Todo-poderoso, que cometa a iniqüidade!

11. Pois retribuirá ao homem segundo as suas obras, E pagará a cada um segundo os seus caminhos.

12. Na verdade Deus não procederá iniquamente, Nem o Todo-poderoso perverterá o juízo.

13. Quem lhe encarregou de governar a terra? Ou quem organizou o mundo todo?

14. Se ele pensar no homem, Se recolher a si o seu espírito e o seu fôlego,

15. Toda a carne perecerá dum golpe, E o homem voltará para o pó.

16. Se, pois, há em ti entendimento, ouve isto; Escuta ao som das minhas palavras.

17. Acaso governará aquele que odeia o direito? Condenarás tu aquele que é justo e potente?

18. Deve dizer-se ao rei: Tu és vil? Ou aos nobres: Vós sois iníquos?

19. Quanto menos àquele que não guarda respeito às pessoas de príncipes, Nem estima o rico mais do que o pobre? Pois todos são obras das suas mãos.

20. De improviso morrem, à meia noite; Estremecem os povos e passam, E os poderosos são tirados sem intervenção humana.

21. Os olhos de Deus estão sobre os caminhos do homem, E vê todos os seus passos.

22. Não há trevas nem sombra da morte, Onde se escondam os que obram a iniqüidade.

23. Pois Deus não precisa observar o homem por longo tempo, Para que este compareça perante ele em juízo.

24. Ele despedaça os poderosos sem tomar informação, E põe outros em lugar deles.

25. Portanto toma conhecimento das suas obras, E de noite os transtorna, de sorte que são esmagados.

26. Ele os fere como iníquos, À vista de todos;

27. Porque se desviaram e não o seguiram. Não quiseram compreender nenhum dos seus caminhos,

28. Fazendo que o clamor do pobre subisse a Deus, Que ouviu o clamor dos aflitos.

29. Quando ele dá tranqüilidade, quem pode condenar? Quando esconde o seu rosto, quem o pode contemplar? Trata igualmente seja uma nação seja um homem:

30. Para que o ímpio não reine, E não haja quem iluda o povo.

31. Pois jamais disse alguém a Deus: Tenho suportado castigos, ainda que não ofendo.

32. O que não vejo, ensina-mo tu; Se tenho feito iniqüidade, não a tornarei a fazer?

33. Será a sua recompensa, como queres, para que a recuses? Pois tu tens que fazer a escolha e não eu: Portanto fala o que sabes.

34. Os homens de entendimento dir-me-ão, E todo o sábio que me ouve:

35. fala sem conhecimento, E as suas palavras são despidas de sabedoria.

36. Oxalá que fosse provado até o fim, Porque respondeu como os iníquos!

37. Pois ao seu pecado acrescenta a rebelião, Ele bate as mãos no meio de nós, E multiplica as suas palavras contra Deus.

1. Disse mais Eliú:

2. Acaso pensas que isto é o teu direito, Ou dizes: Maior é a minha justiça do que a de Deus,

3. Para que digas: Que te aproveitará? E: Que proveito tenho mais do que se eu tivera pecado?

4. Eu te responderei a ti E aos teus companheiros também.

5. Olha para os céus, e vê; E contempla o firmamento que é mais alto do que tu.

6. Se pecas, que mal lhe causas tu? E se as tuas transgressões se multiplicam, que lhe fazes?

7. Se és justo, que lhe dás? Ou que recebe ele da tua mão?

8. A tua maldade pode fazer o mal ao homem teu semelhante; E a tua justiça pode ser útil ao filho do homem.

9. Por causa da multidão das opressões gritam os homens, Clamam por auxílio em razão dos braços dos poderosos;

10. Mas ninguém diz: Onde está Deus meu Criador, Que inspira canções durante a noite;

11. Que nos ensina mais do que às bestas da terra, E nos faz mais sábios do que as aves do céu?

12. Ali clamam (mas ninguém há que responda) Por causa da sabedoria dos maus.

13. É em vão que se grita, Deus não ouvirá, O Todo-poderoso não o levará em conta.

14. Ainda que dizes que não o vês, A tua causa está diante dele; portanto espera-o.

15. Mas agora, porque não visita com a sua ira, Nem faz muito caso da arrogância,

16. Por isso começa a falar vãmente; Multiplica sem ciência palavras.

1. Prosseguiu ainda Eliú:

2. Espera-me um pouco, e te mostrarei, Porque ainda tenho alguma cousa a dizer a favor de Deus.

3. De longe trarei o meu conhecimento, E ao meu Criador atribuirei a justiça.

4. Pois, na verdade, as minhas palavras não são falsas: Está contigo um que tem perfeito conhecimento.

5. Eis que Deus é grande, e não despreza a ninguém: É grande no poder do entendimento.

6. Ele não preserva a vida do iníquo, Mas faz justiça aos aflitos.

7. Dos justos não aparta os seus olhos; Mas juntamente com os reis sobre o trono Fá-los sentar para sempre, e são exaltados.

8. Se estiverem presos em grilhões, E atados com as cordas da aflição,

9. Ele lhes faz ver as suas obras, As suas transgressões e que se têm portado com soberba.

10. Abre-lhes também o ouvido para receberem a instrução, E ordena que se tornem da iniqüidade.

11. Se o ouvirem e o servirem, Passarão os seus dias em prosperidade, E os seus anos em prazeres.

12. Mas se não ouvirem, perecerão à espada, E morrerão na sua cegueira.

13. Porém os ímpios de coração se entregam à colera; Não clamam a Deus por socorro, quando os põe em grilhões.

14. Perdem a vida na sua mocidade, E morrem como os sodomitas.

15. Ele livra o aflito por meio da sua aflição, E na opressão lhe abre o ouvido.

16. Na verdade te haveria tirado da angústia Para um lugar espaçoso, onde não há estreiteza; E as iguarias da sua mesa seriam cheias de gordura.

17. Mas estás de completo acordo com o juízo do iníquo: O juízo e a justiça tomarão conta de ti.

18. Não permitas, pois, que a ira te induza a escarnecer; Nem te desvie a grandeza do resgate.

19. Bastarão, porventura, as tuas riquezas, para que não estejas em aperto, Ou todas as forças da tua fortaleza?

20. Não suspires pela noite, Em que povos são cortados do seu lugar.

21. Guarda, não declines para a iniqüidade, Pois isso escolhes antes que a aflição.

22. Eis que Deus em seu poder procede com alteza; Quem ensina como ele?

23. Quem lhe prescreveu o seu caminho? Ou quem poderá dizer: Praticaste a injustiça?

24. Lembra-te de magnificares as suas obras, De que têm cantado os homens.

25. Todos os homens têm olhado para elas; O homem as comtempla de longe.

26. Eis que Deus é grande, e não o conhecemos; O número dos seus anos não se pode esquadrinhar.

27. Pois suga as gotas de água, Que do seu vapor se tornam em chuva,

28. A qual as nuvens derramam E fazem cair abundantemente sobre o homem.

29. Também pode alguém, porventura, entender o expandir das nuvens, Os trovões do seu pavilhão?

30. Eis que ao redor de si estende a sua luz, E cobre o fundo do mar.

31. Pois por estas cousas julga o povo; Ele dá alimento em abundância.

32. Cobre as mãos com o relâmpago, E dá-lhe ordem contra o agressor.

33. O fragor da tempestade dá notícias a respeito dele, Também o gado o faz a respeito do temporal que vem subindo.

1. Sobre isto treme também o meu coração, salta do seu lugar.

2. Dai ouvidos ao estrondo da voz de Deus, E ao sonido que sai da sua boca.

3. Ele o envia por sob a extensão do céu, E o seu relâmpago até as extremidades da terra.

4. Depois ruge uma voz; Troveja com a sua voz majestosa; Não retarda os raios quando a sua voz é ouvida.

5. Troveja Deus maravilhosamente com a sua voz, Faz grandes cousas que não podemos compreender.

6. Pois diz à neve: Cai sobre a terra; Di-lo também às chuvas, Até as chuvas mais fortes.

7. Põe um selo à mão de cada homem, Para que o conheçam todos os homens que fez.

8. Então as feras entram nos esconderijos, E ficam nos seus covis.

9. Da câmara do sul sai o tufão, E do norte o frio.

10. Ao sopro de Deus forma-se o gêlo, E as amplas águas são congeladas.

11. Carrega de umidade a densa nuvem, E estende a sua nuvem de relâmpagos,

12. Que faz evoluções sobre a sua direção, Para efetuar tudo o que lhe ordena, Sobre a superfície do mundo habitável:

13. Ou seja para a correção (ou seja para sua terra), Ou para misericórdia, que ele a faça vir.

14. Inclina, , os teus ouvidos a isto, Pára e considera as maravilhas de Deus.

15. Acaso sabes como Deus lhes dá as suas ordens, E faz brilhar o relâmpago da sua nuvem?

16. Porventura sabes o equilíbrio das nuvens, As maravilhas daquele que é perfeito em conhecimento.

17. Tu cujos vestidos são quentes, Quando a terra está quieta por causa do siroco?

18. Acaso podes, como ele, estender o firmamento, Que é sólido como um espelho fundido?

19. Ensina-nos o que lhe diremos, Pois ignorantes nós não podemos dirigir-lhe a palavra.

20. Ser-lhe-á dito que quero discutir? Desejaria um homem ser aniquilado?

21. Eis que o homem não pode olhar para o sol que brilha no firmamento, Quando o vento tem passado e o deixa limpo.

22. Do norte vem o áureo esplendor, Deus está cercado de majestade terrível.

23. Quanto ao Todo-poderoso não o podemos compreender; grande é em poder: Não perverterá o juízo e a plenitude da justiça.

24. Portanto os homens o temem: Ele não se importa com os que se julgam sábios.

Você está lendo na edição TB, Sociedade Bíblica Britânica, em Português.
Este lívro compôe o Antigo Testamento, tem 42 capítulos, e 1070 versículos.